A tua ausência no lugar íngreme da minha pele(*)
Este texto foi escrito há alguns meses. Inclui-o então no blog Cartas a Mónica. Mais tarde, viria a ser transformado na primeira carta do livro. O título do texto, esse, pertence a um amigo, de seu nome valter hugo mãe.
Vou comprar a casa onde viveste, pensei. E ao mesmo tempo que pensei, marquei uma reunião com a agente imobiliária que por sua vez reuniu na tua velha casa a tua antiga senhoria, eu e ela. E enquanto a agente e a tua senhoria vomitavam a ficha técnica do espaço
(cento e vinte metros quadrados, dois quartos, uma sala grande com varanda, boa vizinhança e espaço na garagem para dois carros)
tu estavas de avental na cozinha, ao fogão, a salpicares a comida de oregãos, a pores os pés de molho em água e sal no quarto e deitada no sofá da sala só com o robe por cima, indiferente a nós, ocupada com uma revista. Mais tarde passámos ao quarto que tu usavas como escritório e encontro-te escrevendo sobre a mesa, onde jazem livros de exercícios, lápis, canetas e uma borracha - documentos de trabalho e testes, como sempre muitos e atrasados, depositados a um canto do móvel, esperando a tua leitura.
A tua senhoria, que inicialmente começou por apenas ser tua colega de faculdade ignora ainda que conheço cada taco mal colocado no soalho; não saberá ela talvez que o sistema interno de aquecimento está avariado desde o dia em que munida de chaves de fendas e alicate, decidiste abrir o quadro e o fusível se queimou. Tu, derrotada e humilde, apanhaste um susto de morte e desde então passaste a usar aquecedor em todas as divisões para onde te deslocavas. Ela não sabe isto mas eu sei. Por isso, quando a agente imobiliária diz as palavras aquecimento e central, eu peço-lhe que faça uma pequena demonstração. A pobre senhora dirige-se ao quadro onde tudo se passou e apercebe-se que não funciona. Coloca para cima os interruptores uma e outra vez; confirma a potência e volta a puxar as cavilhas.
- Deve ser do disjuntor, avança como um expert na matéria. Pouco convencido que me demonstro, pede desculpa e confessa não saber como funciona. Que aquele é diferente dos que está habituada, remata por fim, exausta.
(muito moderno, diz a tua senhoria, embaraçada, no meio de um sorriso e do rubror que lhe invadiu as faces).
À medida que dou cada passo, e te vejo em cada divisão, sinto que jamais aguentaria estar um dia que fosse, uma hora, mais que aqueles minutos, naquela casa. Porque nela habitas tu, o teu cheiro e os teus cheiros – do teu perfume, do champô para o cabelo, do amaciador da roupa, do odor a sabão azul e branco que distribuías pelo chão da casa. E enquanto vou caminhando
(Sente-se bem?)
revivendo em cada quadrado de ladrilho a vida que ali passei e vivo, vou silenciando o meu discurso. Só por maldade e distracção, volto à história do aquecimento central. Embaraçada, a tua senhoria já se compromete a resolver o problema antes de eu ir para ali viver. Digo finalmente que não será por aí que deixarei de comprar a casa, o que claramente lhe alivia o rosto. O meu, por seu lado, confessa o crime que acabo de cometer.
Costuma dizer-se que apenas somos nós próprios quando ninguem está a olhar: e ali parece que toda a gente me olha: a tua senhoria, a agente imobiliária, as memórias, os acontecimentos, a ideia de ti, a ideia de mim quando nada era. Mas me sentia (in)feliz.
E por isso,
(só por isso)
corajoso e decidido, sem fazer mais perguntas ou dar respostas, fugi.
(*) valter hugo mãe, o resto da minha alegria, seguido de a remoção das almas, Porto, Cadernos de Campo Alegre, 2003).
Vou comprar a casa onde viveste, pensei. E ao mesmo tempo que pensei, marquei uma reunião com a agente imobiliária que por sua vez reuniu na tua velha casa a tua antiga senhoria, eu e ela. E enquanto a agente e a tua senhoria vomitavam a ficha técnica do espaço
(cento e vinte metros quadrados, dois quartos, uma sala grande com varanda, boa vizinhança e espaço na garagem para dois carros)
tu estavas de avental na cozinha, ao fogão, a salpicares a comida de oregãos, a pores os pés de molho em água e sal no quarto e deitada no sofá da sala só com o robe por cima, indiferente a nós, ocupada com uma revista. Mais tarde passámos ao quarto que tu usavas como escritório e encontro-te escrevendo sobre a mesa, onde jazem livros de exercícios, lápis, canetas e uma borracha - documentos de trabalho e testes, como sempre muitos e atrasados, depositados a um canto do móvel, esperando a tua leitura.
A tua senhoria, que inicialmente começou por apenas ser tua colega de faculdade ignora ainda que conheço cada taco mal colocado no soalho; não saberá ela talvez que o sistema interno de aquecimento está avariado desde o dia em que munida de chaves de fendas e alicate, decidiste abrir o quadro e o fusível se queimou. Tu, derrotada e humilde, apanhaste um susto de morte e desde então passaste a usar aquecedor em todas as divisões para onde te deslocavas. Ela não sabe isto mas eu sei. Por isso, quando a agente imobiliária diz as palavras aquecimento e central, eu peço-lhe que faça uma pequena demonstração. A pobre senhora dirige-se ao quadro onde tudo se passou e apercebe-se que não funciona. Coloca para cima os interruptores uma e outra vez; confirma a potência e volta a puxar as cavilhas.
- Deve ser do disjuntor, avança como um expert na matéria. Pouco convencido que me demonstro, pede desculpa e confessa não saber como funciona. Que aquele é diferente dos que está habituada, remata por fim, exausta.
(muito moderno, diz a tua senhoria, embaraçada, no meio de um sorriso e do rubror que lhe invadiu as faces).
À medida que dou cada passo, e te vejo em cada divisão, sinto que jamais aguentaria estar um dia que fosse, uma hora, mais que aqueles minutos, naquela casa. Porque nela habitas tu, o teu cheiro e os teus cheiros – do teu perfume, do champô para o cabelo, do amaciador da roupa, do odor a sabão azul e branco que distribuías pelo chão da casa. E enquanto vou caminhando
(Sente-se bem?)
revivendo em cada quadrado de ladrilho a vida que ali passei e vivo, vou silenciando o meu discurso. Só por maldade e distracção, volto à história do aquecimento central. Embaraçada, a tua senhoria já se compromete a resolver o problema antes de eu ir para ali viver. Digo finalmente que não será por aí que deixarei de comprar a casa, o que claramente lhe alivia o rosto. O meu, por seu lado, confessa o crime que acabo de cometer.
Costuma dizer-se que apenas somos nós próprios quando ninguem está a olhar: e ali parece que toda a gente me olha: a tua senhoria, a agente imobiliária, as memórias, os acontecimentos, a ideia de ti, a ideia de mim quando nada era. Mas me sentia (in)feliz.
E por isso,
(só por isso)
corajoso e decidido, sem fazer mais perguntas ou dar respostas, fugi.
(*) valter hugo mãe, o resto da minha alegria, seguido de a remoção das almas, Porto, Cadernos de Campo Alegre, 2003).
PF
