quarta-feira, julho 13, 2005

Lucidez

Dedicado à gentil Polegar
Eram dois amantes que se amavam loucamente mas que nunca em vez alguma tinham olhado nos olhos vazios um do outro. Tinham passado dois, três cinco ou dez anos e Jorge teria dificuldade em descrever o rosto de Mariana. Tudo na exacta proporção em que Mariana ignorava o contorno do queixo, das narinas, a brancura do esmalte dos dentes deste. Tinham-se designado amar desde o primeiro dia e isso era tudo o que precisavam. Ele dera-lhe a mão no escuro de um concerto e esta não se importou que estivesse demasiado escuro para sentir devidamente quem lhe tocava. Ele por seu lado não quis saber a que rosto pertencia a mão que, mesmo no escuro, este julgara mais delicada que as demais. Quis tocá-la, cheirá-la como se cheiram as flores e a medo conseguiu abordá-la, após trocar de cadeira por duas vezes. Abordou-a com a simples respiração e esta sem medo não se voltou para perceber quem lhe encostava os lábios ao pescoço enquanto lhe segurava a mão e a rondava de beijos. Mariana deixou-se agarrar pelas mãos inseguras de Jorge e poderá dizer-se que nunca mais alguma vez a largou. Caminhavam muito, sempre lado a lado, e juntos calcorrearam todas as calçadas de Lisboa, sem alguma vez se preocuparem com a figura que a seu lado materializava os passos na direcção da felicidade. Possivelmente descobririam aquilo que não entendiam e por isso preferiam assim permanecer. Àquela distância sentiam a respiração do outro e sempre acharam que essa era a melhor forma de se olharem. Desde o primeiro dia que tinham certezas que seriam eles próprios a fazer na sua cabeça a ideia do outro e isso não era mais importante que qualquer outra imagem que os seus olhos, se não estivessem vazios, lhes pudesse devolver. Era assim tanto que se amavam no escuro dos quartos, como escuro eram os seus olhos, se eles se tivessem dado à preocupação de perceber que cor morava em cada um dos olhos destes; era tanto assim que ambos se deixavam guiar pelo suave murmulhar dos gemidos de um e outro sem fazerem perguntas ou sem cometer o erro de tentar perceber a forma que o rosto do outro assumia. Amavam-se no escuro do quarto e muitas foram as vezes que, os corpos exaustos, mutilados a prova de risos e gargalhadas, se desconheceram no silêncio escuro das paredes vazias. Depois, deixavam-se perder e só no final,

quando já não havia mais amor dentro deles para brotar no corpo do outro

se deixavam tocar com as mãos e sussurravam enfim, como num afago e num olhar que nunca trocaram, «Para sempre». «Meu amor», respondia o outro.
pf

14 Comments:

At 11:12 da manhã, Blogger Cassiopeia said...

Lindissímo... Só a descrição que não é apenas descrição consegue saciar como esta consegue.

 
At 3:25 da tarde, Blogger polegar said...

querido paulo: estou sem palavras. também não faz mal. senti. muito. obrigada

 
At 4:49 da tarde, Anonymous Paulo said...

Ainda bem que gostaste:) beijinhos. vai aparecendo

 
At 6:21 da tarde, Anonymous polegar said...

e não tenho estado sempre por cá? :) beijinho

 
At 6:34 da tarde, Anonymous paulo said...

tens, de facto tens. És um dos nossos três leitores... :P

 
At 12:56 da manhã, Anonymous susanisca said...

Vão-me desculpar mas «Para sempre» deixa-me mais angustiada que um final desacertado!

Eu descobri que sem fim tem data de validade... :(

 
At 6:14 da tarde, Anonymous Manela said...

Lindo... Tinha saudades de ler-te... Beijo

 
At 2:44 da tarde, Anonymous patricia said...

Esta de parabéns o texto divino..Adorei, Tenha uma boa semana
Patrícia

 
At 4:01 da tarde, Anonymous Anjo Sensual said...

Adoramos o texto!
Viemos agradecer sua visita em nosso blog e aproveitamos para desejar uma ótima semana, Anjo Sensual

 
At 4:44 da tarde, Anonymous Nomes para quê? said...

Tenho-o lido, Paulo... o que pede logo à partida a devida reflexão... (daí, talvez, a vontade do silêncio dos seus leitores...).
Quem emana, como o Paulo, a Luz entre o trágico e o cómico dos espelhos, pode tornar-se docemente contundente... e irreversível.

O Nuno também... incrível, como se não bastasse um..!

 
At 6:57 da tarde, Blogger Loiríssima said...

Oi Paulo...obrigada pela sua visita,qto a imagem que coloquei lá, tem um "destino certo" rs "Ela" tem a ver com o texto sim ;o) Lindo seu blog, maravilhoso o seu texto...fico feliz em passar por aqui. Uma grande semana pra ti.....Beijokassss Sedutorassss

 
At 1:04 da manhã, Anonymous Alicebaianinha said...

Ótimo texto! Um xêro

 
At 8:42 da manhã, Anonymous Estela said...

Amo histórias de amor... choro com elas, sorrio com elas... eu sou uma boba!

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Feliz dia do Amigo!

O verdadeiro amigo
conhece todos os teus defeitos
e mesmo assim fala para você e
para todos que é teu amigo.

 
At 12:09 da manhã, Blogger luis mendes said...

Gostei... Simplesmente...

 

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