terça-feira, maio 31, 2005

Jantar!

O blog Poetry Lands convida os seus leitores para um jantar no dia 11 de Junho, sábado, na Taverna "O Caldeiro"! A Alquimia Submersa também marcará presença, assim como os nossos leitores... Será uma noite de tertúlia e boa disposição. É favor confirmar a presença.



Rua Amoreiras-Rato 47 Lisboa
1250-022 LISBOA

Preço médio por pessoa 14€

quarta-feira, maio 18, 2005

Agustina

O corpo de Agustina desfaleceu ao fim de mais anos do que aqueles que conseguiria contar. O corpo apresentava manchas negras em toda a região lombar e o lenho aberto ainda em sangue sobre o pescoço não deixava dúvidas que fora uma morte violenta. Foi aliás isso mesmo que o detective Júlio escreveu no velho caderno Moleskine. Júlio entrara para a polícia, departamento de homicídios, há dez anos e era neste caderno preto, cruzado pelo elástico de cor igual, composto por folhas lisas ocarinas, que apontava com delicadeza os nomes das vítimas e a causa do ocorrência, acompanhado de poucas notas periciais que julgava puderem ser úteis no decurso da investigação.

Júlio gostava de ver a tinta azul da caneta permanente escorregar sobre as folhas, tal qual o sangue que escorria das fendas abertas das vítimas com que quase diariamente se deparava. Observava com paciência de relojoeiro a tinta comprada nas papelarias mais caras a secar e demorava-se a ver as letras decalcadas no papel com trejeitos de filho pequeno, acabado de conceber. O caderno fora-lhe oferecido nos primeiros anos da escola de polícia pela própria Agustina que lhe chamava de meu menino, e a este caderno designou Júlio a tarefa de ser o mostruário e arquivo de tudo quanto de monstruoso lhe passasse pela frente durante os seus dias de polícia. O caderno encontrava-se já na folha noventa e seis e não haveria de tardar muito para que tivesse de procurar outro.

Agustina era sua conhecida de há muitos anos. Aliás, Agustina era conhecida por quase toda a gente que se conhecia. Mulher de sorriso fácil e apetites ainda mais vorazes terminou fazendo dos seus dias sucessivas entregas a homens que não conhecia. O pai de Agustina, sub secretário do Antigo Regime suicidara-se dias antes da revolução se dar, muitos anos depois de abandonar qualquer pasta governativa, e desde ai Agustina não conheceu mais a sensação de ter um mesmo sítio onde ficar ou uma mesma mesa onde comer. Afaste-se contudo qualquer comiseração ou lamento pelo seu estilo de vida. O estilo de que levava mais que um revés da vida, fora uma opção que tomara em consciência quando já apagara pelo menos umas vinte velas no dia de aniversário.

A primeira vez que Agustina se cruzou com Júlio este não passava de um menino bem, que aproveitava a condição privilegiada dos pais para fazer da vida um jogo. Agustina, essa, era já uma mulher vivida, e bem vivida, pelo que não se importou de desflorar aquele menino de mãos tão delicadas quanto as crianças que aos sábados subiam a escadaria principal da vila para depositar o corpo em súplica nos bancos da igreja. Achava-lhe graça, aquele jeito fácil que ele tinha de sorrir por dá lá aquele beijo ou aquele abraço. Júlio por seu lado nunca consentiu bem aquela forma que Agustina tinha de se entregar a todos os homens e por outro lado duvidar da sua experiência de homem, ainda que à altura em que Agustina pela primeira vez conheceu e palmilhou o seu corpo este não passasse de um adolescente com o acne a destruir-lhe o rosto fino de menina.

Ontem, mais ou menos por esta hora, Júlio procurou de novo Agustina. Levou consigo o caderno que Agustina lhe tinha oferecido e a intenção de como das outras vezes, metê-la num qualquer beco da cidade e lhe arrancar o vestido negro aos puxões. Rebentar as ripas que constituíam a roupa interior e entrar dentro dela com força. Libertos sob a intimidade de um beco deserto, Agustina bateu com os dentes na tijoleira do prédio e gritou ai, enquanto Júlio respondeu que se calasse, puxando de uma adaga que mergulhou sobre o pescoço da sua vítima. Ao terminar, puxou as calças para cima e segurando com delicadeza a caneta de tinta permanente escreveu morte violenta na última folha do caderno.


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quarta-feira, maio 11, 2005

A noite é proibida


[Ilustração de Felisbela Fonseca]

