quinta-feira, outubro 20, 2005

Fim


[Fotografia de Filomena Parreira]

No fundo, um escritor é um bocado um ladrão, um gatuno de sentimentos, de emoções, de rostos, de citações. Um livro é sempre feito de pequenos roubos com a vantagem de não sermos condenados.
(Mandamento de deus)



Obrigado. Até um dia.

Nuno Catarino
Paulo Ferreira

quarta-feira, setembro 14, 2005

O último verão das nossas vidas

Eu ja não se sei o que é sentir o teu amor
Não sei o que é sentir (...)
É o amor
Que chega ao fim
Um final assim
É mais fácil entender
The Gift, Fácil de entender

Era agosto, quase meados. Eu e tu: eu tão normalmente sedado com a vida, perdi a calma naquele dia e acabámos por morrer os dois. Ia conduzindo pela estrada sinuosa e tu estavas ao meu lado. Tão calada como os anjos. Por baixo dos óculos escuros, choravas. E volta e meia sustias uma lágrima com os dedos contra os olhos. Eu conduzia o carro, já disse: terceira, quarta, terceira de novo porque a estrada é perigosa – não dá para passar dos sessenta. Olhava-te de soslaio como não querendo ser reparado e volta e meia fazia que olhava uma qualquer oliveira. Era o alentejo triste e quente que me abafava a garganta. Lembro-me que uma música triste inundava as colunas do rádio. Recordo-me que nenhum de nós foi capaz de a cantar, apesar de a sabermos do princípio ao fim. Ficámos com as palavras junto aos lábios para sempre. Não me recordo se tiveste tempo de me olhar uma última vez antes de tudo se dar. Tudo foi demasiado rápido, apesar do carro avançar tão devagar, atento às constantes curvas e contracurvas – as bermas largas e fundas, toda a poeira a sujar o alcatrão listado de branco. Parecia que ainda ali tinha ligado o carro e tu já estavas a chorar, com os dedos contra as vistas, logo depois de eu ter dito

acredita que eu quero acreditar mas
nada bate certo.

Já não sei se as palavras foram exactamente estas ou se as disse como um poema, separando a conjunção do resto da frase. Mas sei que ainda me tentaste tocar ao de leve sobre a perna e eu afastei-te. Sabe agora que me doeu, e muito, rejeitar-te. Continuámos com o alentejo pela frente com a rejeição a doer-me na pele e chegámos enfim à estrada sinuosa. A velocidade, que até aí fora a forma de eu esquecer tudo, atingira pois o ponto culminante um pouco antes de chegarmos à estrada com curvas que contornavam os montes secos. Lembro-me de, por essa altura, antes de tudo acabar, pensar

Sabe Deus tudo o que eu te quero dizer.

Pouco tempo depois, com agosto quase meados, um pouco depois de uma qualquer oliveira, sem querer saber como, morremos. Os dois. O tempo passava lento lá fora e as nossas mãos estavam separadas para sempre. Seguimos o nosso caminho na estrada sinuosa, mas apenas já só existiam corpos dentro de chapa negra do velho carro. Seguimos seguimos seguimos. E tudo o que sei é que não é como se os nossos corações tivessem parado de bater. Simplesmente eles já não batiam por amor ao outro e isso, sem que eu saiba explicar como, acabou por inevitavelmente nos matar.


A frase “Sabe Deus tudo o que te quero dizer” pertence aos THE GIFT, música da epígrafe.

pf

quarta-feira, setembro 07, 2005

So Long


[Ilustração de Felisbela Fonseca]

Era uma noite semelhante às outras, talvez mais perfumada de luz e sentia-se um sabor a esperança no ar. Naquela noite quente de Lisboa ele sentou-se na terceira fila, como tinha prometido, mas ela não estava lá. A banda começou a tocar e pelo meio da noite cresceu um ritmo irresistível, uma música insinuante que trepava pelas pernas acima e que não deixava ninguém quieto, o ritmo seduzia e nós todos deixámo-nos levar, embalados. Tu também. Estavas ao meu lado e não te conhecia de lado nenhum, mas eras de certo modo uma substituta involuntária e daquelas primeiras vezes que te olhei via alguém que não eras tu. Trocámos sorrisos simpáticos, daqueles bem-educados que ficam sempre bem, reparei que eras bonita, reparei que eras bonita e sorrias e dançavas a música, vibravas com a música, ambos dançávamos quase quietos e nesse instante secreto partilhámos uma imensidão de coisas invisíveis através daquilo que os músicos noruegueses nos davam. A música forte que vinha do palco tratou de embriagar os sentidos e para o fim já não eras outra pessoa, tinhas recebido uma personalidade própria e foi a ti que fiquei com vontade de conhecer. Consciente que momentos destes estão dependentes de conjugações astrais altamente improváveis, tentei balbuciar qualquer coisa, na tentativa de ficar com um bocadinho de ti, levar-te esse fragmento no bolso até casa. Acho que consegui esboçar um trémulo “até ao próximo concerto”, respondeste num sorriso e saíste. Segui-te um pouco ao longe, vi-te entrar num carro e num pensamento disse a mim mesmo, mas alto para que conseguisses ouvir, “até um dia destes”. Fugiste para uma qualquer avenida cinzenta do Cacém, do Barreiro ou de Vila Franca de Xira, as pessoas cruzam-se e perdem-se, o tempo é o maior cínico, pensei. E depois num dia que ameaçava ser demasiado banal, sem saber bem como, reencontrei-te. Contei-te que já nos tínhamos cruzado num concerto mas não te lembravas. Combinámos um café ao fim da tarde e outras coisas depois, jardins verdes e esplanadas vazias, e trocamos telefones, músicas, livros, filmes, beijos. Sorrio de cada vez que vejo o teu rosto celeste, revejo a tua imagem vezes sem conta, provo uma vez mais o teu aroma açucarado, e quase sinto que te estou a tocar, estás aqui, quase aqui, demasiado aqui e não quero acreditar, não posso acreditar, não acredito, não acredito que estou numa cama branca de hospital a dois minutos da morte e que nunca mais vou voltar a deitar-me no sofá com a cabeça no teu colo a ouvir o piano solitário de Keith Jarrett a colorir uma madrugada.
NC

quarta-feira, agosto 31, 2005

Profundo

Deitei-me sobre uma superfície plana. Teria pouco mais de dois metros de comprimento e um de lado. Era uma superfície fina, toda forjada em aço e até houve uma vez que abrigou o meu corpo retraçado. Deitei-me sobre a superfície plana e vi dois cirurgiões, uma enfermeira, a suturarem-me o rosto com uma irregularidade tão em desacordo com o rosto do Avô que os meus netos reconheciam. As máquinas há muito se tinham desligado, indicando a paragem da pulsação, mas ainda assim senti que pedalava com força na minha velha bicicleta, quando de súbito um carro me atingiu. O chapéu voou para a valeta que ladeava a estrada e a bicicleta transformou-se num oito deformado. Houve um bombeiro que me assistiu, um médico que me operou. Mas só me senti realmente bem quando os meus se aproximaram de mim e reconheceram o corpo enrugado que em tempos os abraçara. Não me lembro de estar morto, mas sei que foi quando eles se aproximaram que eu morri.

pf

quinta-feira, agosto 25, 2005

Rita

Rita arrancou-me o coração do peito. Simplesmente abordou-me numa rua esconça e pediu se lhe podia emprestar o coração. Explicou-me que o seu batia em compassos irregulares, por vezes tão acelerados que era difícil acompanhar com o pensamento. Em poucas palavras apelou ao transplante a frio sem anti sépticos nem anestesia e deixou bem claro que não teria como pagar-me o favor. Fez apenas uso da sua voz doce e encostando os seus lábios aos meus, deitou neles um segredo que me adormeceu.

Pelo menos é assim que recordo o momento de cada vez que passo naquela rua e me recordo que houve dias em que Rita esteve por lá.
p

quarta-feira, agosto 17, 2005

O Encontro (II)

Dedicado à Rita Bastos

Não foi breve o espaço entre o dia em que Rita apanhou o comboio em Santa Apolónia e se voltou a encontrar com Manuel. Tinham-se passado quinze anos e pela frescura que apresentavam, concordaram ambos que não tinha passado tanto tempo assim. Rita vestia ainda o mesmo número e, ao fim de todo aquele tempo, Manuel continuava a usar os mesmos óculos, apesar das dioptrias terem praticamente duplicado.

Não foi preciso muito tempo para que ambos se abraçassem e começassem a repensar o tempo passado, analisando com a pressa de um café os dias que tinham passado, desde os tempos da faculdade em que Rita, tendo terminado o curso rumou a Coimbra onde uma vida pré destinada há já muito a esperava: a velha casa, o emprego, o namorado arranjado pelos pais há já tanto tempo que sempre assinou o seu nome com um sobrenome adverso ao do pai. Manuel, esse, tinha ficado por Lisboa. Pensou algumas vezes apanhar também ele o comboio e rumar a Coimbra onde a tentaria encontrar, mas as intenções nunca passaram disso mesmo. Contudo, daquela vez achou que seria diferente. Por isso, três dias após segui-la por entre as ruas de Coimbra, conseguiu elaborar uma rotina da vida de Rita, que lhe permitiu saber que ela estaria àquela hora na paragem do autocarro. Ao cruzar-se com ele, momentos antes do abraço, simplesmente disse olá e mentiu, dizendo que era mesmo uma coincidência estarem ali os dois. Quinze anos depois.
pf

quarta-feira, agosto 10, 2005

Pensando En Ti


[Fotografia de Nuno Catarino]

E no meio daquela tarde insonsa de verão o telemóvel despertou-me um sorriso. Era uma mensagem tua, que estavas a ouvir uma música e que te lembraste de mim. Sorri, cantarolei a música baxinho, sorri. Sorri porque te lembraste de mim, sorri por me lembrar da música do Devendra, pensando en ti: comiendo peira en Santa Maria de la Feira, que placeria. Respondi-te e o bicho rectangular que se esconde no bolso das calças apitou umas quantas vezes, tantas quantas vi o saldo a decrescer. Quando dei por mim estávamos refastelados na música, embrulhados pelo sofá e, meios distraídos, pedaços da minha pele a cobrir a tua em festinhas demoradas. O teu copo está vazio, outra vez. Quando damos por nós estamos a perder roupa, que com este calor de quarenta graus está sempre a mais. Demoro-me nas curvas bonitas dessa pele enfeitada com tatuagens. Beijamo-nos e, antes de adormecemos abraçados, dizes "gosto de ti" e eu digo "gosto muito de ti" e sabemos que é a verdade, é a verdade toda, ainda que depois regresses à banalidade de outra pele e outro vinho e outra música, sempre que voltamos sabemos que é bom e gostamos de ser assim felizes de vez em quando.
NC

quarta-feira, agosto 03, 2005

O Encontro

Tinham passado quinze anos e mais alguns dias. Alguns minutos fugiram da certeza da hora certa que tinham combinado: quinze anos antes. João prometera a Mariana que voltaria todos os anos; Mariana devolveu a promessa. Mas apenas esta voltou, ano após ano. Se este tivesse respeitado a promessa, no primeiro no perceberia que o cabelo de Mariana crescera um pouco, que no segundo começara a usar óculos, ao quinto uma superfície ablonga se desenhava sobre a barriga; ao décimo o cabelo ficara de novo curto e ao décimo quarto esta já chegava com um sorriso morto no rosto. Contudo, apenas ao décimo quinto ano, João de facto voltou. À hora marcada e mais alguns minutos. Mariana também. E bastou que esta a olhasse uma só vez para ele perceber que faltar à promessa, ano após ano, tinha sido um erro.


pf

segunda-feira, julho 25, 2005

Ausência

Dedicado a Maria das Neves (1928-2005)

