quarta-feira, outubro 27, 2004

A primeira oração do dia

Estávamos na primeira oração do dia, que começava às sete da manhã na capela principal e tinham passado dois meses sobre a minha entrada no seminário. A capela era um espaço exíguo, mobilada com pouco mais que cinco filas de bancos de madeira maciça, com um pequeno degrau dianteiro onde repousávamos os joelhos em súplica. Na capela, ouvia-se o murmurar dos pai nossos e avé marias e a quebrar a rotina, na última fila, o João segredou algo ao ouvido de Pedro que não consegui perceber, mas que teve como consequência imediata a repressão de um dos criados do seminário, igualmente ajoelhado junto a eles.

João, contrariado, assentiu com má cara e passando vagarosamente com a língua pelos dentes da frente, obedeceu e continuou também ele na ladaínha monocórdica, sem sentimento. Embora por pouco tempo: quando voltei a mirá-lo, consegui ver por detrás das cabeças dos outros seminaristas que cada um deles tinha uma mão dentro das calças do outro. João e Pedro aproveitavam a momentânea retirada do criado para fazerem às claras aquilo que escondiam às escuras.

O criado saíra da capela para se dirigir ao galinheiro. Dentro do galinheiro, os corpos das galinhas jaziam dispersos sobre o piso lamacento de fezes, terra e ração; fortes chuvas tinham assolado a região e com elas desapareceram todas as construções débeis do seminário. Os animais tinham morrido afogados e isso entristecia aquele pobre homem de ombros encolhidos e chapéu na mão. O criado dera com aquele cenário quando chegara e o que encontrou era motivo suficiente para que se dirigisse até à capela para pedir um lugar no céu para as suas companheiras.

Ao dilúvio, apenas os galos mais fortes que tinham assegurado um lugar no poleiro cimeiro tinham sobrevivido, pelo que se dera uma estranha selecção natural que não confortava o coração do homem. O criado, que nas palavras dos próprios progenitores fora classificado por retardado, era, segundo estes, inapto para os trabalhos da lavoura. E por isso fora recambiado para o seminário, onde passava os dias, regressando a casa à noite. Às seis da manhã do outro dia, estava de volta para ir recolher os ovos das galinhas. Em troca, a família enviava sacas de batatas e cenouras, frutos do grande latifúndio que possuiam. Aquele tipo enfermo de aspecto débil era dono de uma área em muito superior a quatro ou cinco vezes o perímetro do seminário, contudo, ficara apenas com o galinheiro e contentava-se com a amizade dos ovíparos.

Mas o João e o Pedro, esses, à altura que o criado se preparava para enterrar na terra cada uma das galinhas que tinham perecido naquela noite, estavam já há muito envolvidos, pelo que apenas lançavam sorrisos pequenos e gemidos quase inaudíveis que não controlavam, pouco importados com os ovos partidos contra a madeira velha do galinheiro e o choro contido do criado, que estes desprezavam.

Eu, ajoelhado e reticente, porque sabia como tudo terminaria, desejava apenas que eles não lançassem o sémen para cima da minha cabeça, tal como eu, quando fechado e isolado numa das casas de banho, balançava o propúcio para cima e para baixo, e enviava o esperma que expelia directamente para a cara dos monges franciscanos e dos frescos das basílicas algures no Vaticano, que decoravam as revistas da Igreja, chegadas cadencial e rigorosamente todas as terças feiras. A seguir era tempo de com um quadrado de papel higiénico limpar os vestígios do líquido que ali se alojava. À folha dos monges, essa, dobrava-a ao meio três vezes, que, mais seca, instalava debaixo do meu colchão, juntamente com o quadrado de papel higiénico, que entretanto colocara num saco de plástico. Ao fim de duas semanas, a folha estava rija e hirta como um pedaço de camurça. Vezes havia em que suprimia esta fase e simplesmente enterrava logo as folhas dobradas no jardim. O papel higiénico, esse, tratava-o de diferente forma: simplesmete levanta-me a meio da noite e colocava-o por baixo do estrado, sobre o qual tomávamos banho, para que quando a água começasse a cair da torneira, este ficasse ensopado e se desfizesse com a torrente. Ainda experimentei colocar também as três folhas da revista, mas o papel, semi plastificado, acabou por entupir os cifões da casa de banho. Tentativa vã e frustrada era a de tentar masturbar-me directamente para cima do papel higiénico, pois tal prática exigia de mim um controlo preciso que naquele momento não possuía.

