quarta-feira, março 30, 2005

O nosso amor ou a explicação da inevitável confissão: a duas vozes

Um dia a seguir ao outro. Esperámos que tudo tivesse um fim, mas ele nunca chegou. É o amor, dizias-me. E isso quer dizer o quê, perguntei. Quer dizer que não há escolha, já pouco temos a decidir: as hipóteses vão-se fechando sobre nós à medida que as rugas se apoderam das mãos e do rosto à mercê do qual disse que não podias mais. Eu não tenho rugas na cara, vês alguma ruga na minha cara? Não à distância em que estou, claro. Então aproxima-te um pouco mais, quero sentir de novo o teu cheiro a sabonete barato misturado com o suor das mãos que não consegues disfarçar – são uns olhos, apenas uns olhos, uns simples e banais olhos azuis. Banais e azuis, mas onde me perdi. Não sejas pateta, não se consegue dizer olhos azuis, sem que alguém acrescente onde um dia me perdi: são olhos, não são o mapa da linha do metro de Londres. Não há nada nos meus olhos, são azuis como. Como o mar, o céu, que. É infinito, já sei. Ou outra coisa qualquer, só sei que são os teus olhos, que queria tê-los para mim só para. O que tu querias era, prousteniamente falando, ver o que eu vejo da forma que eu o faço, mas isso nada tem a ver com a cor dos meus olhos ou as infindáveis possibilidades metafóricas de serem uns banais olhos azuis. Entretanto, e com isto tudo, já me perdi: de que falávamos mesmo? Como de que falávamos? Falavámos do único assunto que dominamos – falávamos de amor, do nosso amor, o tal que, paciente à nossa espera, aguarda a melhor das oportunidades para enfim ser de novo, em toda a certeza uno e indivisível até ao ultimo dos nossos dias, pois claro. Às vezes falas de uma maneira que não percebo, encriptas o que dizes em metáforas desnecessárias e eu. Foste tu que falaste do infinito dos olhos. Não me interrompas, amor – sabes que não gosto de dizer a mesma coisa duas vezes. Não me lembro de teres dito alguma coisa mais que uma vez. Não te lembras talvez porque te preocupas mais em interromper que ouvir. Querido, agora sou em que já não sei de que falávamos. Do nosso amor, como tu própria disseste. Do amor e da incapacidade para compreender as tuas palavras - e as palavras apenas surgem enquanto consequência do pensamento desordenado em que se tornou a tua forma. De ser e estar, já sei. Interrompeste-me de novo. Tens razão, desculpa. Não tens que pedir desculpa, estamos só a falar. A bater bolas. Quê? Desta feita não disseste bater bolas, utilizaste a expressão tantas vezes no primeiro mês que nos conhecemos que já não a conseguia ouvir. Falavas de bater bolas com os colegas, com o chefe, com o homem do quiosque. Bater bolas bater bolas bater bolas bater bolas bater bolas. Pára, não repitas isso dessa forma, tiras o significado à expressão. Não digo, mas onde íamos no nosso amor? O nosso amor assumiu um estaticismo até aqui inexplicavelmente implacável para com tudo o que era a nossa vida – como se nada mais fizesse sentido se somado às nossas vidas, não estivesse a canção das nossas vezes em uníssono quase em sentido perdido. Tens razão, mas se foi sempre assim porque nunca disseste isso mesmo? Porque só o materializas agora, e fá-lo quase como metáfora, regra geral aplicável a todos e apenas destinado a nós porque também fazemos parte da classe amantes. Amantes? Sim amantes, é piroso bem sei, mas continua a ser a melhor forma que conheço para designar as gentes que se amam. De que te ris? Acho graça só isso. O que é que tem tanta graça? Tem graça que possivelmente estaremos mesmo apaixonados. E porquê essa certeza agora, que dor te deu na cabeça para vomitares tamanha dúvida? Porque por muito que andes, e por onde quer que andemos acabamos sempre a falar do mesmo local, como se o comboio parasse sempre nessa estaçao. Pode saber-se de que local se trata, que linhas são estas que nos conduzem sempre ao mesmo lugar? Claro que podes, mas não te parece óbvio? Trata-se da estação de sempre onde atracámos as vezes que não contámos, natural e inevitavelmente: trata-se do nosso amor.

