O meu corpo encoberto
Rita acorda-me, mesmo sabendo que não gosto que o façam. Que gosto de dormir, muito, e que aprecio efectuar progressivamente a transição entre Morfeu e o mundo, activo e desperto. Desde pequeno, quando fugia da minha cama para o calor dos lençóis dos meus pais, que diziam
Aí vem o cassula
e arranjavam sempre espaço entre eles para o meu corpo infantil, que gosto de fechar os olhos e descansar. Passaram-se três meses, mais coisa menos coisa e ela ainda não percebeu que agitações deste tipo aborrecem-me. Três meses contabilizados e ela insiste em me ligar para do outro lado dizer, gritando
- Guigo.
Todos este tempo e tão pouco percebeu que detesto o diminutivo. A minha mãe chamava-me assim e eu não gostava. O meu pai repetia a graça e eu repetia o recado. Recado que se aplicava a vizinhos e colegas de escola. Amigos dos meus pais, tios, primos, restantes familiares e a assistente no Ministério do Papá. Apenas à minha Avó permitia tal diminutivo, permuta que tinha por base os pedaços de pão com açucar que esta me dava de cada vez que eu começava a chorar. A minha mãe embalava-me no seu colo, cantava-me canções doces com a sua voz doce e levava-me até à janela para ver as árvores na rua e sentir o fresco do vento no rosto, mas eu não parava de chorar. O rosto tingia-se de vermelho e os olhos excluiam lágrimas que só em pequeno soltei. A minha mãe pegava em mim, insistia nas canções e eu não desistia de berrar. A minha avó aproximava-se, às escondidas da minha mãe dava-me uma fatia de pão com açucar e eu sossegava.
Rita volta à carga e continua
- Vamos ao Santini comer um gelado.
- Não me apetece. Alheia à minha vontade, teima que me apanha em meia hora. Desliga o telefone. Contesto porque naquele dia quero dispensar o bulício de Cascais. Diz-me que quer porque quer ir comer um gelado e que não se importa com a confusão. Ficamos num impasse. Nenhum cede. Cara ou coroa, digo enquanto já vou tirando uma moeda do bolso.
- Cara.
- Coroa.
Sai cara e como Rita não se acautela, dou a volta à moeda. Rita entedia-se, mas respeita as regras do jogo. Não falará durante toda a viagem, mas quando ouve as ondas do mar, esquece que amuou minutos antes. Sentamo-nos numa das mesas livres da esplanada.
Em volta, nada. Tudo passa. Tu esqueces-te que ainda há pouco preferias estar a comer um gelado. O teu olhar assumiu a tristeza que o caracteriza. Estás triste com algo que me escondes. Tens sempre algo a esconder; já deveria saber que o gelado nunca é só um gelado e o teu corpo nunca é apenas o teu corpo. Em esforço e em vão, tento perceber aquilo que queres dizer, o que tens entalado na garganta desde o momento em que após a buzina do telemóvel, gritaste
- Guigo
e me resgataste do sono, contudo, a única coisa que consigo é que me grites aos ouvidos
- Pára de olhar para a minha mancha!
- Qual mancha?
- Essa para onde estás a olhar.
- Não estou a olhar para nenhuma mancha.
- Nao digas nenhuma, como se não soubesses que tenho uma.
- Certo, não estava a olhar para a tua mancha na testa.
- Pronto!!! Tinhas mesmo que dizer isso dessa forma?
- Qual forma?
- Essa. Sublinhando o “Na tua testa”.
- ...
- Pensava que não vias nenhuma mancha
- ... e não vejo... não vejo...
- Acabaste de dizer que tinha uma...
E de facto Rita tinha uma mancha sobre a testa, entre os olhos um pouco acima da cana do nariz. Era uma mancha com uns dois centímetros de raio, cujo tom acastanhado e predominância irregular se intensificava com a exposição ao sol. A médica dizia que a causa era a pílula que tomava, e eu não tinha qualquer teoria sobre esse assunto. Para mim era apenas uma mancha.
Tudo o que sei hoje é que estávamos longe. Tão longe, muito demasiado em excesso longe. Longe de sermos outras pessoas que não aquelas: de a voz do outro nos fartar e o simples facto de do outro lado uma respiração correr nos incomodar. Ali, contudo, naquele momento estamos felizes. Estamos longe, tão e demasiado em excesso longe dos quatro ou cinco anos que vão passar e eu vou perceber que me mentes em cada telefonema feito. Estamos longe de deixares de atender o telemóvel às minhas insistentes tentativas; estamos longe, distantes diria mesmo, de termos a certeza de que existem mais vidas na tua vida, que a minha vida já não é a vida que tu queres que preencha a tua; que cedo vais dizer que vais sair e talvez passem dois, três quatro dias até que te ponha a vista em cima. Cedo demasiado cedo, eu não serei o tipo que sou naquela esplanada e situações que nos entristecem dentro de quatro ou cinco anos terão ali a sua malfadada génese.
Mas agora vejo-te à penumbra da luz finita de um Agosto quente. Estava em casa, pretendia nada fazer, mas porque tu preferias outro programa, terminámos numa esplanada com mais dois turistas. A recordação da esplanada dá-me saudades. O cheiro do café quente que pedimos também. Saudades do tempo e pouco corpo que o meu corpo foi corpo quando o teu corpo caía sobre o meu e o meu corpo e o teu corpo formavam mais um corpo. Sinto falta do contacto dos dois corpos que faziam mais um corpo e que proporcionavam gemidos e suor. Havia contacto saliva beijos toque energia que se desfazia no corpo do outro, descargas tensas impregnadas de amor. Amor amor amor, muito e muito mais amor. Lamento a ausência desse corpo, o objecto híbrido impronunciável que se formava e que somava cada um dos nossos corpos. Sinto falta de dares o teu corpo para ser acolhido pelo meu e germinarmos em nós um outro corpo. Tenho saudades desse terceiro corpo, produto de bem mais que a soma dos dois nossos corpos.
À parte das saudades, hoje já sei que serás sempre aquilo que então já eras: um sedimento. Juntos podiamos ter sido uma rocha.
PF

6 Comments:
Parabéns pelos teus textos (espero que não te importes que te trate por tu ), são lindos. Já devorei o teu livro, soube a pouco, queria ler muito mais. Adoro a forma como escreves e descreves esse teu grande amor. Bendita hora em que a Manela "nos apresentou". Vou visitar-te diariamente aqui.
Bjs
Susana
PS: Também odeio que me acordem ;-)
SUSANA: Muito obrigado pelo teu comentário, (tb te vou tratar por tu). Espero que continues a visitar este espaço. E a divulgá-lo. Para "já", na próxima quarta feira tens mais uma pérola... do Nuno Catarino. Beijinhos. PS: EstáS à vontade para me tratar por tu
é bom vir e ler, e ler-te novamente.
beijos
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