quinta-feira, setembro 30, 2004

A tua ausência no lugar íngreme da minha pele(*)

Este texto foi escrito há alguns meses. Inclui-o então no blog Cartas a Mónica. Mais tarde, viria a ser transformado na primeira carta do livro. O título do texto, esse, pertence a um amigo, de seu nome valter hugo mãe.


Vou comprar a casa onde viveste, pensei. E ao mesmo tempo que pensei, marquei uma reunião com a agente imobiliária que por sua vez reuniu na tua velha casa a tua antiga senhoria, eu e ela. E enquanto a agente e a tua senhoria vomitavam a ficha técnica do espaço
(cento e vinte metros quadrados, dois quartos, uma sala grande com varanda, boa vizinhança e espaço na garagem para dois carros)
tu estavas de avental na cozinha, ao fogão, a salpicares a comida de oregãos, a pores os pés de molho em água e sal no quarto e deitada no sofá da sala só com o robe por cima, indiferente a nós, ocupada com uma revista. Mais tarde passámos ao quarto que tu usavas como escritório e encontro-te escrevendo sobre a mesa, onde jazem livros de exercícios, lápis, canetas e uma borracha - documentos de trabalho e testes, como sempre muitos e atrasados, depositados a um canto do móvel, esperando a tua leitura.
A tua senhoria, que inicialmente começou por apenas ser tua colega de faculdade ignora ainda que conheço cada taco mal colocado no soalho; não saberá ela talvez que o sistema interno de aquecimento está avariado desde o dia em que munida de chaves de fendas e alicate, decidiste abrir o quadro e o fusível se queimou. Tu, derrotada e humilde, apanhaste um susto de morte e desde então passaste a usar aquecedor em todas as divisões para onde te deslocavas. Ela não sabe isto mas eu sei. Por isso, quando a agente imobiliária diz as palavras aquecimento e central, eu peço-lhe que faça uma pequena demonstração. A pobre senhora dirige-se ao quadro onde tudo se passou e apercebe-se que não funciona. Coloca para cima os interruptores uma e outra vez; confirma a potência e volta a puxar as cavilhas.
- Deve ser do disjuntor, avança como um expert na matéria. Pouco convencido que me demonstro, pede desculpa e confessa não saber como funciona. Que aquele é diferente dos que está habituada, remata por fim, exausta.
(muito moderno, diz a tua senhoria, embaraçada, no meio de um sorriso e do rubror que lhe invadiu as faces).
À medida que dou cada passo, e te vejo em cada divisão, sinto que jamais aguentaria estar um dia que fosse, uma hora, mais que aqueles minutos, naquela casa. Porque nela habitas tu, o teu cheiro e os teus cheiros – do teu perfume, do champô para o cabelo, do amaciador da roupa, do odor a sabão azul e branco que distribuías pelo chão da casa. E enquanto vou caminhando
(Sente-se bem?)
revivendo em cada quadrado de ladrilho a vida que ali passei e vivo, vou silenciando o meu discurso. Só por maldade e distracção, volto à história do aquecimento central. Embaraçada, a tua senhoria já se compromete a resolver o problema antes de eu ir para ali viver. Digo finalmente que não será por aí que deixarei de comprar a casa, o que claramente lhe alivia o rosto. O meu, por seu lado, confessa o crime que acabo de cometer.
Costuma dizer-se que apenas somos nós próprios quando ninguem está a olhar: e ali parece que toda a gente me olha: a tua senhoria, a agente imobiliária, as memórias, os acontecimentos, a ideia de ti, a ideia de mim quando nada era. Mas me sentia (in)feliz.
E por isso,
(só por isso)
corajoso e decidido, sem fazer mais perguntas ou dar respostas, fugi.

(*) valter hugo mãe, o resto da minha alegria, seguido de a remoção das almas, Porto, Cadernos de Campo Alegre, 2003).
PF

quarta-feira, setembro 22, 2004

Toda Aberta para Mim (A Janela)

À Sofia, pelas palavras.