pf

quarta-feira, março 23, 2005

A noite estranha do mundo

Chovia e era invulgar. As ruas vazias. Ficávamos alheados da meteorologia em casa, enroscados no sofá, a mirar pela janela auroras boreais imaginárias e a comer ananás enlatado com a data de validade quase no fim. Algumas frases faziam sentido, folheávamos livros escolhidos ao acaso e fazíamos as nossas bocas sorrir. Havia um mapa de Nova Iorque na parede e fazíamos planos da viagem a Londres. Sabes tudo o que não dissemos dessa vez? O silêncio, tem dias, consegue ser mais pesado que toda a força que possamos querer ter. Dessa vez deixámo-nos ficar, imóveis e mudos, lá fora uma discussão animava a calçada triste e cá dentro éramos estátuas de gente sem nada, estátuas inundadas de melancolia. No frigorífico havia bacon que partíamos em bocados, cubinhos cuidadosamente desenhados, e misturávamos nos ovos mexidos onde punhas sempre pimenta a mais. O vazio de palavras era enganado pela música da sala, um disco perdido do ano de 1995 tocava as nossas músicas adolescentes dos Smashing Pumpkins, mas nem a música podia disfarçar o incómodo que teimávamos ser. Hoje é o dia, mesmo sem sol, não está frio, há vento moderado e tento só abstrair-me de tudo para que a dor não grite mais alto. As paredes do hospital são tão cruéis que quero fugir para muito longe, para o jardim verde lá fora, quero voar da janela para o infinito longe e esquecer que a vida é isto, a verdade é demasiado grave. Escondo-me nas memórias boas de um tempo que não volta, escondo-me no tempo em que correr e sorrir e brincar com carros de bombeiros era normal e sabia bem, há algo que me afasta do horizonte mas nunca é demasiado tarde para tentar. São cinco da tarde e o mundo parou, o avô não me reconhece quando lhe agarro a mão, não me pergunta como vai o trabalho e não me diz para cortar a barba, eu não lhe digo nada, não se pode dizer nada. Sobramos nós, as rodelas de ananás triste, os cubinhos de bacon pequenos, as músicas dos Pumpkins, and we don't know just where our bones will rest, mas dessa vez estavas longe e só me pude reconfortar quando, depois do prometido chá de menta, voltaste para que contasse segredos ao teu umbigo.
NC

quarta-feira, março 16, 2005

Margarida dos caracóis loiros

Dedicado à Margarida


Há um medo teu que foge de mim como as palavras que não tenho mas que um dia te dirigi. Não a ti, enquanto pessoa, ou mulher, ou individuo integrante de qualquer congregação. Falo de ti e do nosso amor, que ficou ao deus dará naquela praia antiga. O teu sorriso agonia ainda à beira mar, por baixo dos guarda sóis. Passei por lá ontem e ele gesticulou-se, agitou-se desembaraçado na minha direcção. Eu discuto com o empregado mas recordo que tu mostras-te ao mundo, por baixo do biquini pequenino. És a Margarida. A Margarida dos caracóis loiros como os girassóis. Há um homem de modos grosseiros que se instalou de frente para nós e vejo que as suas mãos estão imundas com o sémen que a vergonha lhe expulsa da intimidade. Tu sorris e eu discuto com o empregado. A mulher do homem chama-lhe de meu cabrão e a ti lança a plenos pulmões um puta estridente que ecoa por entre as mesas de plástico sujas. O empregado insiste que lhe pedi água com gás. Nas faces da mulher, borbulha a raiva de uma humilhação barata. Tu sorris com o meu medo a conduzir-me em espasmos.


Da última vez que dançaste ao som das palavras que tocavam ao longe no bar junto à praia


palavras lentas, muito lentas acompanhadas ao piano afogado nos lábios do Jorge Palma


