quarta-feira, setembro 14, 2005

O último verão das nossas vidas

Eu ja não se sei o que é sentir o teu amor
Não sei o que é sentir (...)
É o amor
Que chega ao fim
Um final assim
É mais fácil entender
The Gift, Fácil de entender

Era agosto, quase meados. Eu e tu: eu tão normalmente sedado com a vida, perdi a calma naquele dia e acabámos por morrer os dois. Ia conduzindo pela estrada sinuosa e tu estavas ao meu lado. Tão calada como os anjos. Por baixo dos óculos escuros, choravas. E volta e meia sustias uma lágrima com os dedos contra os olhos. Eu conduzia o carro, já disse: terceira, quarta, terceira de novo porque a estrada é perigosa – não dá para passar dos sessenta. Olhava-te de soslaio como não querendo ser reparado e volta e meia fazia que olhava uma qualquer oliveira. Era o alentejo triste e quente que me abafava a garganta. Lembro-me que uma música triste inundava as colunas do rádio. Recordo-me que nenhum de nós foi capaz de a cantar, apesar de a sabermos do princípio ao fim. Ficámos com as palavras junto aos lábios para sempre. Não me recordo se tiveste tempo de me olhar uma última vez antes de tudo se dar. Tudo foi demasiado rápido, apesar do carro avançar tão devagar, atento às constantes curvas e contracurvas – as bermas largas e fundas, toda a poeira a sujar o alcatrão listado de branco. Parecia que ainda ali tinha ligado o carro e tu já estavas a chorar, com os dedos contra as vistas, logo depois de eu ter dito

acredita que eu quero acreditar mas
nada bate certo.

Já não sei se as palavras foram exactamente estas ou se as disse como um poema, separando a conjunção do resto da frase. Mas sei que ainda me tentaste tocar ao de leve sobre a perna e eu afastei-te. Sabe agora que me doeu, e muito, rejeitar-te. Continuámos com o alentejo pela frente com a rejeição a doer-me na pele e chegámos enfim à estrada sinuosa. A velocidade, que até aí fora a forma de eu esquecer tudo, atingira pois o ponto culminante um pouco antes de chegarmos à estrada com curvas que contornavam os montes secos. Lembro-me de, por essa altura, antes de tudo acabar, pensar

Sabe Deus tudo o que eu te quero dizer.

Pouco tempo depois, com agosto quase meados, um pouco depois de uma qualquer oliveira, sem querer saber como, morremos. Os dois. O tempo passava lento lá fora e as nossas mãos estavam separadas para sempre. Seguimos o nosso caminho na estrada sinuosa, mas apenas já só existiam corpos dentro de chapa negra do velho carro. Seguimos seguimos seguimos. E tudo o que sei é que não é como se os nossos corações tivessem parado de bater. Simplesmente eles já não batiam por amor ao outro e isso, sem que eu saiba explicar como, acabou por inevitavelmente nos matar.


A frase “Sabe Deus tudo o que te quero dizer” pertence aos THE GIFT, música da epígrafe.

pf

12 Comments:

At 5:48 da tarde, Anonymous polegar said...

já estive nesse alentejo, depois dessa qualquer oliveira. dói.

 
At 8:43 da tarde, Blogger pinky said...

yep, a morte dói sempre, qualquer tipo de morte.
mas a vida é uma constante morte e renascimento, assim progredimos, assim caminhamos.
bonita história triste.

 
At 12:25 da manhã, Anonymous Maria do Ceu said...

Maneira agradavel esta a de que conseguiu tirar de um pequeno excerto, este post que desenvolveu tão bem. Gostei de ler. Beijinhos.

 
At 9:48 da manhã, Anonymous Ana said...

Dá q pensar...até que ponto oamor realmente existe? É que por vezes um simples olhar ou sorriso dirigido a outra pessoa pode pôr fim a todas as juras de amor que tinham sido feitas...

 
At 2:31 da tarde, Anonymous Nomes para quê? said...

Trago esta desconfiança, há algum tempo já, de que todos vivemos as mesmas experiências de forma mais ou menos similar, sejam boas ou más... todos experimentamos os mesmos sentimentos e os mesmos impulsos... era sobre era... livres... prisioneiros... talvez seja a Vida, por vezes tão madrasta, que nos torna irmãos...

... mas que devia ser proibido escrever como o Paulo escreve, lá isso devia...

 
At 10:24 da manhã, Blogger Patrícia Carreiros said...

Não sei porque será tristeza o fim de qualquer coisa, se só com um fim se inicia uma outra coisa qualquer.Só com um fim de um texto maravilhoso se pode iniciar outro e outros...Que termines sempre e recomeçes para sempre.
Beijos literários-ihihihihih!!!!

 
At 10:22 da tarde, Blogger lina said...

gostei muito :)

 
At 1:20 da tarde, Blogger gerusa batista said...

que lindo texto. profundo. tomei a liberdade de colocar o link do seu blog no me blog. se quiser visitar. É modesto porém sincero. Abraço Gerusa Maia http://proximocais.blogspot.com

 
At 3:45 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Gostei do post. Talvez queiras dar uma olhadela em http://osabordaslagrimas.blogspot.com/ e também participar no projecto. Abraço

 
At 12:23 da manhã, Blogger Tixa said...

Gostei muito do teu post.se quiseres dar uma olhada no meu blog, http://assemblyroom.blogspot.com/

 
At 5:25 da tarde, Anonymous nina sem medo said...

Não sei por que magia... Se é o cupido que tira a flecha, ou outro qualquer feitiço de bruxa, o certo é que há sempre um dia, um momento, um segundo em que tudo se desmorona, qual castelo de areia.

E é engraçado como procuramos preencher os espaços vazios com as palavras. Às vezes, até parece que conseguimos.

E quem continua a amar, agora sem ser amado, continua qual fantasma agarrado ao castelo desmoronado, tentando, em vão, colar os grãos de areia.

Vale ao mundo existirem os poetas, que sofrendo por, ou falta de amor, nos premeiam com as palavras certas.

Um abraço de quem por amor, perdeu o medo.

 
At 5:03 da manhã, Blogger Betynha said...

Fantástica descrição, fantástico amor que deve ter sido. Quando as coisas terminam, todos nós morremos um pouco, perdemos e ganhamos. É assim a vida...

 

Enviar um comentário

<< Home