Ao fim de alguns minutos, sem espanto, vi cada um deles, primeiro o João, depois o Pedro, lançar um suspiro final e uma mancha escura invadir-lhes o tecido das calças de fazenda cinzenta clara, presas pelo cinto de couro, entretanto desapertado para que as mãos de ambos melhor pudessem viajar pela intimidade de cada um.

Foi ali que pela primeira vez, com o olhar extasiado de Pedro, e um puxão último do seu peito, vi a grande mão do João sair das calças de Pedro. E aí sim espantei-me. Não tinha dedo polegar. Ou melhor, tinha, mas era como se estivesse incompleto, como se não tivesse crescido. Faltava a ponta do dedo, a unha, que não existia. Quatro dedos e um pedaço de um outro. Semanas mais tarde, o João mudou-se para o meu quarto, e após indagar-lhe sobre o que sucedera com a mão, respondeu-me que o resto do dedo que faltava fora arrancado, à dentada, em pequeno, quando ainda estava no berço. Tinha poucos dias de vida e não se lembrava de nada.

- Por algum animal?- inquiri.

- Sim, pelo filho da puta do meu padrasto.

PF

quarta-feira, outubro 13, 2004

Dá-me um beijo, dorme bem, bons sonhos, até amanhã

Well the night does funny things inside a man
These old tom-cat feelings you don't understand,
Well I turn around to look at you, you light a cigarette,
I wish I had the guts to bum one, but we've never met,
And I hope that I don't fall in love with you.

(Tom Waits)

Lá em cima da noite a lua é uma rede suspensa entre duas palmeiras do espaço. É uma rede onde eu me deixo embalar, contigo ao lado, no meio das estrelas que sorriem ao passar por nós. As músicas do Tom Waits de nada me valem, eu sigo-lhe os conselhos mas não sei se ainda vou a tempo. “I hope that I don't fall in love with you”. Se tivesse dinheiro comprava uma pistola para matar a lua, acabava-se de uma vez por todas com a maldição. Mas talvez seja tarde e por agora é só mais uma stout. “I hope that I don't fall in love with you”. Agarraste uma mão cheia de estrelas, pintaste-as de azul e trouxeste-as para mim. Eu colei-as ao tecto do quarto pequeno e de noite vejo-as sorrir no escuro, elas sorriem do mesmo modo que faziam quando nossas vizinhas da lua. Como em qualquer fim de domingo deprimido, volto a olhar para o telemóvel. Ainda não ligaste, não tenho nenhuma mensagem. Tento escrever: obrigado pelas estrelas. Apago. Tento de novo: obrigado pelas estrelas e pela noite. Apago. “I hope that I don't fall in love with you”. Apago de mim mesmo qualquer mensagem, pensamento ou obrigação. Agora que o frigorífico está vazio e é tarde para ir à loja exótica dos chineses que fica na esquina suja acho que passo mais uma noite vazio de ti. Um pensamento voa: passeias de bicicleta pelo jardim do teu palácio, andas às voltas, depressa, e sorris muito e é quando sorris que me apetece mais agarrar-te as asas e enjaular-te para sempre para que fiques comigo, mesmo que não seja assim que se deva fazer pela lógica e pela lei, ninguém tinha de saber e eu podia voltar a ter uma alma, talvez houvesse de novo algo a nascer dentro de mim, talvez um dia possa acontecer. “I hope that I don't fall in love with you”. É tão tarde, vens tarde, Tom. Toma uma cerveja, pago eu. Toma, pá, cala-te, eu pago. É mais uma para este senhor. O toque da meia-noite é a marca mais forte de cada dia e o sinal que me diz que o tempo ainda não se foi todo, há esperança, ou pode haver. Ando embrulhado com este tipo que não me larga e mesmo bêbado continua a meter-se comigo, leva uma murro nas fuças e vamos lá para fora resolver isto como homens, ó Tom, porra, diz aí ao piano que se cale, que se cale. Não me digas que ele está bêbado, ainda só bebeu um copo e nem a meio vai. Vou-me embora e não vou tropeçar nas armadilhas que se ligam a partir das duas da manhã para os sonhadores que não aguentam a vida sem dois copos de ilusão fora de casa. O piano que se cale que eu não o posso ouvir, o piano está bêbado, e eu vou agora. Em casa tenho estrelas a guardar-me a cama e talvez hoje quando chegue tu lá estejas, talvez não, se não estiveres ainda melhor, que amanhã tenho de trabalhar e não posso chegar tarde, não posso adormecer e ficar um bocadinho, dois minutos, três dias na cama a provar demoradamente cada milímetro da tua alma delicada exposta, a brilhar na pele nua do teu corpo, um rio salgado de carinho, não chores, um piano não chora, vai-te embora, amanhã é segunda feira e ninguém se vai lembrar que num domingo à noite meia dúzia de copos de cerveja de pressão chegou para acalmar o excesso de ternura de um homem.
NC

