quarta-feira, novembro 10, 2004

A materna violência

Dedicado ao Possidónio Cachapa

Já procurei por detrás do sofá, entre as caixas de cartão abandonadas debaixo da cama e até já bisbilhotei a cama de cobertores do cão. Nada, Mãe. Não sei onde está o cinto de couro que me ofereceste quando finalmente, terceiro ano a tentar, entrei em Direito. Obrigado, Mãe. Não sei se já te tinha agradecido, obrigado. O cinto é bonito, a fivela é percorrida por um travessão dourado, e os furos estão cirurgicamente colocados à medida da minha elegância que sempre elogiaste. Mãe, onde estás Mãe? Será que podes chegar aqui? Preciso que me ajudes a encontrar uma solução. Haverá algum cinto na casa, ainda da era do pai? Mãe, ouves-me Mãe? Chega aqui por favor, é um dia importante, vou hoje conhecer aquela que um dia viverá connosco, que me amará até ao final dos meus dias, que será a mãe dos teus netos, aqueles que beijarás com a ternura que sempre afagaste o meu rosto. A tua força, o teu sangue estagnado, será protelado nas veias da criança a criar dentro do corpo daquela que ainda não sabe, mas eu espero. A tua nora, Mãe. Aquela que tratarás como uma filha. Despacha-te Mãe, preciso de estar bem, porque demoras tanto? Deixa lá o cinto, o colete tapa-me a zona ao fundo da barriga e, em bom rigor, as calças estão no ponto exacto em que não necessito de um. Agora o que precisava era que me engraxasses os sapatos de lustro, engomasses o colarinho da camisa branca e fizesses o vinco nas calças de linho azuis escuras. Vou conhecer a mãe dos teus netos, Mãe. Tenho de estar tão bem quanto sempre estive aos teus olhos. Não queres que faça má figura pois não, Mãe? Sei que tens os botões de punho do pai para me dar. Que os guardaste para que hoje pudesse brilhar junto daquela que amo. Mãe, levanta-te dessa cama por favor, não permitas que o brilho podre que se instalou no teu rosto e se estendeu a todo o corpo tome conta dos teus movimentos. Quero que me dês a tua benção, me beijes as faces quentes, mesmo que as tuas estejam frias. Que as tuas mãos de papel enrugado me afaguem uma vez mais o rosto abandonado onde já desponta a barba. A mesma barba que o pai sempre trajou com elegância e eu herdei – revelação que me confessaste naquele dia de sol, em que o calor fervia no vidro das janelas grandes do quarto e fazia esquecer o cheiro a éter que os médicos semeavam por entre os móveis. Acorda Mãe, vejo que ainda dormes, que o tempo parece estar a passar com mais velocidade pelo teu corpo, mas é contra esse tempo que luto: a tua futura nora espera-me, não a quero fazer esperar, Mãe. Acorda, por favor, larga essa cama e vem ajudar-me, acorda, espero-te em frente ao espelho, ainda não me penteei – os remoínhos que exibia aos quatro, ainda os conservo hoje aos vinte e cinco. Anda Mãe, apenas o meu rosto mudou e o sangue já não corre nos teus braços, pois de resto tudo permanece igual: eu continuo a ser o teu filho, o mesmo miúdo de sorriso satisfeito que beijaste nesse quarto, pouco antes de as tuas faces se humederecem e a tua boca finalmente se deixar emudecer. P ara sempre.

PF

5 Comments:

At 12:13 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Uma carta, um texto, às vezes é a nossa redenção. E digerimos a falta, lentamente, no reconhecimento da falta que é. Dor e a vida que segue.
O texto está ótimo, Paulo.
Beijos

 
At 5:41 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Excellent, love it! »

 
At 11:58 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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