Os meus pais regressaram de Angola em Outubro de 1975, juntamente com mais uns milhares de portugueses, tendo pouco mais que o corpo apenso às almas e recordações que queriam esquecer mais depressa do que o percurso inverso para casa. O meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha deixado de falar e só voltaria a articular palavras mais de um par de anos depois. O meu pai e a minha mãe recomeçaram tudo de início e tiveram pouco mais ajuda que os meus avós e um ou outro vizinho ou familiar. A minha mãe, saudosa de outras paragens e com o coração triste, levava os meus irmãos para o parque infantil de Alhandra e deixava que estes brincassem nos velhos baloiços de madeira pregados ao chão. Levava renda e passava as tardes com linha branca na bolsa e duas agulhas na mão. Os meus irmãos brincavam e a minha mãe conversava com as outras mães. Nenhum dos meus tios paternos se preocupou se os meus pais precisavam de alguma coisa: na verdade muitos julgavam que o dinheiro

(que nunca recebemos)

do IARN bastaria para vivermos na opulência; que todos aqueles que viajaram na ponte aérea tinham trazido consigo um punhado de diamantes. Familiares houve que, distraídos da mudez do meu irmão mais novo, que para o caso é mais velho, preocuparam-se mais em que este se descalçasse para não sujar a alcatifa da sala, no lugar de oferecerem uma bolacha que fosse para matar a fome do pequeno de meses. Familiares houve que exigiram que se lhes limpasse a poeira que este trazia na roupa, uma vez que o meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha-se arrastado em brincadeiras infantis pelo chão do aeroporto e tinha as calças empoeiradas. Houve familiares que se preocuparam que este pudesse sujar as fronhas dos sofás que nós,

(os opulentos a queimar o dinheiro do IARN que soçobrava dos diamantes)

apenas anos muitos mais tarde pudemos comprar. Neste entretanto a minha mãe sentava-se nos bancos do parque infantil e tomava conta dos meus irmãos, parecendo ter mais vista do que aquela que os seus dois olhos poderiam cobrar. Numa tarde de calor ofegante, a minha mãe conheceu uma senhora que ainda não tinha chegado aos cinquenta anos. Morava mesmo em frente do jardim e tinha observado a minha mãe algumas vezes. De estatura média e pele muito macia, foi das poucas pessoas que nunca se importou com a roupa suja dos meus irmãos.

Ela e a minha mãe tornaram-se amigas. A minha mãe e a aquela mulher tiveram as conversas que esta nunca pode ter com as minhas tias paternas. Olhavam a minha mãe com desdém e o mais certo era que no conforto das suas casas lhe chamassem

Retornada

como quase toda a gente.

Um dia a minha mãe anunciou que estaria à espera do terceiro filho. Pouco tempo depois, a senhora de pele muito macia e cabelos brancos a haver, que era das poucas amigas que a minha mãe tinha, receosa que esta quisesse ficar apenas com os dois filhos, agarrou-a em choro e suplicou-lhe que não fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer. Que se fosse menina, seria madrinha da bebé. A menina não nasceu menina e a minha mãe nunca pensou fazer o que ela pensava que a minha mãe estava a pensar, mas quando eu nasci convidou-a à mesma para ser madrinha do pequeno, não pequena, que viria ao mundo alguns meses depois. A minha madrinha ainda contra argumentaria que o dissera apenas com medo que a minha mãe fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer, contudo, já era tarde de mais.

Dois meses depois do nascimento, seria baptizado na igreja matriz de Alhandra. Como combinado, quem celebraria o baptizado seria o meu velho tio padre, irmão da minha avó materna, que naquela altura ainda era novo, vindo do mosteiro Benedito de Singeverga. À entrada da igreja, o célebre pelas polémicas e posições extremas padre Carvalhão bloquearia a entrada do par, irmão e padre Rafael. Que na casa dele, só ele tinha unhas para tocar viola. O meu tio encolheu-se nos ombros e disse que se resolvesse a situação, que ele nada poderia fazer. Quando a situação já estava controlada, isto é, quem encabeçaria a cerimónia seria o padre residente, a minha madrinha insurgiu-se. De forma tão destemida que o Padre Carvalhão meteu o rabo entre as pernas e abriu as portas da igreja ao colega para que celebrasse o baptizado. A minha mãe sorriu depois da quase humilhação e eu não me recordo daquele velho padre voltar a ser dobrado por um popular da vila.

E passaram-se anos, alguns anos. Já a vivermos naquela que fora a nossa primeira casa, após a estadia de alguns anos com a minha avó, onde os meus pais dormiam num colchão de palha, a minha madrinha fazia-nos companhia ao final da tarde para ver televisão, o aparelho que apenas viria a comprar muitos anos depois. Lembro-me de crescer e ouvir a voz da minha madrinha misturada com o pedalar nervoso da velha máquina de costura da minha mãe. De a minha madrinha estar sentada numa das cadeiras da cozinha que dava acesso a uma pequena varanda e eu estar sentado por baixo da tábua de passar a ferro, máquina voadora expresso que comandava com perícia. Lembro-me de ouvi-la conversar, muito, com a minha mãe; de esta levar para ler e trazer revistas que trocava com a minha mãe. De estar em sua casa, sentado no chão frio da cozinha e olhar para a varanda solarenga de sua casa.

A última vez que estive com ela foi numa manhã de trabalho; atravessava a linha de comboio pela ponte e, apoiada numa bengala, estava mais ofegante que alguma vez a ouvi. Vi-a envelhecida, cansada, mas nunca pensei que estivesse saturada de viver. É verdade que se queixou da solidão que enfrentava e pedia que a minha mãe a visitasse mais amiúde. Pedia que eu próprio atravessasse as velhas portas de sua casa, onde se passou parte da minha infância. Disse-lhe que passaria por lá em breve, informei-a das últimas novidades e vi nela o orgulho que sempre demonstrou quando soube do curso terminado, do livro lançado; da certeza dos actos que dizia reconhecer no afilhado ou simplesmente da sua altura. Ficou para breve a minha visita. Mas em breve assim ficará. É verdade que já não a vou poder visitar mais. Que possivelmente não passarei mais as velhas portas de sua casa. Que ficarão na memória os seus beijos ao contacto com a pele suave e a sua voz misturada com o pedalar nervoso da máquina de costura. Dói perceber que a única coisa que lhe poderei oferecer de ora em diante é um ramo de flores.

Alhandra, 11 de Julho de 2005

pf

quinta-feira, julho 21, 2005

O trompete na noite


[Ilustração de Sofia Fonseca]

O rapaz do primeiro esquerdo dormia de manhã, acordava de tarde e vivia de noite. Chamavam-lhe assim porque era a única referência que os vizinhos tinham dele. Também tinha o cabelo esquisito, num penteado fora de moda, mas se alguém resolvesse tratá-lo por rapaz do cabelo esquisito havia sempre mais alguém com quem se pudesse confundir, por isso ficou sempre associado ao pequeno andar onde morava sozinho. O rapaz do primeiro esquerdo era único, embrulhado em mistério e segredos, e ninguém sabia o seu nome, desconfiavam mesmo que nem sequer tivesse algum documento legal. Associado àquela vida, apenas um registo numérico: a indicação do número de porta, número dez, e do andar, primeiro esquerdo. O prédio de Alfama onde o rapaz do primeiro esquerdo se refugiava era um cubículo apertado onde se amontoavam um sofá, alguns livros, meia dúzia de fotografias e muitos discos antigos. Os discos foram herdados de um avô, um velho poeta que, numa noite bêbada, teve morte trágica. O rapaz do primeiro esquerdo, fechado na sua casa, passava as horas a sentir toda a música do mundo, que para ele começava em 1938 e acabava em 1961. Naquela fabulosa colecção de discos estavam incluídos todos os negros americanos que fizeram a história da música do século vinte. O rapaz do primeiro esquerdo vivia sozinho e não conhecia ninguém. Um dia, deitado em leituras numa relva esquecida da cidade, conheceu uma rapariga. Ela tinha franja e meias às riscas, era baixinha e as roupas esquisitas escondiam a beleza que trazia. Ela não falava muito e quando perguntou as horas reparou que ele estava a ler o mesmo livro que ela trazia debaixo do braço: O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald. Ambos sentiam que aquela não era a época deles e ambos viajavam no tempo nas folhas dos livros antigos. Talvez nunca encontrassem o tempo e lugar ideais, mas as viagens valiam sempre a pena. A menina das meias às riscas prolongou o sorriso mais do que o habitual e o rapaz do primeiro esquerdo deixou-se afundar na água quente dos olhos interessados. Ela tinha de ir-se embora, ele deu-lhe um papel com uma morada: número dez, primeiro esquerdo, uma rua em Alfama. Os dias passaram, chegou o Verão, a cidade ficou vazia de gente, chegou o Inverno, as pessoas fecharam-se em casa. O rapaz do primeiro esquerdo vivia imerso nos livros que contavam histórias de amor impossíveis e tristes e desde há meses que só ouvia baladas, poucas de final feliz. Numa noite, o rapaz do primeiro esquerdo vestiu um fato preto, o único que tinha mas que estava impecavelmente limpo, e pôs o trompete a brilhar, que sabia tocar mas onde raramente mexia para não desafiar os mestres que amava. Nessa noite, triste de nuvens e sem estrelas, o rapaz do primeiro esquerdo vestiu o fato, saiu de casa com o trompete na mão e caminhou orgulhosamente sobre o largo do Rossio. A noite não estava fria, mas num instante a brisa transformou-se num arrepio que varreu as lâmpadas municipais. Em redor não passavam carros, o silêncio cobria a noite. O rapaz do primeiro esquerdo ergueu o trompete ao céu e soprou. I loves you, Porgy. I loves you Porgy, don't let him take me, don't let him handle me and drive me mad, If you can keep me I wants to stay here with you forever and I'd be glad. O rapaz do primeiro esquerdo sabia que aquele momento breve numa tarde de calor tinha sido o amor, igual àquele que tinha lido tantas vezes nos livros, daquele amor que levava à loucura, ao desespero e à morte. O rapaz do primeiro esquerdo sabia que a vida, ao contrário de alguns livros, não tem finais felizes. No fim da música subiu a colina até se esconder em casa. Era madrugada quando a campainha tocou.
NC

quarta-feira, julho 13, 2005

Lucidez

Dedicado à gentil Polegar
Eram dois amantes que se amavam loucamente mas que nunca em vez alguma tinham olhado nos olhos vazios um do outro. Tinham passado dois, três cinco ou dez anos e Jorge teria dificuldade em descrever o rosto de Mariana. Tudo na exacta proporção em que Mariana ignorava o contorno do queixo, das narinas, a brancura do esmalte dos dentes deste. Tinham-se designado amar desde o primeiro dia e isso era tudo o que precisavam. Ele dera-lhe a mão no escuro de um concerto e esta não se importou que estivesse demasiado escuro para sentir devidamente quem lhe tocava. Ele por seu lado não quis saber a que rosto pertencia a mão que, mesmo no escuro, este julgara mais delicada que as demais. Quis tocá-la, cheirá-la como se cheiram as flores e a medo conseguiu abordá-la, após trocar de cadeira por duas vezes. Abordou-a com a simples respiração e esta sem medo não se voltou para perceber quem lhe encostava os lábios ao pescoço enquanto lhe segurava a mão e a rondava de beijos. Mariana deixou-se agarrar pelas mãos inseguras de Jorge e poderá dizer-se que nunca mais alguma vez a largou. Caminhavam muito, sempre lado a lado, e juntos calcorrearam todas as calçadas de Lisboa, sem alguma vez se preocuparem com a figura que a seu lado materializava os passos na direcção da felicidade. Possivelmente descobririam aquilo que não entendiam e por isso preferiam assim permanecer. Àquela distância sentiam a respiração do outro e sempre acharam que essa era a melhor forma de se olharem. Desde o primeiro dia que tinham certezas que seriam eles próprios a fazer na sua cabeça a ideia do outro e isso não era mais importante que qualquer outra imagem que os seus olhos, se não estivessem vazios, lhes pudesse devolver. Era assim tanto que se amavam no escuro dos quartos, como escuro eram os seus olhos, se eles se tivessem dado à preocupação de perceber que cor morava em cada um dos olhos destes; era tanto assim que ambos se deixavam guiar pelo suave murmulhar dos gemidos de um e outro sem fazerem perguntas ou sem cometer o erro de tentar perceber a forma que o rosto do outro assumia. Amavam-se no escuro do quarto e muitas foram as vezes que, os corpos exaustos, mutilados a prova de risos e gargalhadas, se desconheceram no silêncio escuro das paredes vazias. Depois, deixavam-se perder e só no final,

quando já não havia mais amor dentro deles para brotar no corpo do outro

se deixavam tocar com as mãos e sussurravam enfim, como num afago e num olhar que nunca trocaram, «Para sempre». «Meu amor», respondia o outro.
pf

quinta-feira, julho 07, 2005

Modo Breve de Morrer


[Ilustração de Luísa Gonçalves]

Sente o suor que escorre de mim e diz-me boa noite, embora seja apenas tarde e este cubículo fechado tresande a maldade empresarial, acaba com o teu amor em part-time e vem ter comigo de vez, mata a ansiedade que chove em mim, pesada, deixa-me ser teu assim muitas vezes fechados em suor ou então só mais uma vez mas com o tempo todo, para que o mundo acabe bem. E molhado, como tu quando me sentes no teu ouvido a trincar esse breve momento de céu, deixa-me morrer, mas por amor de Deus, larga-me o sapato e deixa-me a camisa, que isto não são modos de receber clientes. E antes que a chuva acabe de vez lá fora vai-te embora que ele já deve estar à tua espera, e se fosse mentiroso como a primavera dizia-te que não me importava que fizesses o mesmo, só por imaginar sempre a tua pele ao dispor dos meus dentes afiados de calor. E nem que passasse mais meia hora conseguia perceber a frase que deixaste presa ao meu peito, triste, peludo e nu, pensativo pelo resto da semana até ao dia em que te vir sozinha às compras no centro comercial e te convença a levar o detergente em promoção para que acabemos mais uma vez deitados a beber os dias líquidos cheios de pressa para que a cerveja não fique morta. Como nós.

