quarta-feira, março 16, 2005

Margarida dos caracóis loiros

Dedicado à Margarida


Há um medo teu que foge de mim como as palavras que não tenho mas que um dia te dirigi. Não a ti, enquanto pessoa, ou mulher, ou individuo integrante de qualquer congregação. Falo de ti e do nosso amor, que ficou ao deus dará naquela praia antiga. O teu sorriso agonia ainda à beira mar, por baixo dos guarda sóis. Passei por lá ontem e ele gesticulou-se, agitou-se desembaraçado na minha direcção. Eu discuto com o empregado mas recordo que tu mostras-te ao mundo, por baixo do biquini pequenino. És a Margarida. A Margarida dos caracóis loiros como os girassóis. Há um homem de modos grosseiros que se instalou de frente para nós e vejo que as suas mãos estão imundas com o sémen que a vergonha lhe expulsa da intimidade. Tu sorris e eu discuto com o empregado. A mulher do homem chama-lhe de meu cabrão e a ti lança a plenos pulmões um puta estridente que ecoa por entre as mesas de plástico sujas. O empregado insiste que lhe pedi água com gás. Nas faces da mulher, borbulha a raiva de uma humilhação barata. Tu sorris com o meu medo a conduzir-me em espasmos.


Da última vez que dançaste ao som das palavras que tocavam ao longe no bar junto à praia


palavras lentas, muito lentas acompanhadas ao piano afogado nos lábios do Jorge Palma


disseste-me ao ouvido que aquela era a última vez que eu te veria. Não é mentira que regressaste a casa naquele dia comigo. Que no dia seguinte, me acompanhaste ao pequeno almoço e que a seguir àquele dia, mantiveste-te ao meu lado por mais não sei quantos meses. Não é mentira que a extensão do teu corpo esteve sempre presente, mas por alguma mágoa que não controlei a tua voz já não era a mesma e já nem o teu corpo dançava ao sabor do quarto copo de martini. Estavas ali, a pele a tocar a minha, os teus dedos entrelaçados nas pregas da minha mão, mas o teu olhar nunca mais cegou o meu: há muito que partiras na névoa daquele dia na praia, quando de biquini a mulher do homem te chamava puta e tu sorrias por detrás dos óculos de sol. Eu discutia com o empregado e a mulher levantou-se da mesa dela para se aproximar de ti. A mulher gritou junto de ti que eras uma puta, já tantas vezes que a palavra entretanto perdera o significado, mas tu: hirta e segura, não lançaste qualquer espasmo. Ao fim da minha discussão com o empregado em que resgatara finalmente a água simples que pedira, a mulher deu-me um encontrão e o liquido jorrou por cima dos calções de verão. O homem deixava duas notas em cima da mesa e correu atrás da mulher que pegava já no carro e iniciava a marcha.


Seria de esperar que tivesses reacção e que me quisesses dar uma desculpa. Mas esperar de ti o reconhecimento de um erro seria como esperar que algum dia, naquela praia, não mais houvesse nunca o teu sorriso – que este não persistisse para além daqueles dias e da minha memória; seria o mesmo que pensar que todo o mundo não tinha sentido em todo o seu desalinhamento cósmico. Esperava palavras tuas, mas só recebia sorrisos envergonhados, embebidos em álcool. Ao terceiro dia após o episódio da praia, encontrei-te na casa de banho do bar. Tinhas o mesmo biquini pequenino e lançavas pequenos sorrisos que se perdiam nos olhos, agora esgazeados. Entraras na zona masculina e o homem da esplanada de modos grosseiros estava junto a ti. Colocava-te as mãos na intimidade e dizia minha pombinha. Eu entrei e tu olhaste-me outra vez, enquanto nos teus olhos li que já no outro dia te despediras de mim. Os teus olhos ofereciam-me um aceno que quis evitar. As minhas mãos tremiam e ofereciam-me de palmas abertas a inevitável solução. Tu acenaste com a cabeça que não e eu obedeci. Estava claro para mim que, resignado, restava-me acompanhar a corrupção da carne pelos dias fora. Acordar contigo na mesma cama e dizer bom dia, enquanto descias ao corpo de mim e me saboreavas na tua boca. Isto porque os sorrisos e a tua vida, o simples fluxo do sangue a correr por entre as tuas veias, esses, já estavam reservados a um mundo que não o meu.

pf

6 Comments:

At 2:35 da tarde, Blogger margarida said...

:)

B
e
i
j
o
s

 
At 7:01 da tarde, Anonymous Paulo said...

Como se o carinho fosse um poema...

 
At 12:31 da manhã, Blogger Patrícia Carreiros said...

Parabens!O que se sente muito profundamente só pode resultar em Poesia...

 
At 3:05 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Keep up the good work » » »

 
At 7:03 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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At 12:02 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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