quarta-feira, maio 18, 2005

Agustina

O corpo de Agustina desfaleceu ao fim de mais anos do que aqueles que conseguiria contar. O corpo apresentava manchas negras em toda a região lombar e o lenho aberto ainda em sangue sobre o pescoço não deixava dúvidas que fora uma morte violenta. Foi aliás isso mesmo que o detective Júlio escreveu no velho caderno Moleskine. Júlio entrara para a polícia, departamento de homicídios, há dez anos e era neste caderno preto, cruzado pelo elástico de cor igual, composto por folhas lisas ocarinas, que apontava com delicadeza os nomes das vítimas e a causa do ocorrência, acompanhado de poucas notas periciais que julgava puderem ser úteis no decurso da investigação.

Júlio gostava de ver a tinta azul da caneta permanente escorregar sobre as folhas, tal qual o sangue que escorria das fendas abertas das vítimas com que quase diariamente se deparava. Observava com paciência de relojoeiro a tinta comprada nas papelarias mais caras a secar e demorava-se a ver as letras decalcadas no papel com trejeitos de filho pequeno, acabado de conceber. O caderno fora-lhe oferecido nos primeiros anos da escola de polícia pela própria Agustina que lhe chamava de meu menino, e a este caderno designou Júlio a tarefa de ser o mostruário e arquivo de tudo quanto de monstruoso lhe passasse pela frente durante os seus dias de polícia. O caderno encontrava-se já na folha noventa e seis e não haveria de tardar muito para que tivesse de procurar outro.

Agustina era sua conhecida de há muitos anos. Aliás, Agustina era conhecida por quase toda a gente que se conhecia. Mulher de sorriso fácil e apetites ainda mais vorazes terminou fazendo dos seus dias sucessivas entregas a homens que não conhecia. O pai de Agustina, sub secretário do Antigo Regime suicidara-se dias antes da revolução se dar, muitos anos depois de abandonar qualquer pasta governativa, e desde ai Agustina não conheceu mais a sensação de ter um mesmo sítio onde ficar ou uma mesma mesa onde comer. Afaste-se contudo qualquer comiseração ou lamento pelo seu estilo de vida. O estilo de que levava mais que um revés da vida, fora uma opção que tomara em consciência quando já apagara pelo menos umas vinte velas no dia de aniversário.

A primeira vez que Agustina se cruzou com Júlio este não passava de um menino bem, que aproveitava a condição privilegiada dos pais para fazer da vida um jogo. Agustina, essa, era já uma mulher vivida, e bem vivida, pelo que não se importou de desflorar aquele menino de mãos tão delicadas quanto as crianças que aos sábados subiam a escadaria principal da vila para depositar o corpo em súplica nos bancos da igreja. Achava-lhe graça, aquele jeito fácil que ele tinha de sorrir por dá lá aquele beijo ou aquele abraço. Júlio por seu lado nunca consentiu bem aquela forma que Agustina tinha de se entregar a todos os homens e por outro lado duvidar da sua experiência de homem, ainda que à altura em que Agustina pela primeira vez conheceu e palmilhou o seu corpo este não passasse de um adolescente com o acne a destruir-lhe o rosto fino de menina.

Ontem, mais ou menos por esta hora, Júlio procurou de novo Agustina. Levou consigo o caderno que Agustina lhe tinha oferecido e a intenção de como das outras vezes, metê-la num qualquer beco da cidade e lhe arrancar o vestido negro aos puxões. Rebentar as ripas que constituíam a roupa interior e entrar dentro dela com força. Libertos sob a intimidade de um beco deserto, Agustina bateu com os dentes na tijoleira do prédio e gritou ai, enquanto Júlio respondeu que se calasse, puxando de uma adaga que mergulhou sobre o pescoço da sua vítima. Ao terminar, puxou as calças para cima e segurando com delicadeza a caneta de tinta permanente escreveu morte violenta na última folha do caderno.


pf

12 Comments:

At 12:45 da tarde, Blogger polegar said...

morbidamente maravilhoso...

 
At 10:24 da tarde, Blogger Patrícia Carreiros said...

Terrìfico...Lindo...
Senti um arrepio...

 
At 11:38 da manhã, Blogger polegar said...

não resisto a lançar o desafio por estas bandas, onde o talento abunda... anda por aí um texto cujo destino está nas mãos da blogoesfera. se quiserem meter-lhe o vosso bedelho, passem no polegadas e leiam "passa a outro e não ao mesmo". se vos interessar, continuem. por favor, era uma honra.
um beijinho

 
At 11:58 da tarde, Blogger polegar said...

parabéns... realmente grande surpresa!!! vou tentar passar por lá ;)

 
At 2:31 da tarde, Anonymous Paulo said...

Fiquei à espera, Polegar. E esperei e esperei e esperei. Depois desisti.

 
At 2:46 da tarde, Blogger Patrícia Carreiros said...

Olá companheiros de "blogagem" ;-)
Então jantar dia 11 de Junho, Sabado, na Taverna, em frente ao jardim das amoreiras?
Estamos combinados?

 
At 11:20 da tarde, Blogger polegar said...

lamento, paulo. pregaram-me uma rasteira e fiquei no caminho. mas hei-de conhecer-te.

 
At 1:29 da tarde, Blogger maizine said...

Agradeço a tua visita ao Lexotan. Também voltarei aqui. Gosto das tuas/vossas histórias. Abraço.

 
At 10:14 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Ótimo conto! Bem escrita e bem amarrada a história. Bom mesmo.

Beijos,
Silvia

 
At 9:35 da tarde, Blogger Roberto Iza Valdes said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

 
At 8:07 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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At 10:44 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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