quarta-feira, setembro 08, 2004

De modo inconsequente (sob a luz)

A luz do fim de dia invadia o céu, as pessoas continuavam a vida, havia tempo. Era um fim de tarde vulgar e não era suposto acabar mais nada para além do dia. No apartamento desarrumado ainda havia um resto de calor, nas colunas da sala ecoavam as notas rápidas da banda sonora de um filme de Louis Malle, “Ascenseur pour L’Échafaud”. Havia um copo vazio e um cinzeiro cheio. Ele não fumava. Teria sido a prostituta quarentona e loira chamada Mimi. A madrugada ainda existe? É nas sombras dos autocarros que se recolhe o resto do mundo. E a verdade do mundo é para ser gritada, alto, um grito enorme, uma boca aberta até ficar sem som. Nessa noite não houve princípio, não houve história, não houve fim. Agora já tudo tinha terminado mas a atmosfera do quarto respirava ainda os vapores sujos da noite. É estranho pensar agora que já não estás para mim, João. É difícil aceitar que resolveste partir sem um aceno, não te pedia mais que isso, sabes bem. Já não volto a abrir a porta para te ver sorrir, como quando chegavas, trazias um sorriso gigante, e ao teu convite fora de horas não conseguia evitar um sim. Levavas-me contigo para sentir o mundo, provar os sabores da vida, afogar-me no prazer da noite e conhecer tudo porque vale a pena viver. Quando regressava a casa engatava uma desculpa maquinal como modo de evitar conversa e dormir. Onde estás, para onde foste sem avisar? Deixas-me só, isolado na vida e com medo do mundo, foste embora. Sorrias quando te falava em adultério, amor não autorizado, dizias só: somos felizes, não é? Talvez no meio da confusão que deixaste encontre uma pista para te encontrar, quem sabe um dia (o tempo pode ser infinito, assim como o meu desejo por ti). Hoje, agora que começo a perceber que só posso beber solidão em goles grandes, sinto a tua falta. Não era só ter-te deitado no sofá a fazer festas na barriga enquanto um filme francês nos distraía. Não era só ver-te a tentar cozinhar (tu nunca soubeste cozinhar, mas divertias-te a tentar). Não era só ter-te a soprar beleza ao meu ouvido, que depois a beleza se transformava na tua língua que depois descia pelo pescoço. Não era só isso, não eras só tu, éramos nós (apesar de na verdade nunca termos existido). Eu existi para ti? Nunca quis saber, penso que também não te interessasse. O que nos bastava era o momento. Para onde foi ele agora? Levaste-o contigo. Hoje, agora que te foste embora sem avisar, que deixaste a casa desarrumada e com uma poça enorme de sangue no chão, a música do trompete do Miles Davis continua a acompanhar a Jeanne Moreau e eu, como no filme, vou continuar a seguir-te e a sorrir aos teus acenos e quando, um dia perdido no infinito do tempo, nos cruzarmos não vou fazer perguntas, o amor não é curioso, vou-me deixar levar num beijo porque é assim que tudo acaba bem.
NC

4 Comments:

At 6:36 da tarde, Blogger Ciliegia said...

«(...) o amor não é curioso (...)»
Partilho, assim como o personagem, dessa conclusão.
Post'o e comento no meu blog.
Obrigada.
*

 
At 11:42 da tarde, Blogger Paulo said...

E qual o seu blog:)?

 
At 12:27 da manhã, Anonymous Anónimo said...

O amor é livre...
Sem perguntas...
(sem respostas?)
Raquel

 
At 1:13 da manhã, Blogger Ciliegia said...

www.ciliegia.blogspot.com
;)

 

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