disseste-me ao ouvido que aquela era a última vez que eu te veria. Não é mentira que regressaste a casa naquele dia comigo. Que no dia seguinte, me acompanhaste ao pequeno almoço e que a seguir àquele dia, mantiveste-te ao meu lado por mais não sei quantos meses. Não é mentira que a extensão do teu corpo esteve sempre presente, mas por alguma mágoa que não controlei a tua voz já não era a mesma e já nem o teu corpo dançava ao sabor do quarto copo de martini. Estavas ali, a pele a tocar a minha, os teus dedos entrelaçados nas pregas da minha mão, mas o teu olhar nunca mais cegou o meu: há muito que partiras na névoa daquele dia na praia, quando de biquini a mulher do homem te chamava puta e tu sorrias por detrás dos óculos de sol. Eu discutia com o empregado e a mulher levantou-se da mesa dela para se aproximar de ti. A mulher gritou junto de ti que eras uma puta, já tantas vezes que a palavra entretanto perdera o significado, mas tu: hirta e segura, não lançaste qualquer espasmo. Ao fim da minha discussão com o empregado em que resgatara finalmente a água simples que pedira, a mulher deu-me um encontrão e o liquido jorrou por cima dos calções de verão. O homem deixava duas notas em cima da mesa e correu atrás da mulher que pegava já no carro e iniciava a marcha.


Seria de esperar que tivesses reacção e que me quisesses dar uma desculpa. Mas esperar de ti o reconhecimento de um erro seria como esperar que algum dia, naquela praia, não mais houvesse nunca o teu sorriso – que este não persistisse para além daqueles dias e da minha memória; seria o mesmo que pensar que todo o mundo não tinha sentido em todo o seu desalinhamento cósmico. Esperava palavras tuas, mas só recebia sorrisos envergonhados, embebidos em álcool. Ao terceiro dia após o episódio da praia, encontrei-te na casa de banho do bar. Tinhas o mesmo biquini pequenino e lançavas pequenos sorrisos que se perdiam nos olhos, agora esgazeados. Entraras na zona masculina e o homem da esplanada de modos grosseiros estava junto a ti. Colocava-te as mãos na intimidade e dizia minha pombinha. Eu entrei e tu olhaste-me outra vez, enquanto nos teus olhos li que já no outro dia te despediras de mim. Os teus olhos ofereciam-me um aceno que quis evitar. As minhas mãos tremiam e ofereciam-me de palmas abertas a inevitável solução. Tu acenaste com a cabeça que não e eu obedeci. Estava claro para mim que, resignado, restava-me acompanhar a corrupção da carne pelos dias fora. Acordar contigo na mesma cama e dizer bom dia, enquanto descias ao corpo de mim e me saboreavas na tua boca. Isto porque os sorrisos e a tua vida, o simples fluxo do sangue a correr por entre as tuas veias, esses, já estavam reservados a um mundo que não o meu.

pf

quarta-feira, março 09, 2005

Debaixo da mesa, duas pernas que se cruzam (sem lá estarem)

Sabes aquelas embalagens antigas de fermento Royal? Fermento em pó, Royal Baking Powder. Mergulhamos no rótulo que repete a imagem da embalagem numa infinidade de imagens cada vez mais pequenas. Como se olhares para os olhos de alguém, como se mergulhares nos olhos de uma pessoa com alma. Não sabem as tristezas que me deixaram, aqueles olhos verdes que eu nunca beijarei. A noite é fria como já não é moda e há só uma imagem a passar à minha frente, uma imagem mil vezes repetida, uma imagem que se intromete à frente da televisão e não me deixa estar com atenção ao filme a preto e branco, uma imagem projectada do nada, uma imagem quieta e cada vez um pouco mais difusa, o rosto fixo, a calma, as palavras. Rescrevi os passos e os caminhos das colinas, rescrevi as mãos que se afagam na incerteza da noite. Rescrevi a posição das coisas em casa - desarrumei-me, para não te encontrar. Rescrevo ainda a posição dos astros, para que não te possa encontrar debaixo do mesmo céu, sobre esse efeito fantasma que é não saber se as coisas realmente existem para lá de nós. Rescrevo-te diariamente para disfarçar a imobilidade da tua não presença nos espaços. Delineio continuamente novos gestos e olhares. Mas é na intermitência da luz, no instante que separa os frames projectados uns em cima dos outros; é no fragmento de respirar em que pestanejo, que identifico a tua marca nos copos de algum bar, ou num certo sussurro de vento que a rua me possa trazer. É na imensa sugestão das imagens que te revejo, num movimento banal, resumido num instante de segundo por uma qualquer actriz cujo nome desconheço. Trago comigo esta imagem desfocada de uma memória impossível de beber, afasto-me das ideias e vou à rua provar o sabor da noite em Alfama para descansar por fim numa chávena pequena de café quente. Mas a noite é enorme e sei que esse fantasma me vai perseguir, ainda que eu não passe de espírito ténue e imbecil anestesiado pela sombra de uma mulher a quem chamam Ingrid Bergman numa noite de nevoeiro.
NC

terça-feira, março 01, 2005

O pânico de eu existir

Em memória de Vergílio Ferreira (1916-01.03.1996)

