quarta-feira, junho 08, 2005

A estrada menos percorrida do mundo

A estrada da aldeia de Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo. Era uma estrada ladeada por dois muros altos, por onde quase ninguém já passava. Quase ninguém, porque todas as quintas feiras João e Mariana iam até essa estrada e permaneciam em silêncio amando-se no frio do carro. Enroscavam o corpo um no outro e uma luz diferente acendia-se nas seus bocas, nos seus olhos e nas suas narinas.

A estrada do Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo, porque os habitantes se tinham afastado dela no dia em que do alcatrão brotou uma frondosa árvore de folhas verdes e grandes como as nuvens no céu que abrigavam a sua copa. Á árvore apresentava uma tal largura e estava cimentada com tal força ao alcatrão que todos afastaram a ideia de a arrancar ou simplesmente passar ao lado da mesma. Preferiram abrir caminho pelo meio dos montes e erigir pontes onde antes apenas corriam rios.

Desde o dia em que a árvore brotou forte, alta e estupidamente persistente do chão que João e Mariana ficaram sem se ver. No lugar dos lugares onde trocavam beijos e apertões, nascera aquela árvore tão larga que ocupava toda o espaço da estrada. Tão alta e tão espessa que impedia qualquer comunicação entre as duas partes. João chegava sempre de sul, na bicicleta; Mariana do norte, no carro onde em breve fariam amor, abrigados na berma da estrada. Mas não agora. Não agora com aquela árvore a intrometer-se nas suas vidas.

Passaram-se anos e as ervas daninhas das bermas estenderam-se até à altura de dois homens; o alcatrão foi perfurado por arbustos e cardos que pintaram de outras cores o negro do alcatrão. A árvore cresceu cada vez mais e do seu topo já era possível avistar o outro lado do mundo; a árvore crescia organicamente livre e era impossível um animal de pequeno porte que fosse passar para o outro lado do tronco. A bicicleta de João já não conseguia passar a vegetação, pelo que este fazia o caminho até à árvore a pé, tomando cuidado com os cardos. Os braços de Mariana já só com dificuldades derrubavam toda a flora que se abrira ao mundo naquele sítio.
Mas ainda assim, João e Mariana foram voltando, quinta feira após quinta feira. Um muro de ramos e folhas, ferido de mensagens de um e outro lado, separava-os todas as quintas feiras. Hoje, quinta feira em cinzas, enublados pela memória de outros dias, voltaram de novo. Tendo compassos de viver distintos, chegaram contudo à mesma hora. E ambos gravaram com força no tronco uma mensagem, que não tinham por certo que não tivessem já deixado numa outra altura qualquer. Procuro-te, desenhou a mão de João. Aposto que nunca verás isto, pensou a cabeça. E assinou, perguntando-se de seguida se alguma vez ela leria a mensagem ou se simplesmente esta ainda se lembraria do seu nome.

Mariana, do outro lado da árvore, ao mesmo tempo e mais ao menos à altura deste, escreveu algo similar e não sabe se terá chorado para cima das raízes verdes, embora seja possível que sim. Ambos ignoravam o troço que cada um deles desenhara em cada um dos lados. Antes de partirem, rumo a suas casas, onde outras vidas lhes respiravam junto do peito, voltaram a olhar a árvore. Distantes por escassos metros, estavam os dois corpos erectos separados por uma barreira que ambos miravam com atenção. Os corpos tristes, recortados no meio da vegetação e chorosos de outra vida, imaginaram-se no silêncio da estrada onde ninguém passava. E neste entretanto, antes de voltarem costas e se despedirem, voltarem às suas vidas onde outras vidas lhes respiravam junto ao peito, ainda tiveram tempo para um último pensamento em silêncio: para a semana à mesma hora?

pf

8 Comments:

At 3:16 da tarde, Blogger polegar said...

terá essa árvore nascido pela força da natureza ou pela força da razão? de qualquer das formas, há amores que são serras, mapas e bússolas. amanhã à mesma hora.

 
At 9:14 da tarde, Blogger a. said...

que bonito. que bonito mesmo.

 
At 11:27 da tarde, Blogger Patrícia Carreiros said...

olá o jantar fica adiado para dia 2 de julho!!
um beijo grande ao nuno.sem ti nao faria sentido.
beijos

 
At 4:20 da tarde, Blogger Mariana said...

De uma beleza o texto, hein? E essa árvore, meu Deus! Que loucura a linha tënue da separação e da atração. Cá de longe, sigo admirando teus passos, embora não pareça. Beijo manso,

 
At 7:16 da tarde, Blogger Patrícia Carreiros said...

olá nuno e ola paulo!!pois é o jantar esta dificil de acontecer, eu nao me lembrei que dia dois é o concerto dos queen e que tenho bilhetes...vai então passar para dia 9 de julho e desta vez nem que venha ca o papa eu volto a adiar.
beijos grandes;-) (sera no mesmo sitio e a mesma hora
depois confirmem)

 
At 9:01 da manhã, Blogger Silvia Chueire said...

A metáfora é ótima. E o conto bem escrito.
Gosto, Paulo.
Como sempre.

Beijos
silvia

 
At 1:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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At 10:30 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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