quarta-feira, agosto 25, 2004

Vou Saltar

Sabes querido, o meu rabo já está a ficar gordo de estar sempre sentada. Foi a necessidade que levou a que vendêssemos a quinta do Alentejo. Eu sempre te disse que o tal negócio não dava nada, não ia dar em nada e tu sempre a insistir. Se eu te dissesse que eras um grande chato... Já não vou a tempo, bem o sei, o mal está feito. Escorre-me esta ansiedade e então sinto tudo em repetição, primeiro bem claro, depois difuso, em grande confusão, em crescendo. Lembras-te de uma obra do Steve Reich? O “Come Out”, sim. Repete-se-me tudo em memória e eu sem poder fazer para aliviar esta turbulência interior. Este jogo mnemónico que eu evitaria se pudesse, a todo o custo o faria, disseram-me hoje que só acabará quando morrer. Estou maluca e soube-o hoje. É um facto assinalável este, descobrir-me maluca. Já desconfiava mas ouvir as palavras de um técnico qualificado marca a diferença. Sabes quantos malucos correm aí pelas ruas? Eles são-no, apenas não o sabem. Fossem como nós e teriam um profissional qualificado e competente que lhes diria as verdades. E sabiam então que não passam de tolos, malucos, como eu. Olha que são muitos. Lembras-te onde guardaste o Steve Reich? Está por ordem alfabética? Na clássica ou contemporânea? Não encontro nada. Tens a certeza? Vou ver de novo. Olha, cá está, afinal deixaste-a na clássica. Vou pôr ao lado do Stockhausen. Ah não, o que interessa é o apelido, Reich, R. Cá está. Não foste às compras? O frigorífico está vazio e apetecia-me um iogurte. De morango com pedaços, tu sabes. Não te lembraste, não foi? Qual trabalho? Saíste antes das sete do trabalho, dava tempo para passar pelo supermercado. Podes mudar de canal? São só notícias, querido. Amanhã lês tudo no Público. Sabes que na televisão agora é só sensacionalismo. Ah, tá bem, se só queres ver o resumo do jogo. Olha, falei com a Clarisse. Tive de lhe telefonar a contar. Agora que olho para o telemóvel tenho aqui duas chamadas. Não interessa de quem são! O telemóvel é meu ou não? Primeiro chateias-me e depois fazes essa cara? É o António. Sim, o António. Porque é que fazes tantas perguntas? Deve ter telefonado a perguntar como foi a consulta. Tenho de lhe ligar. Agora não tenho saldo. Amanhã não te esqueças de mo carregar, 'tá? Ele sempre foi meu amigo, não é de agora. E o que raio tem a ver ele ter deixado a mulher? Acaso fui eu culpada? Dizes então que ele deve andar interessado em mim? Com este rabo gordo?

NC

segunda-feira, agosto 23, 2004

Estás tão longe aqui ao pé de mim

Dedicado à Manuela

tens vinte e nove anos mas dizes ter quarenta e muitos com medo que me apaixone por ti,
pior:
que tu te apaixones por mim. Projectas o verde dos teus olhos no céu do meu pensamento como se verdes fossem os meus sonhos e esperas que eu não diga que
estou apaixonado por ti, pois receias que
(dada a minha inexperiência com as coisas do amor)
te magoe. Na noite de um qualquer dia em que já levávamos os nossos dias a pensar nos dias do outro, jantámos em Faro. Tinhamos uma garrafa de Borba sobre a mesa e peixe frito no prato. As pessoas em volta olhavam-nos, diziam
que casal simpático, ela é tão bonita. Logo de seguida, com a distância dos estranhos
(munidos da certeza que se tem quando não se conhece)
dispararam que eu estava apaixonado. Tu sorriste, disseste
foi bom teres vindo, e eu
nervoso miudinho, os meus olhos agora verdes reflectidos nos teus, segurando a doçura que os teus lábios me incitam, respondi com um esgar de ombros e sorriso complacente como quem diz
Estou feliz.

