sexta-feira, setembro 17, 2004

A terra onde o tempo não parou



Dedicado à Catarina
sob ébria influência de Bohumil Hrabal – o checo

Na sala de aulas, a Senhora Pires, de óculos espessos presos no nariz esfolado pelo tempo, não admite distracções nem conversas paralelas. Estamos ali porque nos decidimos a aprender mais um idioma, no entanto, esta continua a tratar-nos como mancebos de um pelotão. Escreve uma oração no quadro de ardósia negra e pede silêncio. A sua letra é irregular e praticamente indecifrável. Para mim, tudo aquilo é tão estranho quanto o que Katerina, a checa, escreveu no meu caderno de bolso num distante mês de Julho passado em Madrid: período instalado na minha memória, envolto em embriaguez e neblina. Katerina, a checa de cabelo ruivo e lingerie coincidente, nasceu em Praga mas cresceu em Paris. Estudava Literatura e queria doutorar-se com uma tese sobre o teatro checo da década de sessenta. Tinha vinte e três anos, mais dois do que eu e os seus dedos não estavam consumidos pelos dentes, como um queijo perscrutado por um dos ratos que habitam a residência para onde fomos enviados, ao abrigo de uma parceria dos diferentes ministérios dos negócios estrangeiros. Os meus sim, sofriam de um acelerado desgaste, sofrimento mais a mais prolongado pela ausência de Katerina e pela doce omnipresença de espírito que as suas robustas mamas, por baixo dos olhos meio cinzentos meio azuis, exerciam sobre a minha memória. Fomos enviados para Madrid com o objectivo de desenvolver a aprendizagem do idioma castelhano, que todos estudamos nas respectivas faculdades. Temos um plano de estudos e professores credenciados. Na prática não colocámos os pés nas aulas ao longo de todo o mês, embora conheçamos cada quarto e cada um dos seus residentes: divisões individuais, repartidas por nacionalidades para tudo ser mais fácil. Para não perdermos o Norte, sabemos que os desta região estão no terceiro andar da residência, os de leste no segundo e os mediterrânicos no primeiro, com direito a varanda e vista para a piscina, ladeada por uma relva curta onde estendemos as toalhas de praia. Os quartos da residência são uma espécie de carta de restaurante que visitamos tantas vezes, quantas o nosso agrado pelos pratos lá servidos. Por vezes, saímos de barriga cheia; outras somos enganados por publicidade enganosa; outras ainda sabemos que só forçámos o estômago a ingerir o que ingerimos porque estávamos demasiados bêbados para termos requinte na selecção do menú. Dizes Es la dirección de mis abuelos e quase foges. Eu fecho o caderno onde antes escreveste algo em checo, hieroglifos em que apenas consigo auscultar a palavra Brno, e coloco-o no bolso para só voltar a abri-lo já em Lisboa, nas aulas de checo, que me obrigo a aprender para poder estabelecer contigo um diálogo que vá além das saudações de convívio; paralelamente, junto-me a um grupo de simpatizantes da língua do Jan Palach, constituído maioritariamente por naturais ou descendentes checos a residir em Portugal, desportistas e advogados com casos complicados de imigração ilegal. Durante estes dois anos, leio livros checos traduzidos em português, vejo cinema checo, informo-me sobre a história do país, os costumes; durante este tempo, vendo livros, serviços por cabo e aparelhos auditivos para idosos pelo telefone. Após três milhares de chamadas, e dinheiro suficiente no mealheiro que não é um porco mas um pato de barro, deixo os exames da faculdade para trás, uma mãe que me desaconselha à decisão e embarco num avião com destino a Viena, a partir da qual tomarei um comboio para Brno – cidade de Hrabal, Kundera e Katerina, a checa. Ao pousar o pé direito na estação ferroviária, sou acometido por uma realidade para a qual não estava preparado: espera-me uma cidade de luz fusca com o pavimento sujo com beatas de cigarro e óleo dos eléctricos que naquele exacto momento se cruzam ruidosamente à minha frente; maços de cigarros vazios e escarros dos que passam. No pouco checo que aprendi, recruto um táxi que me leva até à morada indicada. O táxi é um, mais um, velho Skoda, que a custo anda, enquanto suja um pouco mais aquela cidade que me parece resgatada de um livro sobre a revolução industrial inglesa. O taxista tem cabelo oleoso e um bigode minúsculo, acompanhado de barba rala e grisalha; enquanto canta as versões checas dos sucessos da MTV, fuma incessantemente e não fala inglês. Deutsch, pergunta-me. No, respondo. Na direcção cedida por Katerina, encontro uma casa térrea com duas janelas e uma porta de madeira antiga. A porta tem um orifício de alguns centímetros por onde pela primeira vez cruzo olhares com Ana. Ana, de ancas generosas e lábios doces, sempre molhados, é uma italiana saudosa do seu namorado com nome impronunciável: um eslavo com ar deslavado e cabelo cor de cenoura numa cara cheia de sardas, como se coelhos laranjas lhe tivessem irregular e invariavelmente cagado em cima da cara. Ana informa-me que após a morte dos teus avós, vendeste a casa ao actual senhorio e migraste para Praga. Tal como o seu impronunciável que foi numa visita de estudo há duas semanas e ainda não voltou. Chego a Praga e na morada que Ana me cedeu a custo, percebo que já há algum tempo que Katerina abandonou aquele quarto. Um estudanteco francês de rabo de cavalo chamado Andrès, com olheiras grandes e tez morena, assome-se à porta e vomita uma lenga lenga qualquer, regada com muitos erres que não entendo. Triste e derrotado, com algumas cervejas no bucho volto a Brno, no mesmo autocarro que me levou à cidade mágica: um veículo sem espaço para esticar as pernas, naturalmente sem ar condicionado, saído da era estalinista que, como ironiza Ana, é contemporâneo da construção da linha de eléctricos com ligação directa à Praça Vermelha. Três horas de viagem decorridas, esta recebe-me no seu quarto e na sua cama – parece ter esquecido o Gagarin, dada a forma como a sua boca aporta as minhas partes íntimas e, sem que lho pergunte, diz-me que tem ainda quatro meses daquilo pela frente. Que veio no semestre passado para fazer Erasmus e ficará até ao final do ano. Diz-me que os amigos a chamam de Bé, como de Isabella – o segundo nome, e eu mais tarde faço o trocadilho fácil ao nível da minha ignorância perante as mulheres, chamando-a de Bé-Bé: tudo no exacto momento em que lhe peço para retirar a boca, em checo claro, e esta não assente. A semana termina, o bilhete de avião diz que tenho de regressar e, à despedida, Ana, ou Bé: Bebé?, leva-me até ao comboio, que fará o inverso caminho para a tão cosmopolita quanto cara cidade de Viena, onde o avião me esperará. Ana tem um olhar de comoção, um olhar que é como quem diz Perdi a minha oportunidade de ser feliz pela noite fora. Eu despeço-me com um acenar espaçado dos dedos. Em Viena, ainda tento descobrir o percurso do Before Sunrise. O guia turístico com ar de enfado, que é como quem diz És o sexto turista que me pergunta isso no espaço de quinze minutos, diz-me que é dar a volta ao Ring. Olho o relógio e o mapa e percebo que apenas tenho tempo para apanhar o avião para Lisboa e já na capital preencho os papéis para solicitar a transferência para as aulas da Senhora Pires que, idosa e mandona, com a estridente voz e alheia aos meus pensamentos e à memória dos meus sonhos molhados, agora ronca bem alto Silenzio! Prestatemi attenzione per favore.
PF

