quarta-feira, novembro 24, 2004

Breve história e memória de um tempo com muitos segundos

Num ambiente concorrencial e pleno de filhos da puta a metro, conheci o meu bom amigo Tiago Viegas. O Tiago é, para mim, a garantia que há bem no mundo e que talvez ainda haja um esperança para continuarmos a acreditar neste valor com letra maiúscula. Porque no emaranhado do tempo tragado com a justificação de que os fins justificam sempre os meios, o meu bom amigo sempre me deu lições de como agir e reagir. Há, a par do Tiago, toda uma esperança nas palavras e nos actos que temos a certeza que podemos ser bons no que fazemos sem prejudicar ninguém: que a soma das partes é sempre superior ao todo e que são essas partes que nos fazem sentir homens. E isto foi sempre compatível, aceite e exigível, (por culpa dele), com a nossa amizade. Tiago, Obrigado.
Dedicado ao Tiago Viegas

Fechei a porta de entrada e olhei a fotografia disposta à ausência e ao medo no móvel escuro do corredor. Sei que foi a primeira fotografia que te tirei: vinhas das piscinas dos Olivais e tinhas o saco desportivo debaixo do braço com um sorriso a interromper-te o rosto. O sorriso estava ao alcance de quem passava; da Luísa e da Maria – as amigas inseparáveis da faculdade: as duas irmãs que naquela tarde te acompanhavam e que eram colegas das águas mortas e doces do pavilhão desportivo. A Luísa e a Maria não gostavam de mim. Tu caminhavas altiva, os cabelos a brilhar ao sol que timidamente avançava e eu, em cima do frágil ramo da árvore que ameaçava ceder, tentava ocultar a minha aflição. O nervosismo na colocação do rolo, a mudança de lente para poder tirar uma fotografia tão genuinamente tua, que até a pequena marca de nascença sobre os olhos pudesse ser vista.

As mãos tremiam-me ao susto de ser descoberto por ti, pelas tuas amigas que me olhavam sempre de soslaio. Um animal passou lá em baixo e uivou na minha direcção: conheço o animal – vejo que é o mesmo que costuma pedir comida a quem passa. Procuro nos bolsos e vejo um rebuçado. Lanço-lho e este devora-o em tragos largos.

Volto a ti, volto a procurar a tua cicatriz. Já estás tão próxima, que quase consigo sentir o teu perfume. Aproximo a objectiva mais um pouco: do ângulo em que estou vejo que caminhas na minha direcção: apenas a camuflagem de folhas me permite permanecer incógnito. Foco a imagem uma vez mais, duas vezes, e quando estou prestes a disparar, o cão volta a uivar. Desequilibro-me e todo o peso do meu corpo se projecta no chão. As tuas amigas riem como duas hienas em uníssono. Há em mim um vexame que me faz querer omitir os olhos e desaparecer.

Mas vens a correr na minha direcção. Queres saber se me magoei. Se estou bem. Se quero que me leves a um hospital – estás ali mesmo com o carro. Digo-te que não, que já estou habituado a cair de grandes alturas. Que a enfermeira que assistiu o meu parto se descuidou e logo aí bati com a cabeça numa quina da cama do hospital. É demais evidente o meu embaraço e o ridículo de mim. As tuas amigas continuam a rir.

O joelho esquerdo arde-me: uma dor cirurgica percorre-me o sangue e aflige-me todas as articulações. Aquela perna suportara todo o peso do corpo durante a queda, pelo que apenas a custo me mantinha de pé. Surpreendentemente, no teu olhar vejo uma bondade infantil, um ar embevecido de quem se sentiu elogiada com alguma coisa que disse ou fiz. Fico parvo a olhar-te.

- Talvez devesse passar lá pelo consultório
- É médica?
- Não, estudante.
- De Medicina?
- Direito. Mas o meu pai é médico. Ortopedista.
Engulo em seco. As tuas amigas riem ainda.
- Mas eu dou lá uma mãozinha sempre que posso. Fica ali na Avenida Alface José. Apareça por lá que talvez... – Quebra de risos das tuas amigas, para escutar melhor.
- Talvez o seu pai me atenda? – indago, em pânico.
- Ou eu lhe faça uma massagem – dizes, segura, sem pejo algum. As tuas amigas definitivamente pararam de rir, pois ainda não acreditaram no que disseste. Eu também não.

- Então e como é que posso perguntar por si?
- Chamo-me Isabel, mas pode tratar-me por...
- Por Bé.
- Ia dizer Bélita, que é como toda a gente me trata...
- Vou tratá-la por Bé. Respondes afirmativamente, com um pequeno sorriso, suprema concessão para o meu ser pequenino.

Ali, embora longe, muito longe, agarrando já no teu braço, a Luísa e a Maria puxam-te pelo cotovelo. Têm o rosto lívido, um ar de pânico, como nunca lhes conheci. Nem na primária, quando o Zé Cagão lhes queimou o vestido de princesa, que ambas tinham comprado, por alturas do Carnaval. Nem quando ele lhes roubou a tiara e a colocou sobre a cabeça do cão vagabundo que deambulava nas imediações da escola.