Vem. Responde-me de vez, não fujas à verdade vermelha que ainda não é tempo de cerejas. Diz-me só que afinal sabias tudo desde o princípio. Eu não me importo mesmo nada. Se a verdade é assim tão turva como poderemos nós alguma vez provar? Entra na cozinha marcada pelo óleo de fritar e olha-me, que me partes toda. Entra, mas não fiques calado como andas sempre, taciturno como sombra que sempre foste, apenas erguido quando obrigado. Fecha a janela que está frio, e chove, está frio, e chove, está frio, e chove, está frio. A televisão ligada é sinal que nunca aqui estiveste, sou só e eu sozinha perdida do mundo obrigada a ser vítima do mundo. Somos sempre vítimas quando queremos. Mas nunca me quiseste, pois não? Fecha a janela, que chove, é frio lá fora, chove. Nem a tarte de maçã que te quis oferecer e tu nem um sinal, nem uma fatia, nem só para provar, nem uma resposta. Por favor. Nem assim. Eu de joelhos, tu nada. Mostrengo de sombra que não és nada, uma tarte dada era só um modo triste de te dizer mais uma vez que me ajoelho para ti sempre que queiras e queria tanto que me quisesses, não queres saber. Já chega. Rouba-me e vai-te embora.
NC

quarta-feira, junho 29, 2005

Pinceladas sobre a vida de Sílvia – um estudo pouco exaustivo

Tragaste a noite ao mesmo ritmo que ias deitando abaixo a garrafa de rum que agora serve de cinzeiro. A roupa está disposta pelo quarto ao abandono do teu corpo e do de Silvia. Esta dorme a teu lado e a certa altura da noite pensas que a respiração desta te faz lembrar suaves murmúrios de anjos

(melhor: colas na tua mente o pulsar ritmado que sai pelas suas narinas à tua ideia de anjos repousando sobre uma nuvem, qual nenufar, no céu)

mas logo concluis que isso é efeito do alcool que bebes à quase mesma velocidade que queimas os cigarros contra os pulmões. Silvia tem o cabelo escorrido e o rosto está disposto sobre a brancura da almofada. Os seios cheios, fartos mesmo, escondem-se na camisola que não alberga o tamanho dos mesmos e não há palavras, por mais poéticas que sejam, que encobram os pensamentos que por momentos te ocorrem.

Acordaste agora e meditas sobre o inevitável breve final do mundo. Imaginas já o estrondo que ecoará na tua cabeça e fumas. Fumas muito e sempre. Fumas no carro, fumas quando chegas a casa, antes da refeição, durante e depois. Fumas na casa de banho. Fumas enquanto fodes. E Silvia nunca aguentou o cheiro do fumo. Sábe-lo, mas insistes em tirar mais um cigarro do maço e em acendê-lo. Silvia dorme. Levantas-te e agarrando na garrafa de rum que agora serve de cinzeiro, acercas-te da janela. Da janela vês o mar. E quando vês os miúdos que desafiam as ondas a rebentar sobre a areia, Silvia acorda. Disse

bom dia,

caminhou na direcção da porta e entre o caminho da cama e da casa de banho ainda tem tempo de completar

acaba com a merda do fumo,

que

estás a empestar o quarto. Silvia demora-se na casa de banho; e ouves a urina projectar-se na água da sanita. Sílvia puxa o autoclismo, o papel higiénico rola por duas vezes, a torneira abre-se, a água jorra contra o azulejo, a torneira fecha-se. Silvia descoberta ao mundo atravessa a porta da casa de banho que dá acesso ao quarto e diz

Já nem fazes a barba. Mas tu fazes-te de mudo. Continuas a fumar junto à janela e Silvia diz

Veste a camisola,

pois

está muito frio, mas tu devolves a ordem com a pergunta

Quando foi que tudo aconteceu

Quê, pergunta também

Quando foi que tudo aconteceu, repetes, tudo isto

Tudo, mas tudo o quê,

isto de estarmos aqui mas não estarmos: tu seres uma chata, e eu já não aguentar nada disto, respondes seco.

Silvia diz que não sabe mas adianta que talvez tudo tenha acontecido na altura em que te deixou que lhe tocasses a intimidade com os dedos com cheiro a cerveja e decidiu

deixar aquele ex marido banana para fugir contigo só porque tinhas um tom de voz que fazia lembrar o Antonio Banderas e prometeste que havias de comprar uma ilha algures no Mediterrâneo só para os dois. Ela diz que foi isso, que foi isso que aconteceu.

pf

segunda-feira, junho 27, 2005

Da Janela Mal Fechada


[Fotografia de Sandra Fernandes]

Quando conheci a Alice na discoteca grande, escura e apinhada de gente arranjada e bem vestida não imaginei vê-la agora assim. Ela era gira. De noite era mais gira e quando a vi de dia pensei que me tivesse enganado. Quando ela punha a pintura ficava mais bonita. Mas depois apareceu o puto, o Tó, e ela deixou de se pintar, deixámos de sair de casa tantas vezes, acho que deixámos mesmo de sair de casa, arranjámos esta casa aqui às Portas de Benfica que foi uma sorte, ainda agora vamos almoçar aos domingos pelo menos uma vez por mês a casa do tio que me ajudou, é verdade que não tem grande vizinhança mas de que nos serve isso, da janela vê-se o entulho das obras, não sei onde há tantas obras para haver tanto lixo, às vezes o pó entra-nos pela janela da cozinha que temos de fechar tudo e passamos assim dias sem ar de respirar, só ar de gente, ar já gasto, se o ar é gasto não sei mas sei que não é bom, não deve ser bom para o Tó, que ainda é pequeno, mas é rijo, já vai fazer dois anos para o mês que vem, gosto mesmo dele, nunca pensei que se pudesse gostar de um puto assim, da Alice é que parece que deixei de gostar, ela passa os dias por casa e não faz nada e não se interessa e não quer fazer nada, quando lhe digo olha no feira nova estão a pedir raparigas que eu vi no jornal lá no trabalho que o Berto me emprestou, ele que quer sair da oficina mas não arranja nada, compra sempre o jornal mas nunca encontra anúncios e quando encontra nunca o chamam, e a Alice não é mais a mesma, agora já não põe aquele baton que pôs daquela vez que a vi naquele bar da Buraca, estava ela com umas amigas e eu com uns amigos mas deixámo-los e ficámos só os dois. Acho que foi mesmo dessa vez que ficámos a conhecer-nos melhor, falámos a noite toda e ficámos sentados num muro lá na Buraca a ver as estrelas, lembro-me que havia nuvens, eram poucas, e foi bonito, mas agora ela já não me olha assim, só olha pela janela como se visse no entulho um rio, um mar feito de obras, de lixo, cimentos e pedras e tijolos em montes como peixes nesse mar grande para onde ela olha, ela deve vê-lo azul como está hoje o céu e eu falo-lhe mas ela pouco responde é por isso que quando chego do trabalho como depressa o jantar que ela fez e saio, vou ao café, bebo duas cervejas, às vezes três, ou quatro, e depois se me apetecer, e ao Carlos e ao Mário também, vamos os três a uma casa que fica na Bobadela, é longe mas vale a pena, e chego a casa tarde mas quando me lembro do olhar que a Alice já não tem é que penso nesta vida que não quero que seja a minha, a nossa vida era diferente e víamos o rio da janela e os peixes, os peixes mesmo a sério, saídos da água azul do rio no instante em que dão aqueles saltos como os atletas na televisão, sorriam para Alice a responder ao sorriso dela, dá-me um beijo e até amanhã.
NC

quarta-feira, junho 08, 2005

A estrada menos percorrida do mundo

A estrada da aldeia de Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo. Era uma estrada ladeada por dois muros altos, por onde quase ninguém já passava. Quase ninguém, porque todas as quintas feiras João e Mariana iam até essa estrada e permaneciam em silêncio amando-se no frio do carro. Enroscavam o corpo um no outro e uma luz diferente acendia-se nas seus bocas, nos seus olhos e nas suas narinas.

A estrada do Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo, porque os habitantes se tinham afastado dela no dia em que do alcatrão brotou uma frondosa árvore de folhas verdes e grandes como as nuvens no céu que abrigavam a sua copa. Á árvore apresentava uma tal largura e estava cimentada com tal força ao alcatrão que todos afastaram a ideia de a arrancar ou simplesmente passar ao lado da mesma. Preferiram abrir caminho pelo meio dos montes e erigir pontes onde antes apenas corriam rios.

Desde o dia em que a árvore brotou forte, alta e estupidamente persistente do chão que João e Mariana ficaram sem se ver. No lugar dos lugares onde trocavam beijos e apertões, nascera aquela árvore tão larga que ocupava toda o espaço da estrada. Tão alta e tão espessa que impedia qualquer comunicação entre as duas partes. João chegava sempre de sul, na bicicleta; Mariana do norte, no carro onde em breve fariam amor, abrigados na berma da estrada. Mas não agora. Não agora com aquela árvore a intrometer-se nas suas vidas.

Passaram-se anos e as ervas daninhas das bermas estenderam-se até à altura de dois homens; o alcatrão foi perfurado por arbustos e cardos que pintaram de outras cores o negro do alcatrão. A árvore cresceu cada vez mais e do seu topo já era possível avistar o outro lado do mundo; a árvore crescia organicamente livre e era impossível um animal de pequeno porte que fosse passar para o outro lado do tronco. A bicicleta de João já não conseguia passar a vegetação, pelo que este fazia o caminho até à árvore a pé, tomando cuidado com os cardos. Os braços de Mariana já só com dificuldades derrubavam toda a flora que se abrira ao mundo naquele sítio.
Mas ainda assim, João e Mariana foram voltando, quinta feira após quinta feira. Um muro de ramos e folhas, ferido de mensagens de um e outro lado, separava-os todas as quintas feiras. Hoje, quinta feira em cinzas, enublados pela memória de outros dias, voltaram de novo. Tendo compassos de viver distintos, chegaram contudo à mesma hora. E ambos gravaram com força no tronco uma mensagem, que não tinham por certo que não tivessem já deixado numa outra altura qualquer. Procuro-te, desenhou a mão de João. Aposto que nunca verás isto, pensou a cabeça. E assinou, perguntando-se de seguida se alguma vez ela leria a mensagem ou se simplesmente esta ainda se lembraria do seu nome.