*

Puxas de um cigarro e enquanto me pedes lume, olhas-me com o mesmo olhar que a máquina fotográfica fixou: recordo aí a primeira fotografia que me fizeste chegar, confirmo mentalmente que foi num dia em que fazia um frio de rachar; era janeiro e tu, desafiadora, arremessavas-me com o registo de que à tua porta fazia um sol danado e que a praia estava cheia de gente. De seguida, pediste-me que corresse para a caixa de correio e eu
obediente como sempre
acorri à inbox do e-mail, onde tu me esperavas, bela:
deitada numa espreguiçadeira, com um sorriso espraiado ao largo do rosto sardento com o fumo a sair-te por entre as narinas, dispunhas os braços em cruz, apoiando a nuca. Bonita, mantinhas-te altiva e descontraída – esperavas que eu chegasse, enfim chegasse. Sorri também; um sorriso breve, como breve era a minha espera até hoje
espera paciente
convulsa em espasmos alegres e tristes. Recordo o ouvido junto ao telemóvel, esperando que ele toque; o olhar perdido vendo o ecrã, aguardando por uma resposta.
Mas só esperei porque houve um dia. Um em que deixaste de ligar, um outro que não voltaste a escrever. Pensaste
ou vens cá ou perdes-me,
mas aquilo que me disseste e por inerência aquilo que escutei foi, tão só
está tudo bem. E eu quis acreditar que estava de facto tudo bem, pois acreditava sempre em ti, mesmo quando me mentias e eu sabia que o fazias. Achava sempre que duvidar era profanar-te; sabia que por detrás de uma qualquer mentira há sempre uma verdade, mais não seja a verdade que é a inversão da mentira que alguém conta. Mas desta vez não. Pensei:
não te quero perder, quero ter alguém a quem dizer
Estou aqui. Por isso
sozinho
decidi transformar os teus desejos encobertos, de que tinhas vergonha, em realidades medonhas, compassadas no ritmo do tempo que nos foge
para
(ao pé destes estranhos, com o fumo a arder-nos nos olhos, a garrafa de Borba sobre a mesa e o empregado que me evita,
a ideia de hoje que vai ser a memória de amanhã)
sem apelo nem agravo, anestesias ou prólogos desnecessários, exausto, enfim
como que adivinhando o oásis dos meus sonhos
dizer-te
- Vim para ficar.
PF

quinta-feira, agosto 12, 2004

Esta noite papo a Teresa

Esta noite papo a Teresa. Só falta meia hora para a gala e não sei ainda que perfume usar. A Teresa, a Zé e a Ana vão lá estar. Alguma há-de passar a noite lá em casa. Pelo menos assim espero. Já não trago cá ninguém desde aquela da discoteca, nem me lembro do nome, já foi para aí há um mês. A Teresa vai ser difícil mas vou começar por ela. Ainda hoje no escritório lançou umas dicas. Vou tentar, não perco nada. E se não der, passo à Zé. Mas a Zé é um bocado maluca, quando se põe com aquelas conversas daquelas cenas góticas e dos livros esquisitos que anda a ler. .Vou tentar é ser discreto, para a Ana não ver. Se nenhuma destas quiser levo a Ana, que se lixe. A Ana é mais fácil. O pior é que depois se vai pôr com tretas de sentimentos e mais não sei o quê e já não gostas de mim e agora já gostas e eu não tenho paciência nenhuma para aquilo. E não lhe gramo aquelas meias, sempre pretas, se ainda andasse como as outras, com as meias de rede debaixo da saia preta, ela não, parece que não tem o mínimo bom gosto. Mas em contrapartida é só querer. Mas primeiro vou à Teresa, é certo. E, se não der, à Zé, que deve ser uma maluca na cama. Ou meto-me com todas e depois iam todas lá a casa. Isso é que era bom. Mas o que me interessa agora é o perfume. Que raio de frasco vou abrir? Este da embalagem esquisita é um bocado amaricado mas elas gostam. Eu é que não gosto muito. O da embalagem quadrada é mais vulgar. Mas eu gosto. Faltam vinte e nove minutos e ainda não me decidi. A minha sorte é que tenho o fato passado, por sorte já estava todo arranjadinho. Só me avisaram que conseguiram o convite há minutos, foi mesmo por sorte, e aqueles papalvos esqueceram-se de me avisar mais cedo. Porra, os sapatos estão sujos. E agora nem tempo tenho para os limpar como deve ser. Mas com este gel ninguém me vai olhar para os sapatos. As patilhas estão bem. Eu gosto. Algumas dizem que não gostam, mas deve ser só para se meterem comigo. Os dentes é que podiam estar mais brancos. Tenho de os lavar mais vezes ao dia. Tretas. Digo sempre isto e depois nunca faço nada. Como em tantas outras coisas. Como sempre. Amanhã há futebol, em casa do Rui, tenho de lhe levar o dvd. O Harrison Ford é um grande actor. Eu gosto mais dos filmes do Indiana Jones mas quando ele faz de presidente da América vai muito bem. O filme é que é um bocado chato, principalmente quando eles se põe a falar de política e mais não sei o quê e não sei que mais. Tenho de lhe levar o dvd. Ou então não. Digo que me esqueci. O filho da mãe tem aqueles meus cds todos e ainda não mos devolveu. É isso, quando ele se lembrar eu também me lembro. É justo. Pronto, já não estão tão mal, os sapatos. Espero é não os sujar pelo caminho. Pois é, o chão deve estar cheio de poças de água. Com aquilo que tem chovido não me admirava nada. Porcaria de tempo, no sábado não vai dar para ir jogar à bola no campo do Inatel. Tenho de falar disso com o Tiago, logo. Espero que aquele cromo apareça lá. Arranjaram um convite para ele e tudo. Ele não é muito destas coisas, raramente sai à noite, mas esta noite vai ser especial. A Mónica vai lá estar. A Mónica é bonita. E muito querida. E ele é um grande idiota, se calhar não merecia tanto. Mas é um tipo porreiro. Acho que ficam bem. Talvez hoje eles percebam o que até agora não quiseram ainda perceber. Se não for hoje o melhor é desistir. Tenho de calçar os sapatos, escolher o perfume, descer as escadas, que o elevador está avariado e o raio do senhorio nunca mais trata do assunto, dar uma boa noite à senhora da loja que fica mesmo à porta de casa, caminhar pela calçada até ao café, encontrar-me lá com o Sérgio, beber um whisky em dois goles só para alegrar e depois vamos os dois até à festa que ele leva o carro. Mas agora faltam dezanove minutos. E ainda não me decidi sobre o perfume.
NC