Era um fim de tarde. A memória viajava pelo ano de 1994. Na televisão panorâmica da sala passava a lembrança de um jogo futebol e as pedras de gelo tentavam não se afogar no copo de martini esquecido na pequena mesa que guardava por baixo velhas revistas de decoração (nunca teve coragem para se livrar dela por completo, pelas revistas ela continuava na sala). Era mais um fim de tarde imenso e ela não estava. Os anos passavam mas ele não dava conta do voo rápido do tempo. Talvez tomasse consciência quando reparava ao espelho no seu cabelo era cada vez mais esbranquiçado – quando ela ainda passeava no apartamento apenas em cuecas ele tinha o cabelo preto, escuro, vivo. Era inútil pensar que havia volta, foi uma despedida explícita. Ela não receava as palavras e dessa última vez que o seu rosto o fitou havia sido tão concreta como o assistência milimétrica do Vítor Paneira para um golo fácil de cabeça num jogo em casa ao minuto 76. As cuecas, pretas, simples, sem rendas, eram a lembrança mais permanente, enorme saudade interrompida de uma vida a dois. Ela começou por desculpas simples: dor de cabeça, aqueles ciclos femininos; desculpas incompatíveis com a testosterona acumulada. E o tempo deixou que a imagem saborosa dela apenas em cuecas, como ele tanto gostava, se transformasse lentamente numa memória, apesar de ainda nítida, longínqua no tempo. “Não vou jantar, reunião”. “Chego tarde, reunião”. Tudo terminou numa sexta-feira. Mas o desejo não partiu com ela. Frequentemente, mais vezes quando mergulhava o pensamento num copo por entre as pedras de gelo derretidas, sentia a falta daquele corpo perfeito de deusa suburbana - loira, pernas insinuantes que lhe faziam bailar as anquinhas a cada passo enquanto os seus seios insubmissos cortejavam qualquer olhar. Invariavelmente, quando a via o sangue saltava num sopro, subia às faces e apertava-lhe a garganta de fome de amor. Num exercício repetido de prazer e dor, recordava a doçura daquela primeira vez. A noite a avançar sem pressas ao longo das notas de um piano, a descoberta do riso nas conversas um toque leve no braço, na perna, um beijo, dois beijos, os lábios, a pele, o fogo da noite a consumir duas almas num apartamento às três da manhã de uma sexta feira. A partir desse dia a vida tornou-se néctar. Houve um tempo feliz. Mas do mesmo modo que uma garrafa fica vazia, a perfeição nunca é eterna. E, num dia feio em que a chuva assombrava a vida da cidade, falaste. Que a vida se tornou insípida, que as conversas à beira-Tejo num domingo coberto pelo pôr-do-sol já não fluíam como o rio, que não querias deixar esmorecer o belo que havíamos criado. Citaste uma cantiga do Neil Young: ”it’s better to burn out, than to fade away”. Que eu tinha de ultrapassar, que eu tinha de perceber. Mas como posso entender que foste embora? Que me deixaste sozinho com os nossos (sim, eram nossos) planos de abraçarmos uma felicidade até aos cabelos brancos? Pensava em morrer abraçado a ti. Por vezes a janela aberta chama-me, mas algo me chama para trás. O Vítor Paneira fez uma assistência para o Yuran e marcou um golo, foi eleito o homem do jogo, o Benfica ganhou por três a zero e ficou a quatro pontos do segundo classificado e na mesa da sala o copo ficou vazio de líquido, só pedras com saudade. As pedras com saudade da bebida como eu de ti, sofro tanto por ti, mas acabo de receber um SMS a avisar que a Joana, a minha nova namorada morena, está a chegar e por isso desço, vou tentar agarrar a vida aos beijos àqueles lábios grossos, não a posso fazer esperar. Pedi-lhe que trouxesse cuequinhas pretas.
NC