quarta-feira, outubro 06, 2004

Os mortos por cima

Dedicado ao Jorge Reis-Sá
Na terra onde nasci, os mortos estão acima dos homens. Fisica e geograficamente quero dizer. Do sopé da vila até ao topo, enfrentamos em passos curtos uns bons dez minutos de caminhada, constituídos por uma rampa íngreme coberta de luto, que nos convida à morte de que nos aproximamos. Chegados ao cume, com vista sobre a cidade como se toda a morte vislumbrasse a vida dos que passam, o cansaço é tragado em pedaços de ar rarefeito que expelimos pela boca, como se o fim se aproximasse a passos maiores do que aqueles que damos. Impossível não ficar cansado com tanta tristeza. O Manel da Horta: chegado da ilha há mais de trinta anos, repousa ao fundo, após ter sido atropelado pelo carro que não parou; o Manel – o outro, este dos dos figos e dos limões, está estacionado do lado direito do cemitério e foi colhido pelo tempo que passou; o juíz Pereira, logo à esquerda para quem entra no caminho calcetado, foi consumido pelo cancro que o desfigurou. Ramos e coroas de flores perdidos e esquecidos, o cheiro da crameleira molhada que me acompanha desde a infância, quando visitava a campa da minha avó; pequenas mensagens escritas em fitas roxas de pano puroso, marcadas com caligrafias irregulares que, em momentos de aflição maior, homenageiam quem decidiu definitivamente partir.
E tu
pequenina

chegaste agora mesmo e eu nem dei por ti. Pequenos fios de cabelo, como vírgulas, alojadas sobre a testa e junto às orelhas dão-te um encanto que revivo novamente. Vejo que trazes um sorriso no bolso do casaco, qual riso esquecido no tempo que passeavamos pelas campas como labirintos de muros derrubados, e só dou por ti quando dizes bom dia e pousas a mão anelada sobre a minha, que agarras. Pendurado no teu ombro, o saco de sarapilheira importado dos tempos da infância feliz. Dentro do saco, os periódicos do dia. A mãe e o pai estão ao longe; o pai carrega os baldes de água que foi buscar à fonte, junto à árvore que dá sombra a quem chega; a mãe, enquanto mais uma lágrima lhe escorre pelo rosto abaixo, limpa a fotografia da avó. Dás-me um beijo seco e vemos que o pai se aproxima, começando a esfregar o mármore com o trapo humedecido pelo detergente, devolvendo à rocha o branco das nuvens que nos cobrem. Eu e tu corremos por entre o espaço e a mamã diz

aqui não se corre. Os ciprestes presos ao chão. O chão cobrindo os caixões. Os caixões abrigando os corpos mortos que já foram vidas e que se aproximam dos corpos que ainda respiram, ainda que a medo. Os vivos estão munidos de flores frescas. A cada passo que dão, aproximam-se da terra que dá tecto aos mortos
estranha invocação e peregrinação
doentia obsessão que nos consome a pouca vida que ainda se tem só para sentir o leve afago, ainda que por breves momentos, como num sorriso que não recebemos, de que aquela pessoa que ali a nosso lado dorme, um dia
num dia que já temos dificuldade por vezes em sentir o cheiro da pele amassada pelo quotidiano
já esteve a nosso lado, aflito, esperando o momento, o mais breve momento que possivelmente até nem sentiram para
(numa urgência que adiamos à escala do possível)
partir enfim.

Dás-me a mão, e enterras o rosto no meu ombro. Sentir o teu cheiro infiltrar-se por entre as minhas narinas. É tão familiar a memória da fusão do cheiro dos cemitérios com o teu como tu estares, ali, junto a mim, fechando os olhos enquanto enfim te abraço e digo que já foi há tanto tempo.

E no entanto esta chaga

Tiras os jornais que estão dentro do saco e afirmas que hoje não consegues. Franzes os lábios como um travessão e como que dizes desculpa. Sorrio condescendente e abano a cabeça esquerda direita. Digo deixa comigo. Mas eu acompanho-te, completas. Com o dia a despontar por detrás do monte contrário àquele onde estamos, que em conjunto formam o vale onde crescemos, caminhamos na direcção da campa térrea, coberta com relva pequenina, aparada semanalmente por mim e por ti.

Vamos, digo finalmente.

Dá-me o jornal: sabes como o papá gosta de ter as notícias do dia antes do almoço.
PF