O CORPO AUSENTE
Duas linhas. Duas linhas que se estendem ao longo de muitos quilómetros. Paralelas, produzidas em aço, nunca se encontram. A quilómetros tantos, temos de um lado um vasto campo de oliveiras e pastores, do outro um pequeno ribeiro cruzado por uma velha ponte de madeira que nos leva a uma casa abandonada.
Faltam dois minutos para as três e naquele como nos outros dias, à hora certa o comboio atravessará a vila. A mãe de Armindo olha clandestinamente para um e outro lado. A mãe prepara-se para atravessar as duas linhas de aço. À sua frente, erecto junto ao banco da estação, encontra Armindo, pequenino. Armindo tem os olhos rasados por lágrimas pequeninas e o rosto está vermelho rubro - o seu peito esgotado bombeia golfadas de sangue pelas suas veias pequeninas. Sempre é verdade que a mãe é uma infame adúltera,
( - uma puta é o que ela é)
e em breve esta atravessará a ponte de madeira que cruza o ribeiro para materializar a acusação. O episódio já sobejamente contado, nunca documentado, agora corroborado pelos seus infantis olhos de amêndoa.
Arminda vê o filho do outro lado da linha e todos os seus olhos de maresia são Armindo. Percebe que ele já percebeu. Que nos seus tenros onze anos já sabe que aquilo que a mãe se prepara para fazer contraria o que lhe imprimiram na mente infantil todos os sábados, na catequese. Sabe que o acto que a mãe está prestes a cometer determinará o fim da já por si débil saúde de seu pai. A mãe mantém-se de um lado, o filho do outro. Olham-se. Olhos nos olhos como no primeiro encontro em que a mãe aninhou Armindo no seu peito.
A mãe acena, o menino olha apenas, estarrecido. A mãe inclina ligeiramente a cabeça para a esquerda, pedindo compreensão, mas a esse pedido Armindo responde com o rosto frio que é o rosto de seu pai. O seu olhar invoca o frio dos serões sem lareira, passados a três na sala grande da casa. A mãe busca naquela distância que os separa o tempo suficiente para pedir a Armindo Por favor não digas nada ao teu pai. Naquela espera, a mãe busca o carinho do filho que perdeu há muito. Pensa que ele está um homem feito, bonito, forte. Pensa quando este chorava de noite e apenas repousava debaixo dos lençóis da cama que partilhava com seu pai. É já outro menino este menino que a olha e a censura.
E é também outro menino, o menino feito homem, aquele que mira Natacha disposta em posição fetal sobre a porta metálica de um frigorífico, transformada em cama de operações sustentada por dois cavaletes de madeira; é outro menino o menino feito homem aquele que recorda o rosto de sua mãe naquela tarde.
Armindo prosseguiu os estudos para além da morte da mãe. A morte da mãe marcou-o de tal forma que decidiu seguir Medicina para protelar ao máximo o momento inevitável. Natacha foi-lhe trazida pelo amigo Duarte ontem à noite. Duarte é advogado de um sem número de refugiados de leste que acorrem ao país. Natacha é mais uma. Duarte está apaixonada por ela. Armindo lê o amor dos dois nos olhos mortiços de Natacha.
Os olhos de Natacha são os olhos de sua mãe. Os mesmos olhos que o olharam uma última vez. Os olhos que por si choraram, os mesmos que ele fitou uma última vez antes da locomotiva a colher. Os olhos que ele olhou uma última vez, quando já o comboio travara e o corpo desfacelado de sua mãe se separara em tantos bocados quantos os que os seus braços conseguiam abarcar. Armindo sozinho agarrando em cada membro de sua mãe e o corpo de Natacha ali corrompido: frágil e precário, cortado pela zona dos rins. São corpos diferentes em vidas distantes, mas os olhos são os mesmos de outrora. Um violino passou pelo consultório e deixou uma música tão deprimente quanto insuportável no espaço. Armindo começa a chorar. É novamente o menino Armindo aquele que se deixa abraçar pelo corpo morto da mãe.

4 Comments:
Paulo,
Comento para que vocês saibam que os tenho lido.Para que saibam que os tenho lido e tem sido sempre um prazer. A originalidade e a qualidade literária tua e do Nuno se mantém no tempo.Tão bom, isso.
Beijos
Silvia Chueire
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Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. Yasmin jackson
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