quarta-feira, agosto 31, 2005

Profundo

Deitei-me sobre uma superfície plana. Teria pouco mais de dois metros de comprimento e um de lado. Era uma superfície fina, toda forjada em aço e até houve uma vez que abrigou o meu corpo retraçado. Deitei-me sobre a superfície plana e vi dois cirurgiões, uma enfermeira, a suturarem-me o rosto com uma irregularidade tão em desacordo com o rosto do Avô que os meus netos reconheciam. As máquinas há muito se tinham desligado, indicando a paragem da pulsação, mas ainda assim senti que pedalava com força na minha velha bicicleta, quando de súbito um carro me atingiu. O chapéu voou para a valeta que ladeava a estrada e a bicicleta transformou-se num oito deformado. Houve um bombeiro que me assistiu, um médico que me operou. Mas só me senti realmente bem quando os meus se aproximaram de mim e reconheceram o corpo enrugado que em tempos os abraçara. Não me lembro de estar morto, mas sei que foi quando eles se aproximaram que eu morri.

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quinta-feira, agosto 25, 2005

Rita

Rita arrancou-me o coração do peito. Simplesmente abordou-me numa rua esconça e pediu se lhe podia emprestar o coração. Explicou-me que o seu batia em compassos irregulares, por vezes tão acelerados que era difícil acompanhar com o pensamento. Em poucas palavras apelou ao transplante a frio sem anti sépticos nem anestesia e deixou bem claro que não teria como pagar-me o favor. Fez apenas uso da sua voz doce e encostando os seus lábios aos meus, deitou neles um segredo que me adormeceu.

Pelo menos é assim que recordo o momento de cada vez que passo naquela rua e me recordo que houve dias em que Rita esteve por lá.
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quarta-feira, agosto 17, 2005

O Encontro (II)

Dedicado à Rita Bastos

Não foi breve o espaço entre o dia em que Rita apanhou o comboio em Santa Apolónia e se voltou a encontrar com Manuel. Tinham-se passado quinze anos e pela frescura que apresentavam, concordaram ambos que não tinha passado tanto tempo assim. Rita vestia ainda o mesmo número e, ao fim de todo aquele tempo, Manuel continuava a usar os mesmos óculos, apesar das dioptrias terem praticamente duplicado.

Não foi preciso muito tempo para que ambos se abraçassem e começassem a repensar o tempo passado, analisando com a pressa de um café os dias que tinham passado, desde os tempos da faculdade em que Rita, tendo terminado o curso rumou a Coimbra onde uma vida pré destinada há já muito a esperava: a velha casa, o emprego, o namorado arranjado pelos pais há já tanto tempo que sempre assinou o seu nome com um sobrenome adverso ao do pai. Manuel, esse, tinha ficado por Lisboa. Pensou algumas vezes apanhar também ele o comboio e rumar a Coimbra onde a tentaria encontrar, mas as intenções nunca passaram disso mesmo. Contudo, daquela vez achou que seria diferente. Por isso, três dias após segui-la por entre as ruas de Coimbra, conseguiu elaborar uma rotina da vida de Rita, que lhe permitiu saber que ela estaria àquela hora na paragem do autocarro. Ao cruzar-se com ele, momentos antes do abraço, simplesmente disse olá e mentiu, dizendo que era mesmo uma coincidência estarem ali os dois. Quinze anos depois.
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quarta-feira, agosto 10, 2005

Pensando En Ti


[Fotografia de Nuno Catarino]

E no meio daquela tarde insonsa de verão o telemóvel despertou-me um sorriso. Era uma mensagem tua, que estavas a ouvir uma música e que te lembraste de mim. Sorri, cantarolei a música baxinho, sorri. Sorri porque te lembraste de mim, sorri por me lembrar da música do Devendra, pensando en ti: comiendo peira en Santa Maria de la Feira, que placeria. Respondi-te e o bicho rectangular que se esconde no bolso das calças apitou umas quantas vezes, tantas quantas vi o saldo a decrescer. Quando dei por mim estávamos refastelados na música, embrulhados pelo sofá e, meios distraídos, pedaços da minha pele a cobrir a tua em festinhas demoradas. O teu copo está vazio, outra vez. Quando damos por nós estamos a perder roupa, que com este calor de quarenta graus está sempre a mais. Demoro-me nas curvas bonitas dessa pele enfeitada com tatuagens. Beijamo-nos e, antes de adormecemos abraçados, dizes "gosto de ti" e eu digo "gosto muito de ti" e sabemos que é a verdade, é a verdade toda, ainda que depois regresses à banalidade de outra pele e outro vinho e outra música, sempre que voltamos sabemos que é bom e gostamos de ser assim felizes de vez em quando.
NC

quarta-feira, agosto 03, 2005

O Encontro

Tinham passado quinze anos e mais alguns dias. Alguns minutos fugiram da certeza da hora certa que tinham combinado: quinze anos antes. João prometera a Mariana que voltaria todos os anos; Mariana devolveu a promessa. Mas apenas esta voltou, ano após ano. Se este tivesse respeitado a promessa, no primeiro no perceberia que o cabelo de Mariana crescera um pouco, que no segundo começara a usar óculos, ao quinto uma superfície ablonga se desenhava sobre a barriga; ao décimo o cabelo ficara de novo curto e ao décimo quarto esta já chegava com um sorriso morto no rosto. Contudo, apenas ao décimo quinto ano, João de facto voltou. À hora marcada e mais alguns minutos. Mariana também. E bastou que esta a olhasse uma só vez para ele perceber que faltar à promessa, ano após ano, tinha sido um erro.


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