sexta-feira, setembro 17, 2004

A terra onde o tempo não parou



Dedicado à Catarina
sob ébria influência de Bohumil Hrabal – o checo

Na sala de aulas, a Senhora Pires, de óculos espessos presos no nariz esfolado pelo tempo, não admite distracções nem conversas paralelas. Estamos ali porque nos decidimos a aprender mais um idioma, no entanto, esta continua a tratar-nos como mancebos de um pelotão. Escreve uma oração no quadro de ardósia negra e pede silêncio. A sua letra é irregular e praticamente indecifrável. Para mim, tudo aquilo é tão estranho quanto o que Katerina, a checa, escreveu no meu caderno de bolso num distante mês de Julho passado em Madrid: período instalado na minha memória, envolto em embriaguez e neblina. Katerina, a checa de cabelo ruivo e lingerie coincidente, nasceu em Praga mas cresceu em Paris. Estudava Literatura e queria doutorar-se com uma tese sobre o teatro checo da década de sessenta. Tinha vinte e três anos, mais dois do que eu e os seus dedos não estavam consumidos pelos dentes, como um queijo perscrutado por um dos ratos que habitam a residência para onde fomos enviados, ao abrigo de uma parceria dos diferentes ministérios dos negócios estrangeiros. Os meus sim, sofriam de um acelerado desgaste, sofrimento mais a mais prolongado pela ausência de Katerina e pela doce omnipresença de espírito que as suas robustas mamas, por baixo dos olhos meio cinzentos meio azuis, exerciam sobre a minha memória. Fomos enviados para Madrid com o objectivo de desenvolver a aprendizagem do idioma castelhano, que todos estudamos nas respectivas faculdades. Temos um plano de estudos e professores credenciados. Na prática não colocámos os pés nas aulas ao longo de todo o mês, embora conheçamos cada quarto e cada um dos seus residentes: divisões individuais, repartidas por nacionalidades para tudo ser mais fácil. Para não perdermos o Norte, sabemos que os desta região estão no terceiro andar da residência, os de leste no segundo e os mediterrânicos no primeiro, com direito a varanda e vista para a piscina, ladeada por uma relva curta onde estendemos as toalhas de praia. Os quartos da residência são uma espécie de carta de restaurante que visitamos tantas vezes, quantas o nosso agrado pelos pratos lá servidos. Por vezes, saímos de barriga cheia; outras somos enganados por publicidade enganosa; outras ainda sabemos que só forçámos o estômago a ingerir o que ingerimos porque estávamos demasiados bêbados para termos requinte na selecção do menú. Dizes Es la dirección de mis abuelos e quase foges. Eu fecho o caderno onde antes escreveste algo em checo, hieroglifos em que apenas consigo auscultar a palavra Brno, e coloco-o no bolso para só voltar a abri-lo já em Lisboa, nas aulas de checo, que me obrigo a aprender para poder estabelecer contigo um diálogo que vá além das saudações de convívio; paralelamente, junto-me a um grupo de simpatizantes da língua do Jan Palach, constituído maioritariamente por naturais ou descendentes checos a residir em Portugal, desportistas e advogados com casos complicados de imigração ilegal. Durante estes dois anos, leio livros checos traduzidos em português, vejo cinema checo, informo-me sobre a história do país, os costumes; durante este tempo, vendo livros, serviços por cabo e aparelhos auditivos para idosos pelo telefone. Após três milhares de chamadas, e dinheiro suficiente no mealheiro que não é um porco mas um pato de barro, deixo os exames da faculdade para trás, uma mãe que me desaconselha à decisão e embarco num avião com destino a Viena, a partir da qual tomarei um comboio para Brno – cidade de Hrabal, Kundera e Katerina, a checa. Ao pousar o pé direito na estação