Deitados sobre a areia da praia numa madrugada, se bem que em certas alturas os dias não têm princípio nem fim nem nada, deitados sobre a areia da praia numa madrugada de Setembro, essa barriguinha dourada será o meu travesseiro. E eu fico assim quando abres esse sorriso de disneylândia. Chamas-te Sara, como a minha prima que já se casou e por quem tive uma paixão arrebatadora aos onze anos, numa semana de férias em que passou em minha casa, um daqueles amores que num dia nos fulmina e no dia seguinte não temos tempo porque temos de jogar à bola. Esse colo é o abrigo onde levas contigo os meus olhos de cão triste. Depois das bicicletas pulamos o muro impossível e corremos sem parar pelo meio dos eucaliptos em fintas invisíveis e slaloms imprevistos e a terra forrada a mato é o destino fatal quando o anjo do equilíbrio nos falhar. Enche os bolsos dos calções de nozes, traz o mapa do tesouro, não te esqueças nunca das nozes. Lá fora os caracóis insistem na vida, fogem da sombra e quando o sol mais matreiro os apanha arrebitam sem vergonha os cornos para nós. Arrastam-se lentamente pelas folhas verdes, sem horários nem obrigação de voltar para casa antes das quatro e meia para o lanche de marmelada. Lembras-te o que te disseram naquele dia magnífico de Fevereiro? E a humidade toda que as coxas entrelaçadas prometem? Traz-me à luz, tu que conheces a magia universal, contigo engravidei sonhos. Para sempre, para sempre num grito abafado. Da caixa de correio da Dona Arminda saiu uma lagartixa e um susto que a levou ao hospital, a senhora é fraca de coração mas juro que não fui eu e se tiver tempo antes dos desenhos animados prometo que rezo três avé-marias para a senhora voltar para as suas couves verdes onde mora uma família grande de caracóis envergonhados. Se me fosse permitido sonhar voava pela vida toda, escolhia nuvens fofas, descansava nas palmeiras e só descia para nadar. Fazem-me confusão os letreiros nos cafés e tascas de ruas mal frequentadas que, orgulhosos, anunciam no cheiro a fritos que “Há caracóis e pipis”, se ficassem pelos tremoços e azeitonas servia na mesma para acompanhar as cervejas amarelas onde mergulham para morrer mil bolhinhas; os bichos, molengões, poderiam continuar a crescer ao sol. E o brilho do pescoço das mulheres é mais intenso quando o perfume se insinua, a música aproxima as mãos e a noite ousa transformar-se em madrugada. É demasiado cedo para o arrependimento e demasiado tarde para o abandono, o néon fascinante ainda nos apaixona, é tempo de uma tragédia sentimental. Corre, foge. Paras o olhar no retrato emoldurado de um cidadão bigodudo de mil novecentos e quarenta e sete e é nesse instante frágil que volto a reencontrar-me na curiosidade desse olhar. Como se fosse possível pensar a perfeição. És mais bonita do que aquela outra das paragens dos autocarros. Ao fundo do esconderijo há uma caixa de música que nos embala. E há morangos.
NC

domingo, maio 01, 2005

Raiz

Para a mulher que mais gosta de mim - a minha mãe
Tinha quatro anos e não sabia ler, mas a minha mãe, com o casaco a albergar-lhe as lágrimas, pegava em mim, sentava-me no seu colo e dizia Anda cá escrever duas letras ao pai. A minha mãe chorava, porque o meu pai estava ausente, perdido de trabalho algures no Magrebe. Era público para todos que o coração da mãe escurecia de cada vez que levávamos o meu pai ao Aeroporto, que escondia garrafas de whisky na mala de viagem. Até completar o meu sexto aniversário, o meu pai era quase um estranho que andava pela casa e não tenho dúvidas que os seus colegas saberiam mais das suas tristezas que nós. Nós eram eu, a minha mãe e os meus dois irmãos mais novos.

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O pai telefonava uma vez por semana e escrevia de duas em duas semanas duas letras. Nós não tínhamos telefone e aguardávamos a chamada do pai em casa da dona Cândida, a vizinha contígua. Por vezes, o pai atrasava-se na hora e a minha mãe enervava-se. Iamos todos para casa da D. Cândida e esta servia-nos do seu chá e dos biscoitos que pertenciam aos netos. Os netos eram netas e eram minhas amigas. A nossa casa ficava na Rua do Cais. O nome da rua devia-se ao largo empedrado que sucedia as filas de casas e dava acesso ao cais da vila. As casas tinham por baixo de cada número da porta uma gravura. Na da dona Cândida, estava apenas escrito Avó. A dona Cândida era avó legítima da Ana e da Marta e nossa avó por dedicação e amizade.
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A minha mãe aguardava a chamada do meu pai, pé ante pé, esperando que a sua voz chegasse pelo telefone. A minha mãe aguardava o telefonema como aguardava a dor das cartas que chegavam cadencialmente e eu sentia na mão que me conduzia até casa da Dona Cândida o seu coração amestrado pela dor. A mãe lia-nos a carta do meu pai em voz alta, mas eu não ouvia, pois sabia que esta replicaria tudo vezes sem conta à dona Cândida. A minha mãe vivia triste e compensava a ausência do marido com o carinho que transbordava para mim e para os meus irmãos.

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Quando o meu pai ligava, eu e os meus irmãos defendíamo-nos da tristeza com a voz franca do meu pai. O meu pai queria saber de nós; perguntava por cada uma das nossas vidas que ignorava e ria, ria muito. Fazia uma qualquer piada e apagava da nossa memória a ausência de si. Falava connosco, ria, ria muito e contava-nos uma história dos seus dias. Plantava um sorriso em cada um dos nossos rostos e desligava de seguida, não sem antes deixar mais um beijo à minha mãe. A minha mãe devolvia o beijo, multiplicava-o pelas bocas dos três filhos e no final dizia-nos que ia correr tudo bem. Se Deus quisesse.
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