quarta-feira, agosto 11, 2004

Fazes-me sombra

Dedicado à Diana

Numa tendência marcada pela regularidade, da noite chegou a manhã. A manhã anunciou-se pela luz que fugia por entre as frestas dos estoros. A janela semi aberta trazia ao nosso espaço a presença de um reboliço citadino que ignorávamos. Por entre um abraço e um murmúrio, uma respiração tua mal medida, perguntei-te se estava tudo bem. Aninhada no meu peito, com o teu rosto junto ao meu ombro despido, disseste em surdina,
como quem no lugar de desejos, pede um medo
Amo-te
e sentimos ambos que sacralizaras em sílabas o banal momento após uma noite a respirar o mesmo oxigénio. Escaparas uma vez mais de casa e, ao abrigo de um trabalho
(uma noite de estudo ou um autocarro perdido, não me recordo)
decidiras refugiar-te em mim e na pensão rasca de origem gaulesa,
(seulement une nuit?)
algures entre o nada e Braga. Olhei-te, tentando encontrar os teus olhos por entre o escuro que assomava o quarto e, uma vez mais de novo em novo, enquanto seguravas a minha mão irregular sobre a tua pele nervosa, como se não tivesse escutado nada do que disseras, repetiste com segurança
amo-te
emudecendo de seguida, esperando talvez que te dissesse que
também te.

*
Somos peças desencontradas de um puzzle que o tempo limou para que hoje fossemos um só pedaço de um plano de uma pintura triste, esquartejada a pinceladas por um artista febril. Passas com a mão em círculos pelo meu tronco e juras que estás feliz. Adormecemos enfim, comigo exausto por te sentir tão perto e passarão anos; e anos e anos. Soterrados pelo tempo e pelas rugas que te atacarão o rosto. Pela lesão no meu joelho, produto de uma qualquer prática desportiva, que assaltará o meu quotidiano, até reduzir os dois nossos corpos à ideia de estarmos juntos, apenas juntos – próximos daquele exíguo espaço e micro segundo em que dizes amo-te e eu fico com medo
muito
de te desiludir. A partir dali, do alto da tua sacrílega perfeição,
(aparição desonesta para um mundo em decomposição)
foi o meu corpo aquele que aceitaste para sofrer uma inevitável condenação a uma corrupção acelerada.
Dali, até ao último dos nossos dias horas minuto, momento,
que desejávamos que fosse dali a muito tempo,
como muito era ainda o tempo a haver para que um dia acordássemos, saíssemos do quarto e, mais tarde, fossemos apenas pó de volta ao pó, tu tinhas-me aceitado. Lembro-me de me ter perguntado: para sempre?
PF