Raiz
Para a mulher que mais gosta de mim - a minha mãe
Tinha quatro anos e não sabia ler, mas a minha mãe, com o casaco a albergar-lhe as lágrimas, pegava em mim, sentava-me no seu colo e dizia Anda cá escrever duas letras ao pai. A minha mãe chorava, porque o meu pai estava ausente, perdido de trabalho algures no Magrebe. Era público para todos que o coração da mãe escurecia de cada vez que levávamos o meu pai ao Aeroporto, que escondia garrafas de whisky na mala de viagem. Até completar o meu sexto aniversário, o meu pai era quase um estranho que andava pela casa e não tenho dúvidas que os seus colegas saberiam mais das suas tristezas que nós. Nós eram eu, a minha mãe e os meus dois irmãos mais novos.
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O pai telefonava uma vez por semana e escrevia de duas em duas semanas duas letras. Nós não tínhamos telefone e aguardávamos a chamada do pai em casa da dona Cândida, a vizinha contígua. Por vezes, o pai atrasava-se na hora e a minha mãe enervava-se. Iamos todos para casa da D. Cândida e esta servia-nos do seu chá e dos biscoitos que pertenciam aos netos. Os netos eram netas e eram minhas amigas. A nossa casa ficava na Rua do Cais. O nome da rua devia-se ao largo empedrado que sucedia as filas de casas e dava acesso ao cais da vila. As casas tinham por baixo de cada número da porta uma gravura. Na da dona Cândida, estava apenas escrito Avó. A dona Cândida era avó legítima da Ana e da Marta e nossa avó por dedicação e amizade.
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A minha mãe aguardava a chamada do meu pai, pé ante pé, esperando que a sua voz chegasse pelo telefone. A minha mãe aguardava o telefonema como aguardava a dor das cartas que chegavam cadencialmente e eu sentia na mão que me conduzia até casa da Dona Cândida o seu coração amestrado pela dor. A mãe lia-nos a carta do meu pai em voz alta, mas eu não ouvia, pois sabia que esta replicaria tudo vezes sem conta à dona Cândida. A minha mãe vivia triste e compensava a ausência do marido com o carinho que transbordava para mim e para os meus irmãos.
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Quando o meu pai ligava, eu e os meus irmãos defendíamo-nos da tristeza com a voz franca do meu pai. O meu pai queria saber de nós; perguntava por cada uma das nossas vidas que ignorava e ria, ria muito. Fazia uma qualquer piada e apagava da nossa memória a ausência de si. Falava connosco, ria, ria muito e contava-nos uma história dos seus dias. Plantava um sorriso em cada um dos nossos rostos e desligava de seguida, não sem antes deixar mais um beijo à minha mãe. A minha mãe devolvia o beijo, multiplicava-o pelas bocas dos três filhos e no final dizia-nos que ia correr tudo bem. Se Deus quisesse.
pf

6 Comments:
Deixo-te um beijo
tão bonito... obrigada "mãe dele"... beijinhos para ti
Deve ser tão bom ter mãe...Um dia quando for mãe vou poder chegar perto dessa realidade, embora ao contrario...O teu texto é muito bonito!
Um texto amoroso. De amor pela mãe e certamente pelo pai.Bonitos, o texto e o amor.
Beijos,
Silvia
Então e aquela novidade!
Estamos à espera...
Beijinhos ao Paulo e ao Nuno***
Obrigada pelas visitas ao meu/vosso blog!
O detalhe tem um efeito tremendo...cada palavra destaca a anterior. There's such unison to the text.
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