Estás tão longe aqui ao pé de mim
Dedicado à Manuela
tens vinte e nove anos mas dizes ter quarenta e muitos com medo que me apaixone por ti,
pior:
que tu te apaixones por mim. Projectas o verde dos teus olhos no céu do meu pensamento como se verdes fossem os meus sonhos e esperas que eu não diga que
estou apaixonado por ti, pois receias que
(dada a minha inexperiência com as coisas do amor)
te magoe. Na noite de um qualquer dia em que já levávamos os nossos dias a pensar nos dias do outro, jantámos em Faro. Tinhamos uma garrafa de Borba sobre a mesa e peixe frito no prato. As pessoas em volta olhavam-nos, diziam
que casal simpático, ela é tão bonita. Logo de seguida, com a distância dos estranhos
(munidos da certeza que se tem quando não se conhece)
dispararam que eu estava apaixonado. Tu sorriste, disseste
foi bom teres vindo, e eu
nervoso miudinho, os meus olhos agora verdes reflectidos nos teus, segurando a doçura que os teus lábios me incitam, respondi com um esgar de ombros e sorriso complacente como quem diz
Estou feliz.
*
Puxas de um cigarro e enquanto me pedes lume, olhas-me com o mesmo olhar que a máquina fotográfica fixou: recordo aí a primeira fotografia que me fizeste chegar, confirmo mentalmente que foi num dia em que fazia um frio de rachar; era janeiro e tu, desafiadora, arremessavas-me com o registo de que à tua porta fazia um sol danado e que a praia estava cheia de gente. De seguida, pediste-me que corresse para a caixa de correio e eu
obediente como sempre
acorri à inbox do e-mail, onde tu me esperavas, bela:
deitada numa espreguiçadeira, com um sorriso espraiado ao largo do rosto sardento com o fumo a sair-te por entre as narinas, dispunhas os braços em cruz, apoiando a nuca. Bonita, mantinhas-te altiva e descontraída – esperavas que eu chegasse, enfim chegasse. Sorri também; um sorriso breve, como breve era a minha espera até hoje
espera paciente
convulsa em espasmos alegres e tristes. Recordo o ouvido junto ao telemóvel, esperando que ele toque; o olhar perdido vendo o ecrã, aguardando por uma resposta.
Mas só esperei porque houve um dia. Um em que deixaste de ligar, um outro que não voltaste a escrever. Pensaste
ou vens cá ou perdes-me,
mas aquilo que me disseste e por inerência aquilo que escutei foi, tão só
está tudo bem. E eu quis acreditar que estava de facto tudo bem, pois acreditava sempre em ti, mesmo quando me mentias e eu sabia que o fazias. Achava sempre que duvidar era profanar-te; sabia que por detrás de uma qualquer mentira há sempre uma verdade, mais não seja a verdade que é a inversão da mentira que alguém conta. Mas desta vez não. Pensei:
não te quero perder, quero ter alguém a quem dizer
Estou aqui. Por isso
sozinho
decidi transformar os teus desejos encobertos, de que tinhas vergonha, em realidades medonhas, compassadas no ritmo do tempo que nos foge
para
(ao pé destes estranhos, com o fumo a arder-nos nos olhos, a garrafa de Borba sobre a mesa e o empregado que me evita,
a ideia de hoje que vai ser a memória de amanhã)
sem apelo nem agravo, anestesias ou prólogos desnecessários, exausto, enfim
como que adivinhando o oásis dos meus sonhos
dizer-te
- Vim para ficar.
PF
tens vinte e nove anos mas dizes ter quarenta e muitos com medo que me apaixone por ti,
pior:
que tu te apaixones por mim. Projectas o verde dos teus olhos no céu do meu pensamento como se verdes fossem os meus sonhos e esperas que eu não diga que
estou apaixonado por ti, pois receias que
(dada a minha inexperiência com as coisas do amor)
te magoe. Na noite de um qualquer dia em que já levávamos os nossos dias a pensar nos dias do outro, jantámos em Faro. Tinhamos uma garrafa de Borba sobre a mesa e peixe frito no prato. As pessoas em volta olhavam-nos, diziam
que casal simpático, ela é tão bonita. Logo de seguida, com a distância dos estranhos
(munidos da certeza que se tem quando não se conhece)
dispararam que eu estava apaixonado. Tu sorriste, disseste
foi bom teres vindo, e eu
nervoso miudinho, os meus olhos agora verdes reflectidos nos teus, segurando a doçura que os teus lábios me incitam, respondi com um esgar de ombros e sorriso complacente como quem diz
Estou feliz.
*
Puxas de um cigarro e enquanto me pedes lume, olhas-me com o mesmo olhar que a máquina fotográfica fixou: recordo aí a primeira fotografia que me fizeste chegar, confirmo mentalmente que foi num dia em que fazia um frio de rachar; era janeiro e tu, desafiadora, arremessavas-me com o registo de que à tua porta fazia um sol danado e que a praia estava cheia de gente. De seguida, pediste-me que corresse para a caixa de correio e eu
obediente como sempre
acorri à inbox do e-mail, onde tu me esperavas, bela:
deitada numa espreguiçadeira, com um sorriso espraiado ao largo do rosto sardento com o fumo a sair-te por entre as narinas, dispunhas os braços em cruz, apoiando a nuca. Bonita, mantinhas-te altiva e descontraída – esperavas que eu chegasse, enfim chegasse. Sorri também; um sorriso breve, como breve era a minha espera até hoje
espera paciente
convulsa em espasmos alegres e tristes. Recordo o ouvido junto ao telemóvel, esperando que ele toque; o olhar perdido vendo o ecrã, aguardando por uma resposta.
Mas só esperei porque houve um dia. Um em que deixaste de ligar, um outro que não voltaste a escrever. Pensaste
ou vens cá ou perdes-me,
mas aquilo que me disseste e por inerência aquilo que escutei foi, tão só
está tudo bem. E eu quis acreditar que estava de facto tudo bem, pois acreditava sempre em ti, mesmo quando me mentias e eu sabia que o fazias. Achava sempre que duvidar era profanar-te; sabia que por detrás de uma qualquer mentira há sempre uma verdade, mais não seja a verdade que é a inversão da mentira que alguém conta. Mas desta vez não. Pensei:
não te quero perder, quero ter alguém a quem dizer
Estou aqui. Por isso
sozinho
decidi transformar os teus desejos encobertos, de que tinhas vergonha, em realidades medonhas, compassadas no ritmo do tempo que nos foge
para
(ao pé destes estranhos, com o fumo a arder-nos nos olhos, a garrafa de Borba sobre a mesa e o empregado que me evita,
a ideia de hoje que vai ser a memória de amanhã)
sem apelo nem agravo, anestesias ou prólogos desnecessários, exausto, enfim
como que adivinhando o oásis dos meus sonhos
dizer-te
- Vim para ficar.
PF

6 Comments:
Tu és lindo!Manuela
:-)
http://ofaroldasartes.blogspot.com
Um belo texto. Gostei tanto de lê-lo. Memso muito.
Beijos
Corrigindo: Mesmo muito. : )
EUGÉNIA, minha querida: beijos, muitos. ainda bem que gostaste ;)
leio e releio incansavelmente cada palavra aqui escrita e, de repente, quando desperto, já não são letras o que vejo, mas um turbilhão de sentimentos sentires sentidos...
:)
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