Mariana, do outro lado da árvore, ao mesmo tempo e mais ao menos à altura deste, escreveu algo similar e não sabe se terá chorado para cima das raízes verdes, embora seja possível que sim. Ambos ignoravam o troço que cada um deles desenhara em cada um dos lados. Antes de partirem, rumo a suas casas, onde outras vidas lhes respiravam junto do peito, voltaram a olhar a árvore. Distantes por escassos metros, estavam os dois corpos erectos separados por uma barreira que ambos miravam com atenção. Os corpos tristes, recortados no meio da vegetação e chorosos de outra vida, imaginaram-se no silêncio da estrada onde ninguém passava. E neste entretanto, antes de voltarem costas e se despedirem, voltarem às suas vidas onde outras vidas lhes respiravam junto ao peito, ainda tiveram tempo para um último pensamento em silêncio: para a semana à mesma hora?

pf

quarta-feira, junho 01, 2005

Adeus Estranho


[Fotografia de Margarida Mendes]

Como num pesadelo disfarçado de nuvem ou como naquela música dos Supertramp, nunca aparecias a tempo da sobremesa e tinhas que ir embora mais cedo que as gaivotas, deixavas no ar esse perfume de aventura e aquele último olhar que se pega e não nos quer largar por muitos anos que se possam viver. Fazias essas coisas todas, bonitas e selvagens, que é costume fazermos com as pessoas que nos fazem sorrir. E tu fazias, arrancavas sorrisos e deixavas gente apaixonada às dúzias, arrebatada e enganada, e seguias e seguias e subias e corrias. Por vezes não é a companhia ideal para nadar num rio cheio de diques principalmente quando está a chover de novo e eu a perder um amigo, outra vez, diz-me algo inédito e assombrado, diz-me algo inédito e sussurrado. Há uma porta que se abre, lentamente, a pedir pessoas para entrar, há uma janela que chama o vento, há sempre aragem a respirar pela casa toda, há esse inspirar-expirar que os sítios mortos não conseguem, há essas rodelas de limão que enfeitam os copos que começam as noites que acabam os dias. Podes dizer-me adeus de forma levezinha, assim como seja só até amanhã, até breve, até logo, até já? Mesmo que o amanhã, o breve, o logo, o já não voltem, mesmo que seja só para disfarçar as palavras e enganar os olhos, que marejados nunca ficam bem nas fotografias. As mãos fortes. Bebe mais um gole, come mais um salgadinho desses que nos dão e são de borla, como que não faz mal, e mais um gole, é mais uma imperial se faz favor. Sai da pastelaria com essa expressão incógnita de quem sabe o futuro com três semanas de avanço, compra três maços de tabaco, apaga as três últimas noites da tua memória selectiva e refugia-te numa ilha deserta do mundo a beber Jack Daniels e a ler os livros do Hemingway. Esquece os telhados solarengos do mediterrâneo pobre, os gatos, a água, o mar e o céu, que é sempre azul como nos filmes. Lá fora ainda há assobios e vidros e cânticos e vozes aos milhares em gritos profundos, como em 1994, mas sem o super João Pinto, nem o Rui Costa mágico, nem o Vítor Paneira, o melhor médio direito pré-Figo, o enorme Vítor Paneira dos cruzamentos perfeitos, sem essa espécie de heróis e ainda assim conseguimos, graças a deus e ao resto. Perdido no estádio sobrelotado de cinquenta mil almas faltavas tu, quando julgamos estar próximos da perfeição é que a sentimos fugir lá longe.
NC

terça-feira, maio 31, 2005

Jantar!

O blog Poetry Lands convida os seus leitores para um jantar no dia 11 de Junho, sábado, na Taverna "O Caldeiro"! A Alquimia Submersa também marcará presença, assim como os nossos leitores... Será uma noite de tertúlia e boa disposição. É favor confirmar a presença.



Rua Amoreiras-Rato 47 Lisboa
1250-022 LISBOA

Preço médio por pessoa 14€

quarta-feira, maio 18, 2005

Agustina

O corpo de Agustina desfaleceu ao fim de mais anos do que aqueles que conseguiria contar. O corpo apresentava manchas negras em toda a região lombar e o lenho aberto ainda em sangue sobre o pescoço não deixava dúvidas que fora uma morte violenta. Foi aliás isso mesmo que o detective Júlio escreveu no velho caderno Moleskine. Júlio entrara para a polícia, departamento de homicídios, há dez anos e era neste caderno preto, cruzado pelo elástico de cor igual, composto por folhas lisas ocarinas, que apontava com delicadeza os nomes das vítimas e a causa do ocorrência, acompanhado de poucas notas periciais que julgava puderem ser úteis no decurso da investigação.

Júlio gostava de ver a tinta azul da caneta permanente escorregar sobre as folhas, tal qual o sangue que escorria das fendas abertas das vítimas com que quase diariamente se deparava. Observava com paciência de relojoeiro a tinta comprada nas papelarias mais caras a secar e demorava-se a ver as letras decalcadas no papel com trejeitos de filho pequeno, acabado de conceber. O caderno fora-lhe oferecido nos primeiros anos da escola de polícia pela própria Agustina que lhe chamava de meu menino, e a este caderno designou Júlio a tarefa de ser o mostruário e arquivo de tudo quanto de monstruoso lhe passasse pela frente durante os seus dias de polícia. O caderno encontrava-se já na folha noventa e seis e não haveria de tardar muito para que tivesse de procurar outro.

Agustina era sua conhecida de há muitos anos. Aliás, Agustina era conhecida por quase toda a gente que se conhecia. Mulher de sorriso fácil e apetites ainda mais vorazes terminou fazendo dos seus dias sucessivas entregas a homens que não conhecia. O pai de Agustina, sub secretário do Antigo Regime suicidara-se dias antes da revolução se dar, muitos anos depois de abandonar qualquer pasta governativa, e desde ai Agustina não conheceu mais a sensação de ter um mesmo sítio onde ficar ou uma mesma mesa onde comer. Afaste-se contudo qualquer comiseração ou lamento pelo seu estilo de vida. O estilo de que levava mais que um revés da vida, fora uma opção que tomara em consciência quando já apagara pelo menos umas vinte velas no dia de aniversário.

A primeira vez que Agustina se cruzou com Júlio este não passava de um menino bem, que aproveitava a condição privilegiada dos pais para fazer da vida um jogo. Agustina, essa, era já uma mulher vivida, e bem vivida, pelo que não se importou de desflorar aquele menino de mãos tão delicadas quanto as crianças que aos sábados subiam a escadaria principal da vila para depositar o corpo em súplica nos bancos da igreja. Achava-lhe graça, aquele jeito fácil que ele tinha de sorrir por dá lá aquele beijo ou aquele abraço. Júlio por seu lado nunca consentiu bem aquela forma que Agustina tinha de se entregar a todos os homens e por outro lado duvidar da sua experiência de homem, ainda que à altura em que Agustina pela primeira vez conheceu e palmilhou o seu corpo este não passasse de um adolescente com o acne a destruir-lhe o rosto fino de menina.

Ontem, mais ou menos por esta hora, Júlio procurou de novo Agustina. Levou consigo o caderno que Agustina lhe tinha oferecido e a intenção de como das outras vezes, metê-la num qualquer beco da cidade e lhe arrancar o vestido negro aos puxões. Rebentar as ripas que constituíam a roupa interior e entrar dentro dela com força. Libertos sob a intimidade de um beco deserto, Agustina bateu com os dentes na tijoleira do prédio e gritou ai, enquanto Júlio respondeu que se calasse, puxando de uma adaga que mergulhou sobre o pescoço da sua vítima. Ao terminar, puxou as calças para cima e segurando com delicadeza a caneta de tinta permanente escreveu morte violenta na última folha do caderno.


pf

quarta-feira, maio 11, 2005

A noite é proibida


[Ilustração de Felisbela Fonseca]

Deitados sobre a areia da praia numa madrugada, se bem que em certas alturas os dias não têm princípio nem fim nem nada, deitados sobre a areia da praia numa madrugada de Setembro, essa barriguinha dourada será o meu travesseiro. E eu fico assim quando abres esse sorriso de disneylândia. Chamas-te Sara, como a minha prima que já se casou e por quem tive uma paixão arrebatadora aos onze anos, numa semana de férias em que passou em minha casa, um daqueles amores que num dia nos fulmina e no dia seguinte não temos tempo porque temos de jogar à bola. Esse colo é o abrigo onde levas contigo os meus olhos de cão triste. Depois das bicicletas pulamos o muro impossível e corremos sem parar pelo meio dos eucaliptos em fintas invisíveis e slaloms imprevistos e a terra forrada a mato é o destino fatal quando o anjo do equilíbrio nos falhar. Enche os bolsos dos calções de nozes, traz o mapa do tesouro, não te esqueças nunca das nozes. Lá fora os caracóis insistem na vida, fogem da sombra e quando o sol mais matreiro os apanha arrebitam sem vergonha os cornos para nós. Arrastam-se lentamente pelas folhas verdes, sem horários nem obrigação de voltar para casa antes das quatro e meia para o lanche de marmelada. Lembras-te o que te disseram naquele dia magnífico de Fevereiro? E a humidade toda que as coxas entrelaçadas prometem? Traz-me à luz, tu que conheces a magia universal, contigo engravidei sonhos. Para sempre, para sempre num grito abafado. Da caixa de correio da Dona Arminda saiu uma lagartixa e um susto que a levou ao hospital, a senhora é fraca de coração mas juro que não fui eu e se tiver tempo antes dos desenhos animados prometo que rezo três avé-marias para a senhora voltar para as suas couves verdes onde mora uma família grande de caracóis envergonhados. Se me fosse permitido sonhar voava pela vida toda, escolhia nuvens fofas, descansava nas palmeiras e só descia para nadar. Fazem-me confusão os letreiros nos cafés e tascas de ruas mal frequentadas que, orgulhosos, anunciam no cheiro a fritos que “Há caracóis e pipis”, se ficassem pelos tremoços e azeitonas servia na mesma para acompanhar as cervejas amarelas onde mergulham para morrer mil bolhinhas; os bichos, molengões, poderiam continuar a crescer ao sol. E o brilho do pescoço das mulheres é mais intenso quando o perfume se insinua, a música aproxima as mãos e a noite ousa transformar-se em madrugada. É demasiado cedo para o arrependimento e demasiado tarde para o abandono, o néon fascinante ainda nos apaixona, é tempo de uma tragédia sentimental. Corre, foge. Paras o olhar no retrato emoldurado de um cidadão bigodudo de mil novecentos e quarenta e sete e é nesse instante frágil que volto a reencontrar-me na curiosidade desse olhar. Como se fosse possível pensar a perfeição. És mais bonita do que aquela outra das paragens dos autocarros. Ao fundo do esconderijo há uma caixa de música que nos embala. E há morangos.
NC

domingo, maio 01, 2005

Raiz

Para a mulher que mais gosta de mim - a minha mãe
Tinha quatro anos e não sabia ler, mas a minha mãe, com o casaco a albergar-lhe as lágrimas, pegava em mim, sentava-me no seu colo e dizia Anda cá escrever duas letras ao pai. A minha mãe chorava, porque o meu pai estava ausente, perdido de trabalho algures no Magrebe. Era público para todos que o coração da mãe escurecia de cada vez que levávamos o meu pai ao Aeroporto, que escondia garrafas de whisky na mala de viagem. Até completar o meu sexto aniversário, o meu pai era quase um estranho que andava pela casa e não tenho dúvidas que os seus colegas saberiam mais das suas tristezas que nós. Nós eram eu, a minha mãe e os meus dois irmãos mais novos.

*

O pai telefonava uma vez por semana e escrevia de duas em duas semanas duas letras. Nós não tínhamos telefone e aguardávamos a chamada do pai em casa da dona Cândida, a vizinha contígua. Por vezes, o pai atrasava-se na hora e a minha mãe enervava-se. Iamos todos para casa da D. Cândida e esta servia-nos do seu chá e dos biscoitos que pertenciam aos netos. Os netos eram netas e eram minhas amigas. A nossa casa ficava na Rua do Cais. O nome da rua devia-se ao largo empedrado que sucedia as filas de casas e dava acesso ao cais da vila. As casas tinham por baixo de cada número da porta uma gravura. Na da dona Cândida, estava apenas escrito Avó. A dona Cândida era avó legítima da Ana e da Marta e nossa avó por dedicação e amizade.
*

A minha mãe aguardava a chamada do meu pai, pé ante pé, esperando que a sua voz chegasse pelo telefone. A minha mãe aguardava o telefonema como aguardava a dor das cartas que chegavam cadencialmente e eu sentia na mão que me conduzia até casa da Dona Cândida o seu coração amestrado pela dor. A mãe lia-nos a carta do meu pai em voz alta, mas eu não ouvia, pois sabia que esta replicaria tudo vezes sem conta à dona Cândida. A minha mãe vivia triste e compensava a ausência do marido com o carinho que transbordava para mim e para os meus irmãos.