Dizes até amanhã. Repete-se o espanto das duas princesas. Mecanicamente, reproduzo as mesmas duas palavras.

Quando te afastas, olho ainda a máquina, procurando por algum dano na mesma, mas nem um arranhão. Da queda, apenas a referência de que uma fotografia fora disparada. A tua fotografia; hoje presa ao móvel do corredor. Ao meu lado, fica o cão, que afinal é uma cadela - solidária. Lambendo os beiços, como que sorrindo.
Conseguimos, parece querer dizer.
PF

quarta-feira, novembro 17, 2004

Pequena Crónica do Segundo Melhor Guarda-Redes do Mundo

A tarde está impecável, amena e clara, é cedo, falta muito até a noite tombar e acabar com a luz. É só um minuto, caramba! Eles chamam-me, está na hora do jogo, é só mais um bocadinho, estou mesmo a acabar este exercício de matemática, já vou. Aqueles trengos já foram para o quintal, a esta hora têm os ténis todos cobertos pela terra e, enquanto espetam os paus que foram buscar ao monte da lenha para fazer as balizas, já provaram as uvas que amadureceram mais cedo. Daqui a duas ou três semanas o avô vai-nos chamar, subimos todos para o tractor e vamos para o campo, cada um em cima de um escadote, cada um com tesoura de podar, todos a vindimar e devorar, indiferentes a avisos de diarreias malditas, cachos maduros e grandes e verdes e pequenos. Isso é para a semana ou depois, por agora esta equação de x e y, de variáveis impossíveis e de certeza, quase que aposto, que isto não tem solução, é só uma maneira da professora, que anda sempre de calças justas que me distraem em cada sessenta minutos por cada hora de aula, nos obrigar a andar às voltas em busca de soluções que não existem, como o Indiana Jones à procura de tesouros dourados, mas a mim ninguém me dá uma pistola e as minhas aventuras matemáticas são bem mais tristes e, por vezes, mais arriscadas. Oiço o meu irmão e os meus primos lá fora, todos em risos e gritos de golo que me deixam mais atrapalhado nas contas e eu a ver em cada número um jogador, o Marco, o Tó-Zé, o Tiago, o João, o Francisco, o Carlos Daniel e o Bruno, só falto eu. A tarde avisa que se vai embora e é então que percebo, hoje já não jogo com eles, com um pozinho de sorte ainda vou a tempo de ver na televisão uns gatos de poderes extraordinários, talvez os Thundercats ainda tenham pena de mim e a solução desta matemática oblíqua me surja num repente tão rápido como o sacar da espada dos gatos retro-futuristas da televisão. Ou então talvez nada aconteça e às minhas tentativas rabiscadas de alcançar o cume da sabedoria algébrica não haja resposta, talvez pelo meio da tarde o único prazer autorizado que me sobre sejam estes iogurtes de chocolate aos quais adiciono um pouco de açúcar porque assim ficam sempre mais saborosos, talvez a vida seja mais que isto ou talvez não, um iogurte com açúcar é sempre mais doce mesmo quando há problemas maiores que nós. E há os dias em que os iogurtes são adiados, o lanche cola-se ao fim do dia, depois do regresso do rio onde mergulhamos, aprendemos a nadar, quando a maré está em baixo atravessamos a pé, quando no futuro houver mais confiança atravessamos a nado. Hoje houve iogurtes, mas já não despacho a embrulhada de números rabiscados em papéis arrancados às capas de argolas, folhas amarrotadas a alimentar o caixote do lixo magro. Eles jogam lá fora. Reencontramo-nos há alguns meses. Anos mais velhos, mais cansados e sérios, quase todos respeitáveis trabalhadores, adultos. Voltamos a olhar as mesmas faces, agora enrugadas pela visão da avó no caixão imóvel ao centro do cemitério, e em cada pá de terra atirada para a cova enfeitada de flores tristes percebemos que é mais que a distância do tempo que nos afasta, nunca mais vamos jogar à bola e gritar golo, eu não vou à baliza, não vou voar mais rápido que o golo e não voltarei a ser o segundo melhor guarda-redes do mundo a seguir ao Sebastiano Rossi.
NC

