O som e a fúria
Em memória de William Faulkner (1867-1962)
Esqueces-te frequentemente que a pele que te cobre o corpo delgado é minha. A tua carne deixou de ser tua no dia em que me aproximei de ti. Perguntei-te se querias ser minha para sempre e tu disseste que sim – que querias ficar comigo todo esse tempo: inclusivé para além do significado que a palavra comportava. Fugiste faz hoje já não sei quantos meses e pareces não dar grande importância ao facto de que quando falas é a minha voz que escutas e que de cada vez que abordas um estranho é o meu cheiro aquele que este sente.
E eu ao fundo da escada à espera que descesses. Já desço, foi o que disseste e eu acreditei. Envelheci ao fundo daquelas escadas. Esperei-te mesmo depois de me ter apercebido que eras tu a estranha que dobrava a esquina. Trocámos olhares, trocámos de corações. E o rosto que ostentas é meu. A fotografia que está no teu bilhete de identidade tirei-a quando fiz vinte e quatro anos: fazia muito frio, mesmo dentro do meu quarto aquecido pelo termoventilador, e coloquei em volta do pescoço o cachecol cinza que me ofereceras para remediar o sangue que convocaste à minha pele. Tenho ainda na mente o sangue que aflorou aos teus dentes. É meu - o sangue, ainda te perguntei – mas não deves ter ouvido. Respondeste com um sorriso que foi como um ruído nos meus ouvidos e aplicaste de seguida uma gargalhada ao vexame de mim. Depois, foste até à casa de banho e usando a minha escova de dentes, limpaste com círculos imperfeitos o sangue que ao branco dos teus dentes se abordava numa culpa sem retorno.
Não podes por isso convocar o medo de me voltares a ver porque o medo tem tanta legitimidade para estar aqui como a própria palavra: os inauditos conjuntos de sons que embriagados morrem aos teus lábios, onde todos fomos os amantes e todas as palavras bonitas, amanticidas, sucumbem com uma velocidade em fúria. És num corpo toda a tristeza do mundo – e eu sinto que falta ainda um pouco do meu sangue que ficou alojado à tua vida: a mesma vida que agora é a minha. Digo-te que nem precisas de voltar atrás, eu aguardarei ao fundo da escada, sabendo que és minha para além daquilo que a palavra sempre comporta. A pele deteriora-se a cada dia que passa e os meus cabelos ficam mais brancos: como a copa das casas inundadas pela neve que caía no dia em que me vendeste a alma, a troco da minha dedicação à obra maior que eras tu. O teu sorriso perfura-me ainda os tímpanos como uma nova gargalhada. O meus dedos amarelecem, as minhas unhas sujam-se mas eu fico mais um pouco querida. Mesmo que nunca mais me digas que me amas e eu só sinta que o tempo passa, porque todos os dias a noite entra pelo meu coração dentro só para que eu continue a recordar-me de ti.
E eu ao fundo da escada à espera que descesses. Já desço, foi o que disseste e eu acreditei. Envelheci ao fundo daquelas escadas. Esperei-te mesmo depois de me ter apercebido que eras tu a estranha que dobrava a esquina. Trocámos olhares, trocámos de corações. E o rosto que ostentas é meu. A fotografia que está no teu bilhete de identidade tirei-a quando fiz vinte e quatro anos: fazia muito frio, mesmo dentro do meu quarto aquecido pelo termoventilador, e coloquei em volta do pescoço o cachecol cinza que me ofereceras para remediar o sangue que convocaste à minha pele. Tenho ainda na mente o sangue que aflorou aos teus dentes. É meu - o sangue, ainda te perguntei – mas não deves ter ouvido. Respondeste com um sorriso que foi como um ruído nos meus ouvidos e aplicaste de seguida uma gargalhada ao vexame de mim. Depois, foste até à casa de banho e usando a minha escova de dentes, limpaste com círculos imperfeitos o sangue que ao branco dos teus dentes se abordava numa culpa sem retorno.
Não podes por isso convocar o medo de me voltares a ver porque o medo tem tanta legitimidade para estar aqui como a própria palavra: os inauditos conjuntos de sons que embriagados morrem aos teus lábios, onde todos fomos os amantes e todas as palavras bonitas, amanticidas, sucumbem com uma velocidade em fúria. És num corpo toda a tristeza do mundo – e eu sinto que falta ainda um pouco do meu sangue que ficou alojado à tua vida: a mesma vida que agora é a minha. Digo-te que nem precisas de voltar atrás, eu aguardarei ao fundo da escada, sabendo que és minha para além daquilo que a palavra sempre comporta. A pele deteriora-se a cada dia que passa e os meus cabelos ficam mais brancos: como a copa das casas inundadas pela neve que caía no dia em que me vendeste a alma, a troco da minha dedicação à obra maior que eras tu. O teu sorriso perfura-me ainda os tímpanos como uma nova gargalhada. O meus dedos amarelecem, as minhas unhas sujam-se mas eu fico mais um pouco querida. Mesmo que nunca mais me digas que me amas e eu só sinta que o tempo passa, porque todos os dias a noite entra pelo meu coração dentro só para que eu continue a recordar-me de ti.

7 Comments:
A empatia que sinto ao ler estas palavras faz-me acreditar que existem certos sentimentos que são universais quando tudo o que se pode fazer é esperar pelo eterno retorno...Gostei muito
Dissid3nt
Contas-me os meus segredos...Tati
Queridos amigos anónimos,
peço-vos, p.f., que deixem sempre uma forma de comunicação:) gosto de agradecer/discutir/rebater/.... "pessoalmente" os comentários com os seus autores. obrigados. Abraços. Paulo Ferreira (paulo.ferreira@oniduo.pt)
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