*

Quando o meu pai ligava, eu e os meus irmãos defendíamo-nos da tristeza com a voz franca do meu pai. O meu pai queria saber de nós; perguntava por cada uma das nossas vidas que ignorava e ria, ria muito. Fazia uma qualquer piada e apagava da nossa memória a ausência de si. Falava connosco, ria, ria muito e contava-nos uma história dos seus dias. Plantava um sorriso em cada um dos nossos rostos e desligava de seguida, não sem antes deixar mais um beijo à minha mãe. A minha mãe devolvia o beijo, multiplicava-o pelas bocas dos três filhos e no final dizia-nos que ia correr tudo bem. Se Deus quisesse.
pf

quarta-feira, abril 20, 2005

Fusilli Tricolore, Baby



[Ilustração de Sara Lucas]

Começa por pôr a água ao lume, não te esqueças do sal, do alho e de um fiozinho de azeite. Polvilha também com uns pozinhos de pimenta e noz moscada. Agora lava uma maçã verde e descasca-a, corta a maçã em cubinhos pequenos, corta o queijo e o fiambre em bocadinhos pequenos iguais. Entretanto não deixes a água ferver demais, assim que esteja no ponto põe a massa a cozer. No fim da cozedura, escorre a água, mistura os bocadinhos de maçã, queijo e fiambre e junta um pacote de natas. Leva ao lume dois minutos, enquanto mexes com a colher e salpica com algumas passas. Está pronto a servir, desliga o lume. Ficas bonita com o avental enrolado nessa cintura magrinha. Mas agora despe o avental enquanto acabo de pôr a mesa. Apesar de tudo prefiro ver-te o umbigo descoberto. Enquanto ponho a toalha, abre a garrafa de tinto alentejano. Bom apetite. As palavras misturam-se pelo meio das garfadas e dos goles de vinho que engolimos. Contas as coisas todas que te fazem sorrir e partilhamos excertos de vida em sorrisos e em dois segundos já não estamos à mesa, num instante fugimos e somos gatos a passear pelos beirais das casas antigas, saltamos com uma agilidade impossível, corremos os telhados todos do bairro esquecido e só paramos no telhado da casa mais alta, onde o reflexo da lua é mais quente. Dizes coisas a brincar e foges, eu corro atrás de ti e acabamos embrulhados, seguimos assim pela noite fora. Um pouco mais à frente, cansados, repousamos abrigados numa chaminé antiga, deixas cair a patinha sobre mim e já não me arranhas. Depois de te perderes a contar as estrelas mais brilhantes (mas só as mais brilhantes, as outras ficam para outra vez), voltas o olhar para mim e sabes o que se segue. Lembras-te que é tarde e tens de ir embora, eu também, amor. Deixa, eu arrumo a louça.
NC

quarta-feira, abril 13, 2005

Paz

Despeço-me do vento e de todos os momentos que me deram a ilusão de um dia poder ser feliz aqui. Fechei a porta de entrada num gesto mecânico que sempre respeitei e parti. A porta ressoou ao longo dos meus ouvidos: não era apenas uma porta que fechava, mas uma passagem que escondia algo mais que a casa vazia. Cá fora, o dia estava triste e cinzento, a pronunciar uma chuva que nunca existiu. Passaram-se seis anos. Seis anos e nem um pingo de chuva; tanto tempo e nunca sentimos o cheiro da terra molhada que imaginámos que habitaria os nossos sentidos nos dias de inverno.


No primeiro dia que pisámos os tacos de madeira do hall, decidimos que seria a nossa casa. A primeira casa depois do TO minúsculo que partilhávamos nos tempos de faculdade: meio quarto meia sala e uma casa de banho com uma divisão intermédia que chamávamos de cozinha. A casa tinha apenas uma janela que ficava junto à sala, que era também quarto, e a partir dela costumávamos ver as folhas das árvores que cresciam em catadupa no jardim, plantado mesmo à porta de casa.


Aqui, pensámos em ter dois filhos, dois cães, preencher a garagem contígua às paredes da casa com outros tantos carros. Todo este tempo volvido, tenho as lembranças violadas e as expectativas despedaçadas; abandono a casa sozinho, com a chave do mesmo carro de quando aqui chegámos e a memória do teu sorriso a inundar-me o rosto de felicidade. Nunca tivemos um animal de estimação e os filhos desapareceram da ideia de nós. O teu cheiro desapareceu igualmente da casa e no seu lugar ficou apenas o vazio. A casa só serve para castigar os meus dias. Nunca mais saberei ao que cheiras, nunca mais saberei que foste tu a minha vida, porque a minha vida de hoje já não é a vida que subsistiu em cada dia que fizeste parte dela. No seu lugar, este buraco negro que imagino que chegue ao centro da terra, onde diabos e fadas dançam em conjunto, compondo sinfonias com as palavras que trocámos.


Parto da casa e da ideia de ti. As memórias que me presto a perder evitam-me a sensação de pensar que não vivi. Aqui ou que não vivi, simplesmente. Percorro a estrada de pó até à fonte, onde os feirantes se amontoam; vou comprar melão e pão e sei que tu sorrirás dentro de mim. Tu sorrirás e eu sorrirei aos feirantes e transeuntes que se amontoam pelos vegetais mais frescos e pelo pão mais macio. Vou comprar dois lírios frescos e vou lembrar-me de ti, esperando que apareças: longe de uma recordação fresca como os lírios que o vendedor embrulha no saco, quero que apareças ao mundo com o corpo, a profana extensão que em dias que não estes tomava por meu numa urgência que não lamentava.


Terás visto agora que o João, o médico, passou por nós. Terás tu visto, que ainda me olha com condescendência, desde o dia em que fugimos de nós, para dar lugar a esta ausência que ele não conseguiu evitar. O João é um bom homem. Gosto dele; sempre gostámos. Recordo o primeiro dia que o vi, passeando-se pela rua com uma mulher meio atarracada, que a população chamava de aleijadinha, e o rosto mirando as pedras e a areia que faziam o caminho: o João transportava consigo um sorriso doce, de eterna felicidade que invejámos. Lembro-me do João nos apresentar a senhora a quem dava o braço como sua mulher. Mais tarde, explicou-nos que esta perdera a vitalidade dos membros no exacto dia em que dera à luz o filho mais novo. E nós, enternecidos pelo amor que havia no abraço dado à mulher, sorrimos.


Escolho os dois lírios como escolhi aqueles que te ofereci faz hoje sete anos, dois anos após nos conhecermos. Disse-te que seríamos um do outro e que ninguém se intrometeria entre nós. Tu assentiste e eu acreditei. Não é que te tenha mentido, simplesmente não contava que aquele cancro nascesse dentro de ti, revolvendo-te as entranhas e reduzindo-as até às cinzas. A escolha dos lírios em boa verdade foi arbitrária: era a única flor que naquele dia ainda subsistia na florista. Pensaste que tinha sido propositado, que já adivinhava os teus gostos. Deixei que te enganasses a ti própria e escondi-me à verdade.


O vendedor insiste que me enganei no troco, que lhe dou dinheiro a mais pelos lírios. Obediente, peço desculpa e ainda agradeço. O homem sorri, um sorriso franco como demonstração de honestidade, e deseja-me um bom dia. Vejo-te ao longe a passar por mim; mas antes: muito antes – antes do cabelo escorrido que caiu como as folhas das árvores na Primavera em que partiste. Chovera durante todo o mês de abril e, em maio, as folhas das árvores no jardim caíram, como caiu também a tua vontade de continuar a viver.


Sigo agora o caminho na direcção do carro. Um cão urina na jante. E penso que coisas desse tipo costumavam arreliar-me. Hoje não. Prossigo. A estrada que percorro, o vento que corto, o horizonte ao longe por detrás das montanhas que formam o vale. São ainda trinta minutos a andar sempre em frente e não quero que te zangues comigo. Já sabes que chego sempre atrasado mas hoje não. Já não é muito o tempo e quero aproveitá-lo. Logo hoje que é o dia do nosso aniversário e sei que vais estar especialmente bonita.

pf

quinta-feira, abril 07, 2005

Margarida dos cabelos negros

A noite é uma anedota que acaba de ser contada por cima dos copos de cerveja fresca de fim de tarde. Há uma brisa fria que obriga aos casacos e, depois de estendermos o olhar uma última vez sobre a cidade e o rio, dizem-nos que é hora de voltar a casa. É muito mais fácil quando conhecemos tudo, sabemos o caminho, temos um mapa, vemos os sinais e a estrada não é mentirosa, mas a viagem tem mais sabor quando cada cruzamento é uma incógnita e o destino não vem detalhadamente pré-definido num pacote promocional de uma agência de viagens com nome exótico. Hoje vi-te. Acho que eras tu, subias a rua do Carmo, com duas amigas, subias a rua e parecias mesmo tu, bonita e doce como só tu, se bem que nem te conheço, vi-te uma vez só e ainda não sei bem se estava a sonhar, foi surreal ou algo assim, sussurraste palavras mas eu, bêbado pelo momento, fiquei apenas concentrado nos teus olhos. Por isso, quando passei por ti ao longe, tive dúvidas e tive medo e não soube o que dizer. Inventei para mim uma desculpa, ou duas, para não te ter ido falar. Dizem que a noite pode ser assim muitas coisas, pode ser um castigo ou pode ser um bálsamo, nessa incerteza nocturna eu afastei-me das luzes e corri muito pelas ruas de pedra dura, corri a noite toda às voltas pelos caminhos do castelo. Quando voltei à rua do Carmo, sozinha e fria, já lá não estavas. Tu, ou alguém que para mim eras tu. Apanhei o avião e voei para longe. Estava frio, agasalhei-me com um cobertor e tapei os ouvidos com os headphones ligados ao leitor de mp3 pequenino escondido no bolso do casaco. Olhei para o céu. “When you wish upon a star”, cantava uma menina aos meus ouvidos. Não eras tu, dessa vez ficaste por casa, fizeste silêncio ao convite que te fiz para conhecer o mundo e preferiste ficar embrulhada nos teus lençóis confortáveis a bebericar chá de menta. Eu mantive a promessa feita numa noite portuguesa de Inverno. Sabes, esteve mais frio do que pensei e o cobertor foi demasiado pequeno, mas vi a chuva de cores mais bela que alguma vez os meus olhos sonharam.
NC