ferroviária, sou acometido por uma realidade para a qual não estava preparado: espera-me uma cidade de luz fusca com o pavimento sujo com beatas de cigarro e óleo dos eléctricos que naquele exacto momento se cruzam ruidosamente à minha frente; maços de cigarros vazios e escarros dos que passam. No pouco checo que aprendi, recruto um táxi que me leva até à morada indicada. O táxi é um, mais um, velho Skoda, que a custo anda, enquanto suja um pouco mais aquela cidade que me parece resgatada de um livro sobre a revolução industrial inglesa. O taxista tem cabelo oleoso e um bigode minúsculo, acompanhado de barba rala e grisalha; enquanto canta as versões checas dos sucessos da MTV, fuma incessantemente e não fala inglês. Deutsch, pergunta-me. No, respondo. Na direcção cedida por Katerina, encontro uma casa térrea com duas janelas e uma porta de madeira antiga. A porta tem um orifício de alguns centímetros por onde pela primeira vez cruzo olhares com Ana. Ana, de ancas generosas e lábios doces, sempre molhados, é uma italiana saudosa do seu namorado com nome impronunciável: um eslavo com ar deslavado e cabelo cor de cenoura numa cara cheia de sardas, como se coelhos laranjas lhe tivessem irregular e invariavelmente cagado em cima da cara. Ana informa-me que após a morte dos teus avós, vendeste a casa ao actual senhorio e migraste para Praga. Tal como o seu impronunciável que foi numa visita de estudo há duas semanas e ainda não voltou. Chego a Praga e na morada que Ana me cedeu a custo, percebo que já há algum tempo que Katerina abandonou aquele quarto. Um estudanteco francês de rabo de cavalo chamado Andrès, com olheiras grandes e tez morena, assome-se à porta e vomita uma lenga lenga qualquer, regada com muitos erres que não entendo. Triste e derrotado, com algumas cervejas no bucho volto a Brno, no mesmo autocarro que me levou à cidade mágica: um veículo sem espaço para esticar as pernas, naturalmente sem ar condicionado, saído da era estalinista que, como ironiza Ana, é contemporâneo da construção da linha de eléctricos com ligação directa à Praça Vermelha. Três horas de viagem decorridas, esta recebe-me no seu quarto e na sua cama – parece ter esquecido o Gagarin, dada a forma como a sua boca aporta as minhas partes íntimas e, sem que lho pergunte, diz-me que tem ainda quatro meses daquilo pela frente. Que veio no semestre passado para fazer Erasmus e ficará até ao final do ano. Diz-me que os amigos a chamam de Bé, como de Isabella – o segundo nome, e eu mais tarde faço o trocadilho fácil ao nível da minha ignorância perante as mulheres, chamando-a de Bé-Bé: tudo no exacto momento em que lhe peço para retirar a boca, em checo claro, e esta não assente. A semana termina, o bilhete de avião diz que tenho de regressar e, à despedida, Ana, ou Bé: Bebé?, leva-me até ao comboio, que fará o inverso caminho para a tão cosmopolita quanto cara cidade de Viena, onde o avião me esperará. Ana tem um olhar de comoção, um olhar que é como quem diz Perdi a minha oportunidade de ser feliz pela noite fora. Eu despeço-me com um acenar espaçado dos dedos. Em Viena, ainda tento descobrir o percurso do Before Sunrise. O guia turístico com ar de enfado, que é como quem diz És o sexto turista que me pergunta isso no espaço de quinze minutos, diz-me que é dar a volta ao Ring. Olho o relógio e o mapa e percebo que apenas tenho tempo para apanhar o avião para Lisboa e já na capital preencho os papéis para solicitar a transferência para as aulas da Senhora Pires que, idosa e mandona, com a estridente voz e alheia aos meus pensamentos e à memória dos meus sonhos molhados, agora ronca bem alto Silenzio! Prestatemi attenzione per favore.
PF