Semeio palavras e crescem frases como árvores, pés de feijão que quase chegam ao céu. Estamos os dois sentados frente a frente no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós – ridículo brinquedo que a medo manejamos, como uma partida de carnaval que nos surgiu para doravante lidarmos. Sinto a vida numa palavra tua, a eternidade em cada sorriso que me lanças. Eu respondo, lançando outras palavras que atracam em teu rosto. Um esgar que é um sorriso, um silêncio que digiro no pânico de um dia te perder. Chegaste há pouco da escola e, surpresa das surpresas, eu já te esperava. Quando chegaste, já tinha lavado a loiça do pequeno almoço

(Saio sempre a correr, nem tempo tenho de lavar os dentes)

e até me ensaiei a fazer o jantar, mas tostas mistas não são o teu prato favorito e por isso limitei-me a arredar dos sofás as revistas amontoadas e a varrer o chão com a velha vassoura que trouxeste ainda da primeira casa. Chegas visivelmente cansada, com a tua maleta de médica que alberga os livros e os cadernos e o estojo e os testes – são aqueles os estetoscópios que utilizas para avaliar o sucesso dos alunos. Os mesmos alunos que roubam o tempo que é meu. Abandonaste a casa de banho com uma toalha pelos seios, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas e dizes que não posso abrir a água quente quando estás no banho. São banalidades como esta que me fazem sentir tão próximo de ti. É aquele o início do fim da minha vida. Ao teu lado, penso. Ao meu lado, tu, de toalha pelos seios, os cabelos escorridos e bonitos a beijarem-te as costas molhadas; tu pedindo-me que te penteie, que desta vez não invente, que me limite a passar com a escova de norte a sul; que não comece com ideias a querer fazer esculturas com os teus cabelos – mais logo vamos sair e não queres aparecer com o cabelo em alta tensão.

Agora estamos sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós: dali a um instante vamos sair e tu vais distanciar-te de mim. Num acidente que não prevemos, encontramos o teu irmão à entrada do cinema e tu tens pânico de dizeres quem eu sou, que significo eu
pois tudo aquilo é novo: desde o tempo em que todos te viam já casada e mãe de filhos de um tal de Lourenço, menino bem e rico do Porto, que ninguém te conhece qualquer namorado, muitos amigos sim, alguns amigos de amigos, mas nenhum namorado – isso nunca. Por isso, quando o teu irmão estende a mão na minha direcção e se apresenta, a tua pele assume um tom escarlate. Eu não me apercebo do que se passa ali, o teu irmão tão pouco. Por entre um silêncio incómodo e um olá tudo bem, dito no pânico de fugir dali, tu apressas-me para dentro da sala.

Ainda nem começaram as apresentações, arrisco. Que não te estás a sentir bem, que te queres sentar – contrapões. O teu irmão a não compreender nada, eu muito menos – apenas esse teu estúpido pânico a assomar-se da tua cabeça preconceituosa

(às vezes és tão pateta)

e a impedir-me de poder ser gente, cidadão educado e com modos. O teu irmão ainda me convida a um café, ainda te tenta convencer que temos tempo. Sabes que temos, mas tu, na fobia de ele sequer saber o meu segundo nome, queres afastar-me dali. Sabes que ele vai perguntar quem sou eu, a idade, que faço, porque estou contigo. Mas tudo isso se apresenta como mistérios que não queres desvendar. Quando já estamos dentro do cinema, o quadro ainda a negro e a música de elevador a entoar, perguntei-te o porquê de tanta pressa,

(somos as únicas pessoas na sala do cinema)

que ainda tinhamos tempo e que poderíamos perfeitamente ir beber o café a que o teu irmão nos desafiou. Tu, visivelmente incomodada, mas sem que querer demonstrá-lo, optas por evadir-te à resposta e naquele momento, primeira vez que estamos frente a frente desde a altura em que estávamos os dois sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tinhas móveis que sustentassem o vazio da casa, sorris e iludes-me com a doce, quanto enganadora, resposta de que

não me queres partilhar com mais ninguém.

pf