quarta-feira, março 30, 2005

O nosso amor ou a explicação da inevitável confissão: a duas vozes

Um dia a seguir ao outro. Esperámos que tudo tivesse um fim, mas ele nunca chegou. É o amor, dizias-me. E isso quer dizer o quê, perguntei. Quer dizer que não há escolha, já pouco temos a decidir: as hipóteses vão-se fechando sobre nós à medida que as rugas se apoderam das mãos e do rosto à mercê do qual disse que não podias mais. Eu não tenho rugas na cara, vês alguma ruga na minha cara? Não à distância em que estou, claro. Então aproxima-te um pouco mais, quero sentir de novo o teu cheiro a sabonete barato misturado com o suor das mãos que não consegues disfarçar – são uns olhos, apenas uns olhos, uns simples e banais olhos azuis. Banais e azuis, mas onde me perdi. Não sejas pateta, não se consegue dizer olhos azuis, sem que alguém acrescente onde um dia me perdi: são olhos, não são o mapa da linha do metro de Londres. Não há nada nos meus olhos, são azuis como. Como o mar, o céu, que. É infinito, já sei. Ou outra coisa qualquer, só sei que são os teus olhos, que queria tê-los para mim só para. O que tu querias era, prousteniamente falando, ver o que eu vejo da forma que eu o faço, mas isso nada tem a ver com a cor dos meus olhos ou as infindáveis possibilidades metafóricas de serem uns banais olhos azuis. Entretanto, e com isto tudo, já me perdi: de que falávamos mesmo? Como de que falávamos? Falavámos do único assunto que dominamos – falávamos de amor, do nosso amor, o tal que, paciente à nossa espera, aguarda a melhor das oportunidades para enfim ser de novo, em toda a certeza uno e indivisível até ao ultimo dos nossos dias, pois claro. Às vezes falas de uma maneira que não percebo, encriptas o que dizes em metáforas desnecessárias e eu. Foste tu que falaste do infinito dos olhos. Não me interrompas, amor – sabes que não gosto de dizer a mesma coisa duas vezes. Não me lembro de teres dito alguma coisa mais que uma vez. Não te lembras talvez porque te preocupas mais em interromper que ouvir. Querido, agora sou em que já não sei de que falávamos. Do nosso amor, como tu própria disseste. Do amor e da incapacidade para compreender as tuas palavras - e as palavras apenas surgem enquanto consequência do pensamento desordenado em que se tornou a tua forma. De ser e estar, já sei. Interrompeste-me de novo. Tens razão, desculpa. Não tens que pedir desculpa, estamos só a falar. A bater bolas. Quê? Desta feita não disseste bater bolas, utilizaste a expressão tantas vezes no primeiro mês que nos conhecemos que já não a conseguia ouvir. Falavas de bater bolas com os colegas, com o chefe, com o homem do quiosque. Bater bolas bater bolas bater bolas bater bolas bater bolas. Pára, não repitas isso dessa forma, tiras o significado à expressão. Não digo, mas onde íamos no nosso amor? O nosso amor assumiu um estaticismo até aqui inexplicavelmente implacável para com tudo o que era a nossa vida – como se nada mais fizesse sentido se somado às nossas vidas, não estivesse a canção das nossas vezes em uníssono quase em sentido perdido. Tens razão, mas se foi sempre assim porque nunca disseste isso mesmo? Porque só o materializas agora, e fá-lo quase como metáfora, regra geral aplicável a todos e apenas destinado a nós porque também fazemos parte da classe amantes. Amantes? Sim amantes, é piroso bem sei, mas continua a ser a melhor forma que conheço para designar as gentes que se amam. De que te ris? Acho graça só isso. O que é que tem tanta graça? Tem graça que possivelmente estaremos mesmo apaixonados. E porquê essa certeza agora, que dor te deu na cabeça para vomitares tamanha dúvida? Porque por muito que andes, e por onde quer que andemos acabamos sempre a falar do mesmo local, como se o comboio parasse sempre nessa estaçao. Pode saber-se de que local se trata, que linhas são estas que nos conduzem sempre ao mesmo lugar? Claro que podes, mas não te parece óbvio? Trata-se da estação de sempre onde atracámos as vezes que não contámos, natural e inevitavelmente: trata-se do nosso amor.

pf

quarta-feira, março 23, 2005

A noite estranha do mundo

Chovia e era invulgar. As ruas vazias. Ficávamos alheados da meteorologia em casa, enroscados no sofá, a mirar pela janela auroras boreais imaginárias e a comer ananás enlatado com a data de validade quase no fim. Algumas frases faziam sentido, folheávamos livros escolhidos ao acaso e fazíamos as nossas bocas sorrir. Havia um mapa de Nova Iorque na parede e fazíamos planos da viagem a Londres. Sabes tudo o que não dissemos dessa vez? O silêncio, tem dias, consegue ser mais pesado que toda a força que possamos querer ter. Dessa vez deixámo-nos ficar, imóveis e mudos, lá fora uma discussão animava a calçada triste e cá dentro éramos estátuas de gente sem nada, estátuas inundadas de melancolia. No frigorífico havia bacon que partíamos em bocados, cubinhos cuidadosamente desenhados, e misturávamos nos ovos mexidos onde punhas sempre pimenta a mais. O vazio de palavras era enganado pela música da sala, um disco perdido do ano de 1995 tocava as nossas músicas adolescentes dos Smashing Pumpkins, mas nem a música podia disfarçar o incómodo que teimávamos ser. Hoje é o dia, mesmo sem sol, não está frio, há vento moderado e tento só abstrair-me de tudo para que a dor não grite mais alto. As paredes do hospital são tão cruéis que quero fugir para muito longe, para o jardim verde lá fora, quero voar da janela para o infinito longe e esquecer que a vida é isto, a verdade é demasiado grave. Escondo-me nas memórias boas de um tempo que não volta, escondo-me no tempo em que correr e sorrir e brincar com carros de bombeiros era normal e sabia bem, há algo que me afasta do horizonte mas nunca é demasiado tarde para tentar. São cinco da tarde e o mundo parou, o avô não me reconhece quando lhe agarro a mão, não me pergunta como vai o trabalho e não me diz para cortar a barba, eu não lhe digo nada, não se pode dizer nada. Sobramos nós, as rodelas de ananás triste, os cubinhos de bacon pequenos, as músicas dos Pumpkins, and we don't know just where our bones will rest, mas dessa vez estavas longe e só me pude reconfortar quando, depois do prometido chá de menta, voltaste para que contasse segredos ao teu umbigo.
NC

quarta-feira, março 16, 2005

Margarida dos caracóis loiros

Dedicado à Margarida


Há um medo teu que foge de mim como as palavras que não tenho mas que um dia te dirigi. Não a ti, enquanto pessoa, ou mulher, ou individuo integrante de qualquer congregação. Falo de ti e do nosso amor, que ficou ao deus dará naquela praia antiga. O teu sorriso agonia ainda à beira mar, por baixo dos guarda sóis. Passei por lá ontem e ele gesticulou-se, agitou-se desembaraçado na minha direcção. Eu discuto com o empregado mas recordo que tu mostras-te ao mundo, por baixo do biquini pequenino. És a Margarida. A Margarida dos caracóis loiros como os girassóis. Há um homem de modos grosseiros que se instalou de frente para nós e vejo que as suas mãos estão imundas com o sémen que a vergonha lhe expulsa da intimidade. Tu sorris e eu discuto com o empregado. A mulher do homem chama-lhe de meu cabrão e a ti lança a plenos pulmões um puta estridente que ecoa por entre as mesas de plástico sujas. O empregado insiste que lhe pedi água com gás. Nas faces da mulher, borbulha a raiva de uma humilhação barata. Tu sorris com o meu medo a conduzir-me em espasmos.


Da última vez que dançaste ao som das palavras que tocavam ao longe no bar junto à praia


palavras lentas, muito lentas acompanhadas ao piano afogado nos lábios do Jorge Palma


disseste-me ao ouvido que aquela era a última vez que eu te veria. Não é mentira que regressaste a casa naquele dia comigo. Que no dia seguinte, me acompanhaste ao pequeno almoço e que a seguir àquele dia, mantiveste-te ao meu lado por mais não sei quantos meses. Não é mentira que a extensão do teu corpo esteve sempre presente, mas por alguma mágoa que não controlei a tua voz já não era a mesma e já nem o teu corpo dançava ao sabor do quarto copo de martini. Estavas ali, a pele a tocar a minha, os teus dedos entrelaçados nas pregas da minha mão, mas o teu olhar nunca mais cegou o meu: há muito que partiras na névoa daquele dia na praia, quando de biquini a mulher do homem te chamava puta e tu sorrias por detrás dos óculos de sol. Eu discutia com o empregado e a mulher levantou-se da mesa dela para se aproximar de ti. A mulher gritou junto de ti que eras uma puta, já tantas vezes que a palavra entretanto perdera o significado, mas tu: hirta e segura, não lançaste qualquer espasmo. Ao fim da minha discussão com o empregado em que resgatara finalmente a água simples que pedira, a mulher deu-me um encontrão e o liquido jorrou por cima dos calções de verão. O homem deixava duas notas em cima da mesa e correu atrás da mulher que pegava já no carro e iniciava a marcha.


Seria de esperar que tivesses reacção e que me quisesses dar uma desculpa. Mas esperar de ti o reconhecimento de um erro seria como esperar que algum dia, naquela praia, não mais houvesse nunca o teu sorriso – que este não persistisse para além daqueles dias e da minha memória; seria o mesmo que pensar que todo o mundo não tinha sentido em todo o seu desalinhamento cósmico. Esperava palavras tuas, mas só recebia sorrisos envergonhados, embebidos em álcool. Ao terceiro dia após o episódio da praia, encontrei-te na casa de banho do bar. Tinhas o mesmo biquini pequenino e lançavas pequenos sorrisos que se perdiam nos olhos, agora esgazeados. Entraras na zona masculina e o homem da esplanada de modos grosseiros estava junto a ti. Colocava-te as mãos na intimidade e dizia minha pombinha. Eu entrei e tu olhaste-me outra vez, enquanto nos teus olhos li que já no outro dia te despediras de mim. Os teus olhos ofereciam-me um aceno que quis evitar. As minhas mãos tremiam e ofereciam-me de palmas abertas a inevitável solução. Tu acenaste com a cabeça que não e eu obedeci. Estava claro para mim que, resignado, restava-me acompanhar a corrupção da carne pelos dias fora. Acordar contigo na mesma cama e dizer bom dia, enquanto descias ao corpo de mim e me saboreavas na tua boca. Isto porque os sorrisos e a tua vida, o simples fluxo do sangue a correr por entre as tuas veias, esses, já estavam reservados a um mundo que não o meu.

pf

quarta-feira, março 09, 2005

Debaixo da mesa, duas pernas que se cruzam (sem lá estarem)

Sabes aquelas embalagens antigas de fermento Royal? Fermento em pó, Royal Baking Powder. Mergulhamos no rótulo que repete a imagem da embalagem numa infinidade de imagens cada vez mais pequenas. Como se olhares para os olhos de alguém, como se mergulhares nos olhos de uma pessoa com alma. Não sabem as tristezas que me deixaram, aqueles olhos verdes que eu nunca beijarei. A noite é fria como já não é moda e há só uma imagem a passar à minha frente, uma imagem mil vezes repetida, uma imagem que se intromete à frente da televisão e não me deixa estar com atenção ao filme a preto e branco, uma imagem projectada do nada, uma imagem quieta e cada vez um pouco mais difusa, o rosto fixo, a calma, as palavras. Rescrevi os passos e os caminhos das colinas, rescrevi as mãos que se afagam na incerteza da noite. Rescrevi a posição das coisas em casa - desarrumei-me, para não te encontrar. Rescrevo ainda a posição dos astros, para que não te possa encontrar debaixo do mesmo céu, sobre esse efeito fantasma que é não saber se as coisas realmente existem para lá de nós. Rescrevo-te diariamente para disfarçar a imobilidade da tua não presença nos espaços. Delineio continuamente novos gestos e olhares. Mas é na intermitência da luz, no instante que separa os frames projectados uns em cima dos outros; é no fragmento de respirar em que pestanejo, que identifico a tua marca nos copos de algum bar, ou num certo sussurro de vento que a rua me possa trazer. É na imensa sugestão das imagens que te revejo, num movimento banal, resumido num instante de segundo por uma qualquer actriz cujo nome desconheço. Trago comigo esta imagem desfocada de uma memória impossível de beber, afasto-me das ideias e vou à rua provar o sabor da noite em Alfama para descansar por fim numa chávena pequena de café quente. Mas a noite é enorme e sei que esse fantasma me vai perseguir, ainda que eu não passe de espírito ténue e imbecil anestesiado pela sombra de uma mulher a quem chamam Ingrid Bergman numa noite de nevoeiro.
NC

terça-feira, março 01, 2005

O pânico de eu existir

Em memória de Vergílio Ferreira (1916-01.03.1996)

Semeio palavras e crescem frases como árvores, pés de feijão que quase chegam ao céu. Estamos os dois sentados frente a frente no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós – ridículo brinquedo que a medo manejamos, como uma partida de carnaval que nos surgiu para doravante lidarmos. Sinto a vida numa palavra tua, a eternidade em cada sorriso que me lanças. Eu respondo, lançando outras palavras que atracam em teu rosto. Um esgar que é um sorriso, um silêncio que digiro no pânico de um dia te perder. Chegaste há pouco da escola e, surpresa das surpresas, eu já te esperava. Quando chegaste, já tinha lavado a loiça do pequeno almoço

(Saio sempre a correr, nem tempo tenho de lavar os dentes)

e até me ensaiei a fazer o jantar, mas tostas mistas não são o teu prato favorito e por isso limitei-me a arredar dos sofás as revistas amontoadas e a varrer o chão com a velha vassoura que trouxeste ainda da primeira casa. Chegas visivelmente cansada, com a tua maleta de médica que alberga os livros e os cadernos e o estojo e os testes – são aqueles os estetoscópios que utilizas para avaliar o sucesso dos alunos. Os mesmos alunos que roubam o tempo que é meu. Abandonaste a casa de banho com uma toalha pelos seios, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas e dizes que não posso abrir a água quente quando estás no banho. São banalidades como esta que me fazem sentir tão próximo de ti. É aquele o início do fim da minha vida. Ao teu lado, penso. Ao meu lado, tu, de toalha pelos seios, os cabelos escorridos e bonitos a beijarem-te as costas molhadas; tu pedindo-me que te penteie, que desta vez não invente, que me limite a passar com a escova de norte a sul; que não comece com ideias a querer fazer esculturas com os teus cabelos – mais logo vamos sair e não queres aparecer com o cabelo em alta tensão.