quarta-feira, setembro 08, 2004

De modo inconsequente (sob a luz)

A luz do fim de dia invadia o céu, as pessoas continuavam a vida, havia tempo. Era um fim de tarde vulgar e não era suposto acabar mais nada para além do dia. No apartamento desarrumado ainda havia um resto de calor, nas colunas da sala ecoavam as notas rápidas da banda sonora de um filme de Louis Malle, “Ascenseur pour L’Échafaud”. Havia um copo vazio e um cinzeiro cheio. Ele não fumava. Teria sido a prostituta quarentona e loira chamada Mimi. A madrugada ainda existe? É nas sombras dos autocarros que se recolhe o resto do mundo. E a verdade do mundo é para ser gritada, alto, um grito enorme, uma boca aberta até ficar sem som. Nessa noite não houve princípio, não houve história, não houve fim. Agora já tudo tinha terminado mas a atmosfera do quarto respirava ainda os vapores sujos da noite. É estranho pensar agora que já não estás para mim, João. É difícil aceitar que resolveste partir sem um aceno, não te pedia mais que isso, sabes bem. Já não volto a abrir a porta para te ver sorrir, como quando chegavas, trazias um sorriso gigante, e ao teu convite fora de horas não conseguia evitar um sim. Levavas-me contigo para sentir o mundo, provar os sabores da vida, afogar-me no prazer da noite e conhecer tudo porque vale a pena viver. Quando regressava a casa engatava uma desculpa maquinal como modo de evitar conversa e dormir. Onde estás, para onde foste sem avisar? Deixas-me só, isolado na vida e com medo do mundo, foste embora. Sorrias quando te falava em adultério, amor não autorizado, dizias só: somos felizes, não é? Talvez no meio da confusão que deixaste encontre uma pista para te encontrar, quem sabe um dia (o tempo pode ser infinito, assim como o meu desejo por ti). Hoje, agora que começo a perceber que só posso beber solidão em goles grandes, sinto a tua falta. Não era só ter-te deitado no sofá a fazer festas na barriga enquanto um filme francês nos distraía. Não era só ver-te a tentar cozinhar (tu nunca soubeste cozinhar, mas divertias-te a tentar). Não era só ter-te a soprar beleza ao meu ouvido, que depois a beleza se transformava na tua língua que depois descia pelo pescoço. Não era só isso, não eras só tu, éramos nós (apesar de na verdade nunca termos existido). Eu existi para ti? Nunca quis saber, penso que também não te interessasse. O que nos bastava era o momento. Para onde foi ele agora? Levaste-o contigo. Hoje, agora que te foste embora sem avisar, que deixaste a casa desarrumada e com uma poça enorme de sangue no chão, a música do trompete do Miles Davis continua a acompanhar a Jeanne Moreau e eu, como no filme, vou continuar a seguir-te e a sorrir aos teus acenos e quando, um dia perdido no infinito do tempo, nos cruzarmos não vou fazer perguntas, o amor não é curioso, vou-me deixar levar num beijo porque é assim que tudo acaba bem.
NC

quarta-feira, setembro 01, 2004

O meu corpo encoberto




Rita acorda-me, mesmo sabendo que não gosto que o façam. Que gosto de dormir, muito, e que aprecio efectuar progressivamente a transição entre Morfeu e o mundo, activo e desperto. Desde pequeno, quando fugia da minha cama para o calor dos lençóis dos meus pais, que diziam

Aí vem o cassula

e arranjavam sempre espaço entre eles para o meu corpo infantil, que gosto de fechar os olhos e descansar. Passaram-se três meses, mais coisa menos coisa e ela ainda não percebeu que agitações deste tipo aborrecem-me. Três meses contabilizados e ela insiste em me ligar para do outro lado dizer, gritando

- Guigo.

Todos este tempo e tão pouco percebeu que detesto o diminutivo. A minha mãe chamava-me assim e eu não gostava. O meu pai repetia a graça e eu repetia o recado. Recado que se aplicava a vizinhos e colegas de escola. Amigos dos meus pais, tios, primos, restantes familiares e a assistente no Ministério do Papá. Apenas à minha Avó permitia tal diminutivo, permuta que tinha por base os pedaços de pão com açucar que esta me dava de cada vez que eu começava a chorar. A minha mãe embalava-me no seu colo, cantava-me canções doces com a sua voz doce e levava-me até à janela para ver as árvores na rua e sentir o fresco do vento no rosto, mas eu não parava de chorar. O rosto tingia-se de vermelho e os olhos excluiam lágrimas que só em pequeno soltei. A minha mãe pegava em mim, insistia nas canções e eu não desistia de berrar. A minha avó aproximava-se, às escondidas da minha mãe dava-me uma fatia de pão com açucar e eu sossegava.

Rita volta à carga e continua

- Vamos ao Santini comer um gelado.

- Não me apetece. Alheia à minha vontade, teima que me apanha em meia hora. Desliga o telefone. Contesto porque naquele dia quero dispensar o bulício de Cascais. Diz-me que quer porque quer ir comer um gelado e que não se importa com a confusão. Ficamos num impasse. Nenhum cede. Cara ou coroa, digo enquanto já vou tirando uma moeda do bolso.