12 Comments:

At 7:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Pena não teres conhecido o caboverdeano da Morávia, com casamento prometido a várias checas.

E não subestimes o poder dos cabelos de fogo, das sardas e dos olhos azuis.

;) i. (doente de demasiado tempo em Praha)

(PS: soube do livro. boa!)

 
At 7:34 da tarde, Blogger Paulo said...

Querida i.: nem imaginas como fico contente com a tua mensagem. Um beijinho grande. As tuas melhoras;) espero que tudo te esteja a correr bem.

 
At 4:33 da tarde, Blogger Mar said...

Parabéns pelo blog. Keep on...

 
At 9:49 da tarde, Blogger Mariana said...

Paulo!!! Que texto lindo. Cheguei aqui pelo sabor a sal. Nem sabia do novo blog e fiquei feliz em saber que há novamente um espaço no mundo onde talvez possa te
encotrar. Nem que seja por meio de palavras e impressões. Me fez bem! Um beijo grande,

 
At 8:55 da manhã, Blogger Silvia Chueire said...

E ainda me surpreende, esta sua facilidade, o talento na escrita. Um prazer mesmo.
Beijos

 
At 11:09 da tarde, Blogger Catarina Matos said...

Só agora é que li. É o costume. Brilhante como sempre. :)

 
At 5:48 da manhã, Blogger Roberto Iza Valdés said...

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At 7:37 da tarde, Blogger Roberto Iza Valdés said...

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At 12:51 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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At 4:22 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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At 4:42 da tarde, Blogger Roberto Iza Valdés said...

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