Agora estamos sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós: dali a um instante vamos sair e tu vais distanciar-te de mim. Num acidente que não prevemos, encontramos o teu irmão à entrada do cinema e tu tens pânico de dizeres quem eu sou, que significo eu
pois tudo aquilo é novo: desde o tempo em que todos te viam já casada e mãe de filhos de um tal de Lourenço, menino bem e rico do Porto, que ninguém te conhece qualquer namorado, muitos amigos sim, alguns amigos de amigos, mas nenhum namorado – isso nunca. Por isso, quando o teu irmão estende a mão na minha direcção e se apresenta, a tua pele assume um tom escarlate. Eu não me apercebo do que se passa ali, o teu irmão tão pouco. Por entre um silêncio incómodo e um olá tudo bem, dito no pânico de fugir dali, tu apressas-me para dentro da sala.

Ainda nem começaram as apresentações, arrisco. Que não te estás a sentir bem, que te queres sentar – contrapões. O teu irmão a não compreender nada, eu muito menos – apenas esse teu estúpido pânico a assomar-se da tua cabeça preconceituosa

(às vezes és tão pateta)

e a impedir-me de poder ser gente, cidadão educado e com modos. O teu irmão ainda me convida a um café, ainda te tenta convencer que temos tempo. Sabes que temos, mas tu, na fobia de ele sequer saber o meu segundo nome, queres afastar-me dali. Sabes que ele vai perguntar quem sou eu, a idade, que faço, porque estou contigo. Mas tudo isso se apresenta como mistérios que não queres desvendar. Quando já estamos dentro do cinema, o quadro ainda a negro e a música de elevador a entoar, perguntei-te o porquê de tanta pressa,

(somos as únicas pessoas na sala do cinema)

que ainda tinhamos tempo e que poderíamos perfeitamente ir beber o café a que o teu irmão nos desafiou. Tu, visivelmente incomodada, mas sem que querer demonstrá-lo, optas por evadir-te à resposta e naquele momento, primeira vez que estamos frente a frente desde a altura em que estávamos os dois sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tinhas móveis que sustentassem o vazio da casa, sorris e iludes-me com a doce, quanto enganadora, resposta de que

não me queres partilhar com mais ninguém.

pf

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A voz embargada em três segundos de razão

As flores desenhadas na parede antiga da casa verde da rua das Gáveas, ali como quem sobe a alucinação da noite bêbada e sorri pelo meio dos grupos de gente arranjada, bonita e perfumada, as flores perdem-se em cornucópias e morrem abandonadas com a falta de atenção dos viajantes dos rios de calçada. Os distraídos seguem encharcados de vida, apesar de não chover e fazer um pouco de frio que o cachecol de cores vivas atenua, os distraídos seguem com a obrigação de matar o tempo em volta de uma mesa antiga, de copos frios e de música fora de moda, músicas de passado inocente que à luz da actualidade poderiam ser uma máscara de vergonha, mas a nuvem do tempo faz bem em ocultar a verdade. Há-de ser, na madrugada do mundo, há-de ser fresca, há-de ser virgem e há-de ser pura. Wagner há-se ser sempre sublime, berra o skinhead de simpatia nacionalista que debita pontapés ao ritmo da música acelerada, o heavy-metal dos oitentas nunca vai ser ultrapassado, sorri um saudosista ao lado. Terna é a noite, apesar do frio e do sangue que um beco escuro esconde, terna é a noite na saliva das três adolescentes fluorescentes que espalham sorrisos promovidos a vinho tinto, terna é a noite num abraço raro entre amigos que se demoram numa emoção mal explicada, terna é a noite numa janela aberta, terna é a noite num filme de mil novecentos e sessenta e cinco realizado por Jean-Luc Godard. As faces permanecem imóveis e nuas, revelam expressividade de funcionário de guichet. Salta daí de cima, três andares é pouca coisa, salta que eu agarro-te, rapariga. Vem conhecer o mundo, Margarida, vem conhecer o mundo, eu pagos os copos. Tira só mais uma foto, um último instantâneo à nossa pequenez mundana e depois esconde as asas, a arrecadação pequena ganha finalmente sentido, esconde as asas e vem provar o prazer líquido de ser humano e banal e triste e a cores, mergulha na gravidade, cola os pés ao chão e segue-me rua acima, a correr e a sorrir e a arfar de cansada e continua, como se fosse Verão em Fevereiro. Os habitantes da terra, que se dividem entre os que procuram a perfeição sempre um pouco mais além e os que se satisfazem com um hambúrguer, os habitantes da terra não sabem que são exactamente os mesmos e que as suas diferenças são demasiado invisíveis para terem algum significado e no entanto fazem disso religião, lutam e cospem sangue pelas ideias, idiotas, idiotas, idiotas, e todos sabem que quando a cabeça se agacha no peito do amante tudo o que sobra é lixo e é inútil e mesmo assim teimam prosseguir no nada. Ainda que a manhã seguinte seja uma certeza.
NC

domingo, fevereiro 13, 2005

Estúpida e imensa alegria

Dedicado às manas Madruga

Bailas nos meus sonhos como um sorriso que plantaste para sempre no meu rosto. Chegaste agora a casa, vinda da praia e dizes que viste crianças, muitas, que estas pulavam de um lado para o outro e erigiam castelos de areia. Olhas-me nos olhos, como se toda a verdade estivesse neles, e explicas-me que a primeira barreira a ceder ao ímpeto das águas foi o fosso construído à pressa; que a água do mar inundou o recipiente para além da sua capacidade, e que a ponte de areia que o atravessava, dissolveu-se exausta na água que corria. Dizes que as crianças sorriem e cantam a alegria em gargalhadas, como tu já foste feliz um dia. Sentes que esse dia está a uma distância tão imensa como a água que hoje te salga a pele. Chegaste a casa, vinda da praia e uma estúpida alegria baila-te na pele e nos olhos: deitas-te na cama,

(o ténue vestido de linho a antever-te a nudez: por baixo do vestido reduzido, adivinho a intimidade que hoje ainda me entregarás)

e dizes que as crianças de seguida compraram gelados; que pegaram nas bicicletas e andaram andaram andaram. Deram às pernas nas bicicletas até a pele ficar rubra e os bafos saírem-lhes pela boca, como as chaminés da fábrica que, da janela do quarto, vemos ao longe. Eu vejo que estás feliz, que uma sinestesia eufórica embriagou-nos os sentidos e quase dizes

amo-te

peço que repitas, mas tu devolves um

anda cá.

E eu vou. Inseguro, com medo de tanta alegria, preparado para o pior, abraço-te. Digo

adoro-te, e tu beijas-me a pele, trincas o meu ombro e dizes

esta vai deixar marca

e aí, ainda fora de mim, cheio de tua atenção, só penso que tens razão, que este momento vai mesmo deixar marca:

é certo e sabido que será imenso o tempo até voltar a ver-te assim tão feliz.

PF

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Modos Diferentes de Amar / Mulheres

Esta noite sonhei contigo, Isilda. Entraste pelo meu sonho adentro sem eu te dizer nada. Sorrias e estavas bonita, como as últimas memórias que guardo de ti, a lembrança da miúda mais bonita da turma. Devia ser verão, pois estavas com uma t-shirt pequenina que deixava perceber o bikini, e sorrias como as flores coloridas que trazias por baixo. Nesta noite falámos muito, contei-te as novidades todas, contaste as tuas novidades todas, falámos do tempo todo que passou, do teu curso inacabado e até falamos daquele concurso de misses em que entraste e ganhaste um prémio. Sorrias e eras bonita e, como um filme que acaba passadas duas horas, naquela brevidade de tempo nocturno fomos felizes.

Desembrulho-me dos lençóis ternurentos e volto a ficar sozinho, dispo a roupa (nunca gostei de pijamas mas o frio irónico obriga a alterar as convicções) entro no duche e a água quente acorda-me para a brutalidade da manhã. O microondas inteligente aquece o leite e saio para a vida lá fora.

Recebo um toque no telemóvel: “Cheguei. Estou à entrada, vem cá ter. Até já. Bjs”. Encontramo-nos na fnac do Chiado com um par de beijos seguidos de um café que aquece a tarde. Vens a minha casa. É bonita, dizes. Mudei-me há pouco, digo-te. Vou oferecer-te qualquer coisa para a tornar ainda mais bonita, dizes. Sorrio, só. Ficas sentada no sofá enquanto eu ponho um disco a tocar, música calma, uma escolha premeditada: tu gostas do piano de Bill Evans, eu coloco um disco de Bill Evans. “Sunday at the Village Vanguard”. É domingo, não estamos em Nova Iorque nem num clube de jazz de uma zona fina da cidade, mas a tarde cai devagar e sabe bem. Vais dizendo coisas variadas e mostras as compras acabadas de fazer: duas camisolas e roupa interior comprada na loja Women’s Secret. Mostras-me como funciona o wonderbra e eu digo que não gosto das tuas compras, tu provocas-me dizendo que vestido fica muito melhor… Não chegamos a confirmar a veracidade das tuas palavras, que fazes sempre acompanhar de um sorriso onde ocultas a possível maldade com uma dose de inocência verdadeira. Sinto-me culpado desta amizade sexy e fico a pensar na improbabilidade de se ser fiel. Dizes que é tarde e tens de ir, mas prometes voltar em breve.

Saio à rua e o jornal triste não traz notícias sorridentes. Sento-me no café a observar as pessoas aceleradas que passam, um rapaz de cabelo grande tropeça e espalha livros e folhas pelo chão e a multidão segue apressada. Demoro-me à mesa com a chávena vazia e mirar títulos cinzentos e penso em como morder a vida. Envio uma sms. Poucos minutos depois o telemóvel nervoso avisa-me que vens.

Trouxeste o cabelo escondido, no rabo-de-cavalo do costume, a ocultar a magia toda que os cabelos soltos prometem. Anita, naquela noite fomos o mundo todo. Os copos de um tinto espanhol, Conde de Valdemar Crianza Rioja, doce e suave como os teus lábios, amoleceram os corpos que se deixaram deslizar pela brandura quente da noite. Comecei por ferver água para o chá e começaste por deixar transparecer dois centímetros da blusa à medida que me abrias a alma. Fomos desejo ondulante guiado pelas voltas ternas do piano que ainda tocava desde o Village Vanguard de Nova Iorque, deixei a aparelhagem ligada toda a tarde e toda a noite, e mesmo deste lado do Oceano não se perdia nem uma tecla de emoção, as vidas destes desconhecidos tristes eram as mesmas. Beijamo-nos demoradamente, acendeste o cigarro e adormecemos a pensar que foi bom. Na manhã seguinte conseguiste ser mais fria que a pedra de gelo que arrefeceu o meu moscatel da noite anterior e foste embora sem fazer barulho. Continuei perdido no mundo e não foste tu quem me salvou. Durante a noite sonhei com a Isilda.
NC

segunda-feira, janeiro 24, 2005

O som e a fúria

Em memória de William Faulkner (1867-1962)
Esqueces-te frequentemente que a pele que te cobre o corpo delgado é minha. A tua carne deixou de ser tua no dia em que me aproximei de ti. Perguntei-te se querias ser minha para sempre e tu disseste que sim – que querias ficar comigo todo esse tempo: inclusivé para além do significado que a palavra comportava. Fugiste faz hoje já não sei quantos meses e pareces não dar grande importância ao facto de que quando falas é a minha voz que escutas e que de cada vez que abordas um estranho é o meu cheiro aquele que este sente.



