A primeira oração do dia
Estávamos na primeira oração do dia, que começava às sete da manhã na capela principal e tinham passado dois meses sobre a minha entrada no seminário. A capela era um espaço exíguo, mobilada com pouco mais que cinco filas de bancos de madeira maciça, com um pequeno degrau dianteiro onde repousávamos os joelhos em súplica. Na capela, ouvia-se o murmurar dos pai nossos e avé marias e a quebrar a rotina, na última fila, o João segredou algo ao ouvido de Pedro que não consegui perceber, mas que teve como consequência imediata a repressão de um dos criados do seminário, igualmente ajoelhado junto a eles.
João, contrariado, assentiu com má cara e passando vagarosamente com a língua pelos dentes da frente, obedeceu e continuou também ele na ladaínha monocórdica, sem sentimento. Embora por pouco tempo: quando voltei a mirá-lo, consegui ver por detrás das cabeças dos outros seminaristas que cada um deles tinha uma mão dentro das calças do outro. João e Pedro aproveitavam a momentânea retirada do criado para fazerem às claras aquilo que escondiam às escuras.
O criado saíra da capela para se dirigir ao galinheiro. Dentro do galinheiro, os corpos das galinhas jaziam dispersos sobre o piso lamacento de fezes, terra e ração; fortes chuvas tinham assolado a região e com elas desapareceram todas as construções débeis do seminário. Os animais tinham morrido afogados e isso entristecia aquele pobre homem de ombros encolhidos e chapéu na mão. O criado dera com aquele cenário quando chegara e o que encontrou era motivo suficiente para que se dirigisse até à capela para pedir um lugar no céu para as suas companheiras.
Ao dilúvio, apenas os galos mais fortes que tinham assegurado um lugar no poleiro cimeiro tinham sobrevivido, pelo que se dera uma estranha selecção natural que não confortava o coração do homem. O criado, que nas palavras dos próprios progenitores fora classificado por retardado, era, segundo estes, inapto para os trabalhos da lavoura. E por isso fora recambiado para o seminário, onde passava os dias, regressando a casa à noite. Às seis da manhã do outro dia, estava de volta para ir recolher os ovos das galinhas. Em troca, a família enviava sacas de batatas e cenouras, frutos do grande latifúndio que possuiam. Aquele tipo enfermo de aspecto débil era dono de uma área em muito superior a quatro ou cinco vezes o perímetro do seminário, contudo, ficara apenas com o galinheiro e contentava-se com a amizade dos ovíparos.
Mas o João e o Pedro, esses, à altura que o criado se preparava para enterrar na terra cada uma das galinhas que tinham perecido naquela noite, estavam já há muito envolvidos, pelo que apenas lançavam sorrisos pequenos e gemidos quase inaudíveis que não controlavam, pouco importados com os ovos partidos contra a madeira velha do galinheiro e o choro contido do criado, que estes desprezavam.
Eu, ajoelhado e reticente, porque sabia como tudo terminaria, desejava apenas que eles não lançassem o sémen para cima da minha cabeça, tal como eu, quando fechado e isolado numa das casas de banho, balançava o propúcio para cima e para baixo, e enviava o esperma que expelia directamente para a cara dos monges franciscanos e dos frescos das basílicas algures no Vaticano, que decoravam as revistas da Igreja, chegadas cadencial e rigorosamente todas as terças feiras. A seguir era tempo de com um quadrado de papel higiénico limpar os vestígios do líquido que ali se alojava. À folha dos monges, essa, dobrava-a ao meio três vezes, que, mais seca, instalava debaixo do meu colchão, juntamente com o quadrado de papel higiénico, que entretanto colocara num saco de plástico. Ao fim de duas semanas, a folha estava rija e hirta como um pedaço de camurça. Vezes havia em que suprimia esta fase e simplesmente enterrava logo as folhas dobradas no jardim. O papel higiénico, esse, tratava-o de diferente forma: simplesmete levanta-me a meio da noite e colocava-o por baixo do estrado, sobre o qual tomávamos banho, para que quando a água começasse a cair da torneira, este ficasse ensopado e se desfizesse com a torrente. Ainda experimentei colocar também as três folhas da revista, mas o papel, semi plastificado, acabou por entupir os cifões da casa de banho. Tentativa vã e frustrada era a de tentar masturbar-me directamente para cima do papel higiénico, pois tal prática exigia de mim um controlo preciso que naquele momento não possuía.
Ao fim de alguns minutos, sem espanto, vi cada um deles, primeiro o João, depois o Pedro, lançar um suspiro final e uma mancha escura invadir-lhes o tecido das calças de fazenda cinzenta clara, presas pelo cinto de couro, entretanto desapertado para que as mãos de ambos melhor pudessem viajar pela intimidade de cada um.
Foi ali que pela primeira vez, com o olhar extasiado de Pedro, e um puxão último do seu peito, vi a grande mão do João sair das calças de Pedro. E aí sim espantei-me. Não tinha dedo polegar. Ou melhor, tinha, mas era como se estivesse incompleto, como se não tivesse crescido. Faltava a ponta do dedo, a unha, que não existia. Quatro dedos e um pedaço de um outro. Semanas mais tarde, o João mudou-se para o meu quarto, e após indagar-lhe sobre o que sucedera com a mão, respondeu-me que o resto do dedo que faltava fora arrancado, à dentada, em pequeno, quando ainda estava no berço. Tinha poucos dias de vida e não se lembrava de nada.
- Por algum animal?- inquiri.
- Sim, pelo filho da puta do meu padrasto.

