quarta-feira, outubro 06, 2004

Os mortos por cima

Dedicado ao Jorge Reis-Sá
Na terra onde nasci, os mortos estão acima dos homens. Fisica e geograficamente quero dizer. Do sopé da vila até ao topo, enfrentamos em passos curtos uns bons dez minutos de caminhada, constituídos por uma rampa íngreme coberta de luto, que nos convida à morte de que nos aproximamos. Chegados ao cume, com vista sobre a cidade como se toda a morte vislumbrasse a vida dos que passam, o cansaço é tragado em pedaços de ar rarefeito que expelimos pela boca, como se o fim se aproximasse a passos maiores do que aqueles que damos. Impossível não ficar cansado com tanta tristeza. O Manel da Horta: chegado da ilha há mais de trinta anos, repousa ao fundo, após ter sido atropelado pelo carro que não parou; o Manel – o outro, este dos dos figos e dos limões, está estacionado do lado direito do cemitério e foi colhido pelo tempo que passou; o juíz Pereira, logo à esquerda para quem entra no caminho calcetado, foi consumido pelo cancro que o desfigurou. Ramos e coroas de flores perdidos e esquecidos, o cheiro da crameleira molhada que me acompanha desde a infância, quando visitava a campa da minha avó; pequenas mensagens escritas em fitas roxas de pano puroso, marcadas com caligrafias irregulares que, em momentos de aflição maior, homenageiam quem decidiu definitivamente partir.
E tu
pequenina

chegaste agora mesmo e eu nem dei por ti. Pequenos fios de cabelo, como vírgulas, alojadas sobre a testa e junto às orelhas dão-te um encanto que revivo novamente. Vejo que trazes um sorriso no bolso do casaco, qual riso esquecido no tempo que passeavamos pelas campas como labirintos de muros derrubados, e só dou por ti quando dizes bom dia e pousas a mão anelada sobre a minha, que agarras. Pendurado no teu ombro, o saco de sarapilheira importado dos tempos da infância feliz. Dentro do saco, os periódicos do dia. A mãe e o pai estão ao longe; o pai carrega os baldes de água que foi buscar à fonte, junto à árvore que dá sombra a quem chega; a mãe, enquanto mais uma lágrima lhe escorre pelo rosto abaixo, limpa a fotografia da avó. Dás-me um beijo seco e vemos que o pai se aproxima, começando a esfregar o mármore com o trapo humedecido pelo detergente, devolvendo à rocha o branco das nuvens que nos cobrem. Eu e tu corremos por entre o espaço e a mamã diz

aqui não se corre. Os ciprestes presos ao chão. O chão cobrindo os caixões. Os caixões abrigando os corpos mortos que já foram vidas e que se aproximam dos corpos que ainda respiram, ainda que a medo. Os vivos estão munidos de flores frescas. A cada passo que dão, aproximam-se da terra que dá tecto aos mortos
estranha invocação e peregrinação
doentia obsessão que nos consome a pouca vida que ainda se tem só para sentir o leve afago, ainda que por breves momentos, como num sorriso que não recebemos, de que aquela pessoa que ali a nosso lado dorme, um dia
num dia que já temos dificuldade por vezes em sentir o cheiro da pele amassada pelo quotidiano
já esteve a nosso lado, aflito, esperando o momento, o mais breve momento que possivelmente até nem sentiram para
(numa urgência que adiamos à escala do possível)
partir enfim.

Dás-me a mão, e enterras o rosto no meu ombro. Sentir o teu cheiro infiltrar-se por entre as minhas narinas. É tão familiar a memória da fusão do cheiro dos cemitérios com o teu como tu estares, ali, junto a mim, fechando os olhos enquanto enfim te abraço e digo que já foi há tanto tempo.

E no entanto esta chaga

Tiras os jornais que estão dentro do saco e afirmas que hoje não consegues. Franzes os lábios como um travessão e como que dizes desculpa. Sorrio condescendente e abano a cabeça esquerda direita. Digo deixa comigo. Mas eu acompanho-te, completas. Com o dia a despontar por detrás do monte contrário àquele onde estamos, que em conjunto formam o vale onde crescemos, caminhamos na direcção da campa térrea, coberta com relva pequenina, aparada semanalmente por mim e por ti.

Vamos, digo finalmente.

Dá-me o jornal: sabes como o papá gosta de ter as notícias do dia antes do almoço.
PF

6 Comments:

At 5:47 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Olá:) Sei que este comentário já vem tarde e que vou ser dizer o que muita gente já disse, mas queria dar os parabéns, ao Paulo e ao Nuno. Os vossos textos são fabulosos!

Paulo: a fotografia ficou muito bem. Estavas inspirado quando a tiraste ;)

Beijinhos grandes! Diana

 
At 8:13 da tarde, Blogger Mariana said...

saudades...saudad...saud...sa....s.

 
At 6:09 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Texto lindíssimo!

Ass: Minês - www.lomohomes.com\mines_lomo

 
At 7:10 da manhã, Blogger Silvia Chueire said...

Pensei que já tinha comentado este texto. Voltei aqui e não o tinha feito. Pois bem, é espantoso, Paulo. O seu talento segue me surpreendendo.
Beijos
Silvia

 
At 12:32 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Best regards from NY! »

 
At 9:18 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot! »

 

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