quarta-feira, agosto 31, 2005

Profundo

Deitei-me sobre uma superfície plana. Teria pouco mais de dois metros de comprimento e um de lado. Era uma superfície fina, toda forjada em aço e até houve uma vez que abrigou o meu corpo retraçado. Deitei-me sobre a superfície plana e vi dois cirurgiões, uma enfermeira, a suturarem-me o rosto com uma irregularidade tão em desacordo com o rosto do Avô que os meus netos reconheciam. As máquinas há muito se tinham desligado, indicando a paragem da pulsação, mas ainda assim senti que pedalava com força na minha velha bicicleta, quando de súbito um carro me atingiu. O chapéu voou para a valeta que ladeava a estrada e a bicicleta transformou-se num oito deformado. Houve um bombeiro que me assistiu, um médico que me operou. Mas só me senti realmente bem quando os meus se aproximaram de mim e reconheceram o corpo enrugado que em tempos os abraçara. Não me lembro de estar morto, mas sei que foi quando eles se aproximaram que eu morri.

pf

6 Comments:

At 6:40 da tarde, Blogger luis mendes said...

Fiquei sem palavras...

Nunca nos questionamos como será partir... Será que somos só nós que sofremos?

Um abraço...

 
At 3:49 da tarde, Blogger polegar said...

sim... sem palavras.
um beijo

 
At 9:35 da tarde, Blogger s said...

enternecedor... trouxe-me recordações...

abraço

 
At 10:45 da tarde, Anonymous Alexandre said...

cru: a consciência plena da morte.

 
At 11:12 da manhã, Anonymous Nomes para quê? said...

Calafrio... se um abraço aplacasse a Morte... será que nos abraçavamos mais?... será que nos abraçavamos a tempo?

 
At 7:40 da tarde, Blogger ContorNUS said...

palavras envoltas de sentido...sapiência profunda
;)voltarei

 

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