quarta-feira, novembro 10, 2004

A materna violência

Dedicado ao Possidónio Cachapa

Já procurei por detrás do sofá, entre as caixas de cartão abandonadas debaixo da cama e até já bisbilhotei a cama de cobertores do cão. Nada, Mãe. Não sei onde está o cinto de couro que me ofereceste quando finalmente, terceiro ano a tentar, entrei em Direito. Obrigado, Mãe. Não sei se já te tinha agradecido, obrigado. O cinto é bonito, a fivela é percorrida por um travessão dourado, e os furos estão cirurgicamente colocados à medida da minha elegância que sempre elogiaste. Mãe, onde estás Mãe? Será que podes chegar aqui? Preciso que me ajudes a encontrar uma solução. Haverá algum cinto na casa, ainda da era do pai? Mãe, ouves-me Mãe? Chega aqui por favor, é um dia importante, vou hoje conhecer aquela que um dia viverá connosco, que me amará até ao final dos meus dias, que será a mãe dos teus netos, aqueles que beijarás com a ternura que sempre afagaste o meu rosto. A tua força, o teu sangue estagnado, será protelado nas veias da criança a criar dentro do corpo daquela que ainda não sabe, mas eu espero. A tua nora, Mãe. Aquela que tratarás como uma filha. Despacha-te Mãe, preciso de estar bem, porque demoras tanto? Deixa lá o cinto, o colete tapa-me a zona ao fundo da barriga e, em bom rigor, as calças estão no ponto exacto em que não necessito de um. Agora o que precisava era que me engraxasses os sapatos de lustro, engomasses o colarinho da camisa branca e fizesses o vinco nas calças de linho azuis escuras. Vou conhecer a mãe dos teus netos, Mãe. Tenho de estar tão bem quanto sempre estive aos teus olhos. Não queres que faça má figura pois não, Mãe? Sei que tens os botões de punho do pai para me dar. Que os guardaste para que hoje pudesse brilhar junto daquela que amo. Mãe, levanta-te dessa cama por favor, não permitas que o brilho podre que se instalou no teu rosto e se estendeu a todo o corpo tome conta dos teus movimentos. Quero que me dês a tua benção, me beijes as faces quentes, mesmo que as tuas estejam frias. Que as tuas mãos de papel enrugado me afaguem uma vez mais o rosto abandonado onde já desponta a barba. A mesma barba que o pai sempre trajou com elegância e eu herdei – revelação que me confessaste naquele dia de sol, em que o calor fervia no vidro das janelas grandes do quarto e fazia esquecer o cheiro a éter que os médicos semeavam por entre os móveis. Acorda Mãe, vejo que ainda dormes, que o tempo parece estar a passar com mais velocidade pelo teu corpo, mas é contra esse tempo que luto: a tua futura nora espera-me, não a quero fazer esperar, Mãe. Acorda, por favor, larga essa cama e vem ajudar-me, acorda, espero-te em frente ao espelho, ainda não me penteei – os remoínhos que exibia aos quatro, ainda os conservo hoje aos vinte e cinco. Anda Mãe, apenas o meu rosto mudou e o sangue já não corre nos teus braços, pois de resto tudo permanece igual: eu continuo a ser o teu filho, o mesmo miúdo de sorriso satisfeito que beijaste nesse quarto, pouco antes de as tuas faces se humederecem e a tua boca finalmente se deixar emudecer. P ara sempre.

PF

quinta-feira, novembro 04, 2004

Invocação de uma Madrugada

Andas desligada de mim e de tudo. Há dois dias que andas desaparecida, tens o telefone desligado, quero falar contigo e não posso. Como é que sabemos que chegou o fim? Quando os beijos nos chegam quase sem sabor? Há dois dias enviei-te uma sms. Nunca foi entregue. Tentei ontem de novo. O telemóvel continua desligado. Na mensagem dizia-te só: “então, miúda?” e apenas queria uma resposta, um sinal de vida, um sorriso sob forma de abreviatura de texto no ecrã verde do telemóvel. Nada. Continuo a chamar-te miúda, como da primeira vez que te vi, de saia curta e coxas quase a ver-se, tinhas então vinte e sete anos, mas parecias ter só vinte e três. Tal como hoje. Eu tenho os meus quarenta e quatro anos que o branco dos cabelos não deixa disfarçar, por mim a idade passa, mas tu continuas terrível nos teus vinte e três anos de miúda irresistível. Às vezes improviso uns pensamentos para tentar decifrar o que andamos neste mundo a fazer, se é correcto alternar o amor entre o desejo de um corpo perfeito escondido atrás de um sorriso fugitivo e uma família que cresceu com os anos, pessoas que partilham refeições e sofrimentos. Pergunto se é errado ir a tua casa provar do teu chá e dos teus lábios. Se fazemos mal quando, longe do mundo, te sentas no meu colo, trocamos carícias e beijos. Se mereço tanta coisa doce da vida. Dir-me-ás que não. Não te mereço sequer. Dou-te às vezes dias perdidos de fins de semana ou algumas horas ao fim de dia. E pouco mais, à excepção daquela madrugada imensa, um verão enganado em Janeiro e a praia eterna connosco. No resto do tempo ficas sozinha nesse apartamento bonito, a aguardar que apareça quem te leve flores com mais regularidade, que te beije todos os dias, que se deixe ficar durante a noite toda. Eu não te posso dar tanto, mas sou feliz quando saltas para o meu colo enquanto toca um disco antigo de um pianista preto drogado, the amazing Bud Powell, maravilhoso a tocar “it could happen to you”, cada nota a é uma gota de sentimento a escorrer da testa, como o suor que invade o meu corpo quando me chamas e trazes contigo esse sorriso de menina marota e troco o copo por ti, o piano continua sozinho ao fundo e nós somos um pouco mais que humanos, o inverno deixa de ser frio, somos anjos húmidos na noite quente. Mas agora talvez seja tarde para mim, tu és bela e tens a vida toda para ti. Talvez já não me respondas mais. Vou enviar pelo correio o disco de que gostas tanto.
NC