E eu ao fundo da escada à espera que descesses. Já desço, foi o que disseste e eu acreditei. Envelheci ao fundo daquelas escadas. Esperei-te mesmo depois de me ter apercebido que eras tu a estranha que dobrava a esquina. Trocámos olhares, trocámos de corações. E o rosto que ostentas é meu. A fotografia que está no teu bilhete de identidade tirei-a quando fiz vinte e quatro anos: fazia muito frio, mesmo dentro do meu quarto aquecido pelo termoventilador, e coloquei em volta do pescoço o cachecol cinza que me ofereceras para remediar o sangue que convocaste à minha pele. Tenho ainda na mente o sangue que aflorou aos teus dentes. É meu - o sangue, ainda te perguntei – mas não deves ter ouvido. Respondeste com um sorriso que foi como um ruído nos meus ouvidos e aplicaste de seguida uma gargalhada ao vexame de mim. Depois, foste até à casa de banho e usando a minha escova de dentes, limpaste com círculos imperfeitos o sangue que ao branco dos teus dentes se abordava numa culpa sem retorno.



Não podes por isso convocar o medo de me voltares a ver porque o medo tem tanta legitimidade para estar aqui como a própria palavra: os inauditos conjuntos de sons que embriagados morrem aos teus lábios, onde todos fomos os amantes e todas as palavras bonitas, amanticidas, sucumbem com uma velocidade em fúria. És num corpo toda a tristeza do mundo – e eu sinto que falta ainda um pouco do meu sangue que ficou alojado à tua vida: a mesma vida que agora é a minha. Digo-te que nem precisas de voltar atrás, eu aguardarei ao fundo da escada, sabendo que és minha para além daquilo que a palavra sempre comporta. A pele deteriora-se a cada dia que passa e os meus cabelos ficam mais brancos: como a copa das casas inundadas pela neve que caía no dia em que me vendeste a alma, a troco da minha dedicação à obra maior que eras tu. O teu sorriso perfura-me ainda os tímpanos como uma nova gargalhada. O meus dedos amarelecem, as minhas unhas sujam-se mas eu fico mais um pouco querida. Mesmo que nunca mais me digas que me amas e eu só sinta que o tempo passa, porque todos os dias a noite entra pelo meu coração dentro só para que eu continue a recordar-me de ti.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Relação Feliz a Curto Prazo, Setembro

Como as mais frias tardes de Dezembro, chegaste. Trazias contigo uma espécie de sufoco, parecido com um cachecol mas que não deixava respirar, enrolada ao pescoço. Desapertei-te os botões para que pudesses respirar um pouco mais. Soltavas palavras. À medida que a roupa se sumia, as vontades encharcavam-se e roubava-mos o sentido às coisas. Era noite e já não foste embora.

Foi no prazer do calor de Agosto que te sorri primeiro. O teu corpo boiava no rio apoiado numa bóia grande que outrora havia funcionado como roda grande de tractor. Revi-te, a miúda mais bonita da escola, dois anos mais nova que eu. Deves ter reconhecido o rapaz pequeno dois anos acima do teu ano. Sorriste, pelo menos. Na escola nunca falamos muito, pois não? Nesse dia, no rio de Agosto estava pouca gente e a vontade de sorrir foi maior que o socialmente correcto para dois desconhecidos que pela rua evitam sempre esgares comprometedores. Eu nadava e tu boiavas e éramos tudo o que podia haver. Já não sei se a minha namorada sabia que tinha ido nadar, nada interessava. Éramos os dois.

Uma vez a meio da infância fui com o meu tio de mota até ao rio. Foi num dia em que não fiquei a ouvir a avó contar histórias do homem que carregava às costas feixes de lenha para a lua. Fui na mota, agarrado com muita força à cintura do meu tio para não cair. Ele ia buscar alguma coisa que ficou esquecida no campo que fica perto do rio. Depois de lá chegarmos ao campo convenci-o a irmos ao rio. Ele levou-me lá e nunca ninguém soube deste desvio. A água corria e na margem havia vacas grandes a comer erva. O meu tio, muito baixo e tímido, nunca se casou e encontrou a razão da existência nas pipas de vinho tinto. Quando os meus pais descobriram o vício do vinho foi mandado para casa de uns tios onde trabalhava no campo e ninguém fez mais perguntas.

Chegaste na noite e disseste uma coisa devagar. Eu disse que sim. Nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita, nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita enrolada num vestido curto, nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita enrolada num vestido curto a sussurrar coisas quentes ao ouvido. Eu sorri-te e fomos felizes por um tempo. O tempo é sempre curto para fazermos tudo o que queremos. E o tempo é sempre longo demais porque passado algum tempo morrem-nos as febres do amor.

Essa primeira noite que se reflecte hoje no tecto vazio para onde estou a olhar há duas horas e quarenta e sete minutos foi o princípio do fim. Foi o princípio de um mês de ternura lubrificada em que cada momento era intensificado ao limite. Até perceber que não havia mais nada. Fomos carne por um tempo. Foi o princípio do fim da ilusão que pode haver calor para sempre, foi o fim do engano do “para sempre”.

Quando aos onze anos, no casamento de uma prima, dancei com a Cristina, uma colega de turma mais alta e bem feita (pelo que me lembro), tive pela primeira vez consciência do desejo. Nessa altura deveria andar apaixonado por alguma das dozes colegas de turma ou por alguma rapariga mais nova mas mais bonita da classe mais abaixo. Mas a Cristina foi, nessa dança, o amor.

Hoje não tenho um rio onde me possa esconder e não sei por que caminhos desviados anda a mota velha do meu tio. Hoje chove lá fora e tu, que foste à rua para sempre, não levaste guarda-chuva. Aqui dentro está frio, ainda não tive coragem de ligar o aquecedor porque eu também estou frio por dentro e assim é mais fácil de sofrer, ao mesmo tempo que os espirros avisam que fiquei constipado. Uma vez amei. Talvez fosses tu ou alguém parecido. Não interessa, nunca ninguém soube e ninguém vai querer saber das paixões que não valem nada.
NC

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Chaga

Ao acordar, dei-me conta que desapareceras. Sem bilhetes ou pronúncios, uma massa viscosa e translúcida, desfeita em pranto, dormia no teu lado da cama. A cama, com os lençóis brancos molhados, exalava um cheiro que reconheci como sendo o teu. O cheiro era o mesmo que trajavas no dia em que te aproximaste, pequenina e em murmúrio,
como num medo mudo,
e disseste
vou desaparecer um dia e tu já não serás ou saberás quem és, deixa que me parecia sempre perfeita para que eu pudesse ripostar que
vamos ser felizes.
Ao acordar, percebi que deras lugar a um pedaço de mim, desfeito em ti, como em todas as manhãs em que acordaste e eu, na pressa dos dias, corri para o banho, barbeei-me e escolhi a gravata, as calças, a camisa, as meias, os sapatos, um dos três relógios em consonânica com a primeira. Sem te olhar, dizia
vou andando
e tu, passiva e importante, como sempre, deixavas-te estar. Não
tugias nem mugias,
expressão que gastavas à exaustão para troçar comigo, de todas as vezes que te revelavas a mim e eu
como num medo
confessava em pânico por entre um murmúrio, agradecendo a benção daquele momento
que terei feito eu?
Equipada dessa indiferença que ensaiavas ao espelho – inerte e segura de ti, desaparecias dali e o teu corpo era o pronúncio dessa mesma ausência. Disposta horizontalmente ao abandono, colocavas as mãos em cruz sobre a barriga tapada pelos lençóis e miravas-me com curiosidade de miúda perdida
a miúda perdida mais bonita
sempre a mais bonita: da classe, da rua, do bairro: eu, por outro lado, sempre fui o certinho, o futuro genro de todas as mães dispostas em fila junto aos autocarros que partiam nas visitas de estudo do ciclo.
Fica sempre com o delegado de turma, diziam. O delegado de turma era eu. O atinado, orientado, o prodígio. Embora para todos os outros não passasse de um reles miúdo irritante
(vulgo responsável)
que passava as noites sozinho com a intimidade nas mãos, enquanto tinha sonhos com as coxas das mulheres mais velhas que conhecia.

Quando eu tivesse abandonado o espaço, levantar-te-ias; dirigir-te-ias à casa de banho para enfim vagares o meu cheiro da pele que sentira a erosão dos meus dedos e verificarias, através de um exame rápido às pálpebras, se estavas de novo anémica. Eu já partira, e
sedento de ti
de auricular no ouvido, fazia tantos contactos quanto os possíveis só para evitar o aborrecimento do tráfego que cruzava em cada hora de caminho. Ao décimo telefonema, saudaria em estéreo com o interlocutor do telemóvel, a recepcionista da empresa. Ao pedir o primeiro café do dia, sentar-me-ia à secretária para não voltar a sorrir durante todo o dia, senão no momento em que chegaria a casa com a gabardine sobre o braço e me cruzaria de novo contigo. Entraria pela sala como sempre e
numa doce calma, um afago quente que aceitavas em cada esgar meu
perceberia que outro homem que não eu passara ali o dia contigo. Sabia-o, porque tinhas ainda no rosto a frescura da ilusão de um dia seres feliz
ou então sabia-o simplesmente porque em cada uma dessas divisões, outros perfumes fundiam-se no espaço que compráramos ainda na altura que eras a Maria Assunção Rodrigues, sem Ferreira
(não me chames Assunção)
esse corpo híbrido feito de palavras que alteramos ao primeiro sim, como se nos esquecessemos nesse breve momento, nesse instante que nos liga a outra pessoa por tempo indeterminado, que o nosso nome é produto de outras vidas, vidas que nos geraram: uma massa viscosa perdida ao longo de um ventre que tem gravado o nome que usaremos o resto da vida.

Nos meus lençóis, habita ainda aquela matéria com cheiro a ti que invadiu o meu sono. Os lençóis encharcam-me a pele: a massa diluiu-se ao longo de toda a cama. As janelas anormalmente fechadas confundem os contornos daquilo que seria o teu corpo. Eu, olhando o tecto, coloco as mãos sobre a barriga como tu fazias e ensaio uma dúzia de notas ao piano que nunca fui capaz de tocar: os meus dedos mergulham no pedaço de carne esponjosa que tomou o meu corpo. Num reflexo de criança, levo os dedos ao nariz para cheirar o líquido
quente, melodioso com cheiro a ti
e este corrói-me uma das narinas. Com pouco esforço, puxo a narina que quer ceder e toda a asa que compõe o nariz aquilino
(narigudo)
cede igualmente, como um pedaço de pele escamada pela exposição ao sol, lavrando um golpe fundo até aos olhos que sempre tanto gostaste. Vejo-te ao longe, reflectida no espelho onde te maquilhavas. Especializaste-te em fazê-lo de forma a que quem visse, pensasse que não tinhas maquilhagem: como se a tua beleza fosse sempre natural
perfeita e
imatura: como se atirasses à cara do mundo que não era possível ficares mais bela que a ideia que todos já tinham de ti
assim, pequenina e doce: agarrada a mim, como eu agarrava a vida,
com medo – temente a mim, comigo receoso de um dia acordar e perceber que partiras; um outro perfume te levara de mim e eu já não era nada. Como se te fartasses da minha indiferença, da minha quase que evidente incerteza e enfim eu me transformasse em uma massa viscosa que a ti pertencia. Como se tudo isso me trouxesse um receio que não controlava e eu um dia ainda voltasse a pensar
como no primeiro dia, pequenino e em murmúrio,
num medo
um dia vamos ser felizes. Mas aí, com todas as tuas certezas, mais que evidentes seguranças, deixasses bem claro por entre os teus medos e vergonhas que
já era tarde.
PF