quarta-feira, agosto 11, 2004

Fazes-me sombra

Dedicado à Diana

Numa tendência marcada pela regularidade, da noite chegou a manhã. A manhã anunciou-se pela luz que fugia por entre as frestas dos estoros. A janela semi aberta trazia ao nosso espaço a presença de um reboliço citadino que ignorávamos. Por entre um abraço e um murmúrio, uma respiração tua mal medida, perguntei-te se estava tudo bem. Aninhada no meu peito, com o teu rosto junto ao meu ombro despido, disseste em surdina,
como quem no lugar de desejos, pede um medo
Amo-te
e sentimos ambos que sacralizaras em sílabas o banal momento após uma noite a respirar o mesmo oxigénio. Escaparas uma vez mais de casa e, ao abrigo de um trabalho
(uma noite de estudo ou um autocarro perdido, não me recordo)
decidiras refugiar-te em mim e na pensão rasca de origem gaulesa,
(seulement une nuit?)
algures entre o nada e Braga. Olhei-te, tentando encontrar os teus olhos por entre o escuro que assomava o quarto e, uma vez mais de novo em novo, enquanto seguravas a minha mão irregular sobre a tua pele nervosa, como se não tivesse escutado nada do que disseras, repetiste com segurança
amo-te
emudecendo de seguida, esperando talvez que te dissesse que
também te.

*
Somos peças desencontradas de um puzzle que o tempo limou para que hoje fossemos um só pedaço de um plano de uma pintura triste, esquartejada a pinceladas por um artista febril. Passas com a mão em círculos pelo meu tronco e juras que estás feliz. Adormecemos enfim, comigo exausto por te sentir tão perto e passarão anos; e anos e anos. Soterrados pelo tempo e pelas rugas que te atacarão o rosto. Pela lesão no meu joelho, produto de uma qualquer prática desportiva, que assaltará o meu quotidiano, até reduzir os dois nossos corpos à ideia de estarmos juntos, apenas juntos – próximos daquele exíguo espaço e micro segundo em que dizes amo-te e eu fico com medo
muito
de te desiludir. A partir dali, do alto da tua sacrílega perfeição,
(aparição desonesta para um mundo em decomposição)
foi o meu corpo aquele que aceitaste para sofrer uma inevitável condenação a uma corrupção acelerada.
Dali, até ao último dos nossos dias horas minuto, momento,
que desejávamos que fosse dali a muito tempo,
como muito era ainda o tempo a haver para que um dia acordássemos, saíssemos do quarto e, mais tarde, fossemos apenas pó de volta ao pó, tu tinhas-me aceitado. Lembro-me de me ter perguntado: para sempre?
PF

5 Comments:

At 3:47 da tarde, Blogger ZeoX said...

Pequenos detalhes que marcam grandes diferenças. Fantástico! Adorei!

 
At 12:42 da manhã, Blogger Conchita said...

O amor tem destas coisas. Gostei :)

www.diariodeconchita.blogspot.com

 
At 1:12 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Para sempre. Este espaço indefinido entre breves segundos e a eternidade...
Beijos

 
At 2:18 da tarde, Blogger Hugo said...

entao nao e que vim encontrar-te aqui? voltamos os dois a net, com blogs novos, com vontade de continuar a escrever.

welcome back, my friend. welcome back.

 
At 1:11 da tarde, Blogger Ciliegia said...

Rodopio depois do álcool.
Obrigada.

 

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