- Cara.
- Coroa.

Sai cara e como Rita não se acautela, dou a volta à moeda. Rita entedia-se, mas respeita as regras do jogo. Não falará durante toda a viagem, mas quando ouve as ondas do mar, esquece que amuou minutos antes. Sentamo-nos numa das mesas livres da esplanada.

Em volta, nada. Tudo passa. Tu esqueces-te que ainda há pouco preferias estar a comer um gelado. O teu olhar assumiu a tristeza que o caracteriza. Estás triste com algo que me escondes. Tens sempre algo a esconder; já deveria saber que o gelado nunca é só um gelado e o teu corpo nunca é apenas o teu corpo. Em esforço e em vão, tento perceber aquilo que queres dizer, o que tens entalado na garganta desde o momento em que após a buzina do telemóvel, gritaste

- Guigo

e me resgataste do sono, contudo, a única coisa que consigo é que me grites aos ouvidos

- Pára de olhar para a minha mancha!
- Qual mancha?
- Essa para onde estás a olhar.
- Não estou a olhar para nenhuma mancha.
- Nao digas nenhuma, como se não soubesses que tenho uma.
- Certo, não estava a olhar para a tua mancha na testa.
- Pronto!!! Tinhas mesmo que dizer isso dessa forma?
- Qual forma?
- Essa. Sublinhando o “Na tua testa”.
- ...
- Pensava que não vias nenhuma mancha
- ... e não vejo... não vejo...
- Acabaste de dizer que tinha uma...

E de facto Rita tinha uma mancha sobre a testa, entre os olhos um pouco acima da cana do nariz. Era uma mancha com uns dois centímetros de raio, cujo tom acastanhado e predominância irregular se intensificava com a exposição ao sol. A médica dizia que a causa era a pílula que tomava, e eu não tinha qualquer teoria sobre esse assunto. Para mim era apenas uma mancha.

Tudo o que sei hoje é que estávamos longe. Tão longe, muito demasiado em excesso longe. Longe de sermos outras pessoas que não aquelas: de a voz do outro nos fartar e o simples facto de do outro lado uma respiração correr nos incomodar. Ali, contudo, naquele momento estamos felizes. Estamos longe, tão e demasiado em excesso longe dos quatro ou cinco anos que vão passar e eu vou perceber que me mentes em cada telefonema feito. Estamos longe de deixares de atender o telemóvel às minhas insistentes tentativas; estamos longe, distantes diria mesmo, de termos a certeza de que existem mais vidas na tua vida, que a minha vida já não é a vida que tu queres que preencha a tua; que cedo vais dizer que vais sair e talvez passem dois, três quatro dias até que te ponha a vista em cima. Cedo demasiado cedo, eu não serei o tipo que sou naquela esplanada e situações que nos entristecem dentro de quatro ou cinco anos terão ali a sua malfadada génese.

Mas agora vejo-te à penumbra da luz finita de um Agosto quente. Estava em casa, pretendia nada fazer, mas porque tu preferias outro programa, terminámos numa esplanada com mais dois turistas. A recordação da esplanada dá-me saudades. O cheiro do café quente que pedimos também. Saudades do tempo e pouco corpo que o meu corpo foi corpo quando o teu corpo caía sobre o meu e o meu corpo e o teu corpo formavam mais um corpo. Sinto falta do contacto dos dois corpos que faziam mais um corpo e que proporcionavam gemidos e suor. Havia contacto saliva beijos toque energia que se desfazia no corpo do outro, descargas tensas impregnadas de amor. Amor amor amor, muito e muito mais amor. Lamento a ausência desse corpo, o objecto híbrido impronunciável que se formava e que somava cada um dos nossos corpos. Sinto falta de dares o teu corpo para ser acolhido pelo meu e germinarmos em nós um outro corpo. Tenho saudades desse terceiro corpo, produto de bem mais que a soma dos dois nossos corpos.

À parte das saudades, hoje já sei que serás sempre aquilo que então já eras: um sedimento. Juntos podiamos ter sido uma rocha.

PF