O último verão das nossas vidas
Eu ja não se sei o que é sentir o teu amor
Não sei o que é sentir (...)
É o amor
Que chega ao fim
Um final assim
É mais fácil entender
The Gift, Fácil de entender
Não sei o que é sentir (...)
É o amor
Que chega ao fim
Um final assim
É mais fácil entender
The Gift, Fácil de entender
Era agosto, quase meados. Eu e tu: eu tão normalmente sedado com a vida, perdi a calma naquele dia e acabámos por morrer os dois. Ia conduzindo pela estrada sinuosa e tu estavas ao meu lado. Tão calada como os anjos. Por baixo dos óculos escuros, choravas. E volta e meia sustias uma lágrima com os dedos contra os olhos. Eu conduzia o carro, já disse: terceira, quarta, terceira de novo porque a estrada é perigosa – não dá para passar dos sessenta. Olhava-te de soslaio como não querendo ser reparado e volta e meia fazia que olhava uma qualquer oliveira. Era o alentejo triste e quente que me abafava a garganta. Lembro-me que uma música triste inundava as colunas do rádio. Recordo-me que nenhum de nós foi capaz de a cantar, apesar de a sabermos do princípio ao fim. Ficámos com as palavras junto aos lábios para sempre. Não me recordo se tiveste tempo de me olhar uma última vez antes de tudo se dar. Tudo foi demasiado rápido, apesar do carro avançar tão devagar, atento às constantes curvas e contracurvas – as bermas largas e fundas, toda a poeira a sujar o alcatrão listado de branco. Parecia que ainda ali tinha ligado o carro e tu já estavas a chorar, com os dedos contra as vistas, logo depois de eu ter dito
acredita que eu quero acreditar mas
nada bate certo.
Já não sei se as palavras foram exactamente estas ou se as disse como um poema, separando a conjunção do resto da frase. Mas sei que ainda me tentaste tocar ao de leve sobre a perna e eu afastei-te. Sabe agora que me doeu, e muito, rejeitar-te. Continuámos com o alentejo pela frente com a rejeição a doer-me na pele e chegámos enfim à estrada sinuosa. A velocidade, que até aí fora a forma de eu esquecer tudo, atingira pois o ponto culminante um pouco antes de chegarmos à estrada com curvas que contornavam os montes secos. Lembro-me de, por essa altura, antes de tudo acabar, pensar
Sabe Deus tudo o que eu te quero dizer.
Pouco tempo depois, com agosto quase meados, um pouco depois de uma qualquer oliveira, sem querer saber como, morremos. Os dois. O tempo passava lento lá fora e as nossas mãos estavam separadas para sempre. Seguimos o nosso caminho na estrada sinuosa, mas apenas já só existiam corpos dentro de chapa negra do velho carro. Seguimos seguimos seguimos. E tudo o que sei é que não é como se os nossos corações tivessem parado de bater. Simplesmente eles já não batiam por amor ao outro e isso, sem que eu saiba explicar como, acabou por inevitavelmente nos matar.
A frase “Sabe Deus tudo o que te quero dizer” pertence aos THE GIFT, música da epígrafe.
pf

