quarta-feira, abril 13, 2005

Paz

Despeço-me do vento e de todos os momentos que me deram a ilusão de um dia poder ser feliz aqui. Fechei a porta de entrada num gesto mecânico que sempre respeitei e parti. A porta ressoou ao longo dos meus ouvidos: não era apenas uma porta que fechava, mas uma passagem que escondia algo mais que a casa vazia. Cá fora, o dia estava triste e cinzento, a pronunciar uma chuva que nunca existiu. Passaram-se seis anos. Seis anos e nem um pingo de chuva; tanto tempo e nunca sentimos o cheiro da terra molhada que imaginámos que habitaria os nossos sentidos nos dias de inverno.


No primeiro dia que pisámos os tacos de madeira do hall, decidimos que seria a nossa casa. A primeira casa depois do TO minúsculo que partilhávamos nos tempos de faculdade: meio quarto meia sala e uma casa de banho com uma divisão intermédia que chamávamos de cozinha. A casa tinha apenas uma janela que ficava junto à sala, que era também quarto, e a partir dela costumávamos ver as folhas das árvores que cresciam em catadupa no jardim, plantado mesmo à porta de casa.


Aqui, pensámos em ter dois filhos, dois cães, preencher a garagem contígua às paredes da casa com outros tantos carros. Todo este tempo volvido, tenho as lembranças violadas e as expectativas despedaçadas; abandono a casa sozinho, com a chave do mesmo carro de quando aqui chegámos e a memória do teu sorriso a inundar-me o rosto de felicidade. Nunca tivemos um animal de estimação e os filhos desapareceram da ideia de nós. O teu cheiro desapareceu igualmente da casa e no seu lugar ficou apenas o vazio. A casa só serve para castigar os meus dias. Nunca mais saberei ao que cheiras, nunca mais saberei que foste tu a minha vida, porque a minha vida de hoje já não é a vida que subsistiu em cada dia que fizeste parte dela. No seu lugar, este buraco negro que imagino que chegue ao centro da terra, onde diabos e fadas dançam em conjunto, compondo sinfonias com as palavras que trocámos.


Parto da casa e da ideia de ti. As memórias que me presto a perder evitam-me a sensação de pensar que não vivi. Aqui ou que não vivi, simplesmente. Percorro a estrada de pó até à fonte, onde os feirantes se amontoam; vou comprar melão e pão e sei que tu sorrirás dentro de mim. Tu sorrirás e eu sorrirei aos feirantes e transeuntes que se amontoam pelos vegetais mais frescos e pelo pão mais macio. Vou comprar dois lírios frescos e vou lembrar-me de ti, esperando que apareças: longe de uma recordação fresca como os lírios que o vendedor embrulha no saco, quero que apareças ao mundo com o corpo, a profana extensão que em dias que não estes tomava por meu numa urgência que não lamentava.


Terás visto agora que o João, o médico, passou por nós. Terás tu visto, que ainda me olha com condescendência, desde o dia em que fugimos de nós, para dar lugar a esta ausência que ele não conseguiu evitar. O João é um bom homem. Gosto dele; sempre gostámos. Recordo o primeiro dia que o vi, passeando-se pela rua com uma mulher meio atarracada, que a população chamava de aleijadinha, e o rosto mirando as pedras e a areia que faziam o caminho: o João transportava consigo um sorriso doce, de eterna felicidade que invejámos. Lembro-me do João nos apresentar a senhora a quem dava o braço como sua mulher. Mais tarde, explicou-nos que esta perdera a vitalidade dos membros no exacto dia em que dera à luz o filho mais novo. E nós, enternecidos pelo amor que havia no abraço dado à mulher, sorrimos.


Escolho os dois lírios como escolhi aqueles que te ofereci faz hoje sete anos, dois anos após nos conhecermos. Disse-te que seríamos um do outro e que ninguém se intrometeria entre nós. Tu assentiste e eu acreditei. Não é que te tenha mentido, simplesmente não contava que aquele cancro nascesse dentro de ti, revolvendo-te as entranhas e reduzindo-as até às cinzas. A escolha dos lírios em boa verdade foi arbitrária: era a única flor que naquele dia ainda subsistia na florista. Pensaste que tinha sido propositado, que já adivinhava os teus gostos. Deixei que te enganasses a ti própria e escondi-me à verdade.


O vendedor insiste que me enganei no troco, que lhe dou dinheiro a mais pelos lírios. Obediente, peço desculpa e ainda agradeço. O homem sorri, um sorriso franco como demonstração de honestidade, e deseja-me um bom dia. Vejo-te ao longe a passar por mim; mas antes: muito antes – antes do cabelo escorrido que caiu como as folhas das árvores na Primavera em que partiste. Chovera durante todo o mês de abril e, em maio, as folhas das árvores no jardim caíram, como caiu também a tua vontade de continuar a viver.


Sigo agora o caminho na direcção do carro. Um cão urina na jante. E penso que coisas desse tipo costumavam arreliar-me. Hoje não. Prossigo. A estrada que percorro, o vento que corto, o horizonte ao longe por detrás das montanhas que formam o vale. São ainda trinta minutos a andar sempre em frente e não quero que te zangues comigo. Já sabes que chego sempre atrasado mas hoje não. Já não é muito o tempo e quero aproveitá-lo. Logo hoje que é o dia do nosso aniversário e sei que vais estar especialmente bonita.

pf

6 Comments:

At 5:08 da tarde, Blogger polegar said...

há textos que movem a alma. obrigada.

 
At 11:33 da manhã, Anonymous Pedro said...

cada vez mais vale a pena vir poisar por aqui....

obrigada...

 
At 4:48 da tarde, Blogger José Alexandre Ramos said...

cru. carnudo. cheio de vida. verdadeiro? humano, imensamente.

 
At 11:53 da manhã, Anonymous Miguel Vale said...

Este texto é extraordinário Paulo. Fiquei preso ao texto até ao fim. Cada vez melhor ;) Abraço

 
At 8:43 da tarde, Blogger Patrícia Carreiros said...

Sente o cheiro, a presença daquela figura que se foi...Revive na tua memória a alma desses monentos em conjunto...
Parabens!
Há coisas que não se podem ver só se sentem, e este texto é para ser sentido;-)

 
At 5:28 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Um belo texto, que nos dá a exata idéia da falta. Tão grande que é necessário o recurso de trazer o outro vivo em si.E dialogar com ele.
Gosto.


Beijos,
Silvia

 

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