Pinceladas sobre a vida de Sílvia – um estudo pouco exaustivo
Tragaste a noite ao mesmo ritmo que ias deitando abaixo a garrafa de rum que agora serve de cinzeiro. A roupa está disposta pelo quarto ao abandono do teu corpo e do de Silvia. Esta dorme a teu lado e a certa altura da noite pensas que a respiração desta te faz lembrar suaves murmúrios de anjos
(melhor: colas na tua mente o pulsar ritmado que sai pelas suas narinas à tua ideia de anjos repousando sobre uma nuvem, qual nenufar, no céu)
mas logo concluis que isso é efeito do alcool que bebes à quase mesma velocidade que queimas os cigarros contra os pulmões. Silvia tem o cabelo escorrido e o rosto está disposto sobre a brancura da almofada. Os seios cheios, fartos mesmo, escondem-se na camisola que não alberga o tamanho dos mesmos e não há palavras, por mais poéticas que sejam, que encobram os pensamentos que por momentos te ocorrem.
Acordaste agora e meditas sobre o inevitável breve final do mundo. Imaginas já o estrondo que ecoará na tua cabeça e fumas. Fumas muito e sempre. Fumas no carro, fumas quando chegas a casa, antes da refeição, durante e depois. Fumas na casa de banho. Fumas enquanto fodes. E Silvia nunca aguentou o cheiro do fumo. Sábe-lo, mas insistes em tirar mais um cigarro do maço e em acendê-lo. Silvia dorme. Levantas-te e agarrando na garrafa de rum que agora serve de cinzeiro, acercas-te da janela. Da janela vês o mar. E quando vês os miúdos que desafiam as ondas a rebentar sobre a areia, Silvia acorda. Disse
bom dia,
caminhou na direcção da porta e entre o caminho da cama e da casa de banho ainda tem tempo de completar
acaba com a merda do fumo,
que
estás a empestar o quarto. Silvia demora-se na casa de banho; e ouves a urina projectar-se na água da sanita. Sílvia puxa o autoclismo, o papel higiénico rola por duas vezes, a torneira abre-se, a água jorra contra o azulejo, a torneira fecha-se. Silvia descoberta ao mundo atravessa a porta da casa de banho que dá acesso ao quarto e diz
Já nem fazes a barba. Mas tu fazes-te de mudo. Continuas a fumar junto à janela e Silvia diz
Veste a camisola,
pois
está muito frio, mas tu devolves a ordem com a pergunta
Quando foi que tudo aconteceu
Quê, pergunta também
Quando foi que tudo aconteceu, repetes, tudo isto
Tudo, mas tudo o quê,
isto de estarmos aqui mas não estarmos: tu seres uma chata, e eu já não aguentar nada disto, respondes seco.
Silvia diz que não sabe mas adianta que talvez tudo tenha acontecido na altura em que te deixou que lhe tocasses a intimidade com os dedos com cheiro a cerveja e decidiu
deixar aquele ex marido banana para fugir contigo só porque tinhas um tom de voz que fazia lembrar o Antonio Banderas e prometeste que havias de comprar uma ilha algures no Mediterrâneo só para os dois. Ela diz que foi isso, que foi isso que aconteceu.
pf
(melhor: colas na tua mente o pulsar ritmado que sai pelas suas narinas à tua ideia de anjos repousando sobre uma nuvem, qual nenufar, no céu)
mas logo concluis que isso é efeito do alcool que bebes à quase mesma velocidade que queimas os cigarros contra os pulmões. Silvia tem o cabelo escorrido e o rosto está disposto sobre a brancura da almofada. Os seios cheios, fartos mesmo, escondem-se na camisola que não alberga o tamanho dos mesmos e não há palavras, por mais poéticas que sejam, que encobram os pensamentos que por momentos te ocorrem.
Acordaste agora e meditas sobre o inevitável breve final do mundo. Imaginas já o estrondo que ecoará na tua cabeça e fumas. Fumas muito e sempre. Fumas no carro, fumas quando chegas a casa, antes da refeição, durante e depois. Fumas na casa de banho. Fumas enquanto fodes. E Silvia nunca aguentou o cheiro do fumo. Sábe-lo, mas insistes em tirar mais um cigarro do maço e em acendê-lo. Silvia dorme. Levantas-te e agarrando na garrafa de rum que agora serve de cinzeiro, acercas-te da janela. Da janela vês o mar. E quando vês os miúdos que desafiam as ondas a rebentar sobre a areia, Silvia acorda. Disse
bom dia,
caminhou na direcção da porta e entre o caminho da cama e da casa de banho ainda tem tempo de completar
acaba com a merda do fumo,
que
estás a empestar o quarto. Silvia demora-se na casa de banho; e ouves a urina projectar-se na água da sanita. Sílvia puxa o autoclismo, o papel higiénico rola por duas vezes, a torneira abre-se, a água jorra contra o azulejo, a torneira fecha-se. Silvia descoberta ao mundo atravessa a porta da casa de banho que dá acesso ao quarto e diz
Já nem fazes a barba. Mas tu fazes-te de mudo. Continuas a fumar junto à janela e Silvia diz
Veste a camisola,
pois
está muito frio, mas tu devolves a ordem com a pergunta
Quando foi que tudo aconteceu
Quê, pergunta também
Quando foi que tudo aconteceu, repetes, tudo isto
Tudo, mas tudo o quê,
isto de estarmos aqui mas não estarmos: tu seres uma chata, e eu já não aguentar nada disto, respondes seco.
Silvia diz que não sabe mas adianta que talvez tudo tenha acontecido na altura em que te deixou que lhe tocasses a intimidade com os dedos com cheiro a cerveja e decidiu
deixar aquele ex marido banana para fugir contigo só porque tinhas um tom de voz que fazia lembrar o Antonio Banderas e prometeste que havias de comprar uma ilha algures no Mediterrâneo só para os dois. Ela diz que foi isso, que foi isso que aconteceu.
pf

13 Comments:
aieeeee... vocês andam-lhe a martelar no mesmo. dói, porra! ainda por cima tão bem escrito.
uma encomenda: uma coisa daquelas que enche o peito de esperança e nos faz esquecer que tudo tem um fim. pode ser? beijinhos... aos dois.
Querida Polegar,
da minha parte, o teu desejo será concedido. Tentarei que o seja já no próximo texto:)
Esse pedido concedido seria um doce...algo acerca das janelas que abrem...
há por aqui qualquer coisa de Lobo Antunes, ou é impressão minha? está interessante. continua.
Obrigado pela visita e pelo comentário, Sandra. Cumprimentos,
Paulo F.
Bravo!
Bastou uma breve visita para saber que regressaria e muito.
Cá estou eu hoje, finalmente a deixar uma palavra de apreço e gratidão pelos textos.
Beijinhos
Volte sempre, Cassiopeia. Será sempre bem vinda. Paulo Ferreira.
Excellent, love it!
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