segunda-feira, janeiro 24, 2005

O som e a fúria

Em memória de William Faulkner (1867-1962)
Esqueces-te frequentemente que a pele que te cobre o corpo delgado é minha. A tua carne deixou de ser tua no dia em que me aproximei de ti. Perguntei-te se querias ser minha para sempre e tu disseste que sim – que querias ficar comigo todo esse tempo: inclusivé para além do significado que a palavra comportava. Fugiste faz hoje já não sei quantos meses e pareces não dar grande importância ao facto de que quando falas é a minha voz que escutas e que de cada vez que abordas um estranho é o meu cheiro aquele que este sente.



E eu ao fundo da escada à espera que descesses. Já desço, foi o que disseste e eu acreditei. Envelheci ao fundo daquelas escadas. Esperei-te mesmo depois de me ter apercebido que eras tu a estranha que dobrava a esquina. Trocámos olhares, trocámos de corações. E o rosto que ostentas é meu. A fotografia que está no teu bilhete de identidade tirei-a quando fiz vinte e quatro anos: fazia muito frio, mesmo dentro do meu quarto aquecido pelo termoventilador, e coloquei em volta do pescoço o cachecol cinza que me ofereceras para remediar o sangue que convocaste à minha pele. Tenho ainda na mente o sangue que aflorou aos teus dentes. É meu - o sangue, ainda te perguntei – mas não deves ter ouvido. Respondeste com um sorriso que foi como um ruído nos meus ouvidos e aplicaste de seguida uma gargalhada ao vexame de mim. Depois, foste até à casa de banho e usando a minha escova de dentes, limpaste com círculos imperfeitos o sangue que ao branco dos teus dentes se abordava numa culpa sem retorno.



Não podes por isso convocar o medo de me voltares a ver porque o medo tem tanta legitimidade para estar aqui como a própria palavra: os inauditos conjuntos de sons que embriagados morrem aos teus lábios, onde todos fomos os amantes e todas as palavras bonitas, amanticidas, sucumbem com uma velocidade em fúria. És num corpo toda a tristeza do mundo – e eu sinto que falta ainda um pouco do meu sangue que ficou alojado à tua vida: a mesma vida que agora é a minha. Digo-te que nem precisas de voltar atrás, eu aguardarei ao fundo da escada, sabendo que és minha para além daquilo que a palavra sempre comporta. A pele deteriora-se a cada dia que passa e os meus cabelos ficam mais brancos: como a copa das casas inundadas pela neve que caía no dia em que me vendeste a alma, a troco da minha dedicação à obra maior que eras tu. O teu sorriso perfura-me ainda os tímpanos como uma nova gargalhada. O meus dedos amarelecem, as minhas unhas sujam-se mas eu fico mais um pouco querida. Mesmo que nunca mais me digas que me amas e eu só sinta que o tempo passa, porque todos os dias a noite entra pelo meu coração dentro só para que eu continue a recordar-me de ti.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Relação Feliz a Curto Prazo, Setembro

Como as mais frias tardes de Dezembro, chegaste. Trazias contigo uma espécie de sufoco, parecido com um cachecol mas que não deixava respirar, enrolada ao pescoço. Desapertei-te os botões para que pudesses respirar um pouco mais. Soltavas palavras. À medida que a roupa se sumia, as vontades encharcavam-se e roubava-mos o sentido às coisas. Era noite e já não foste embora.

Foi no prazer do calor de Agosto que te sorri primeiro. O teu corpo boiava no rio apoiado numa bóia grande que outrora havia funcionado como roda grande de tractor. Revi-te, a miúda mais bonita da escola, dois anos mais nova que eu. Deves ter reconhecido o rapaz pequeno dois anos acima do teu ano. Sorriste, pelo menos. Na escola nunca falamos muito, pois não? Nesse dia, no rio de Agosto estava pouca gente e a vontade de sorrir foi maior que o socialmente correcto para dois desconhecidos que pela rua evitam sempre esgares comprometedores. Eu nadava e tu boiavas e éramos tudo o que podia haver. Já não sei se a minha namorada sabia que tinha ido nadar, nada interessava. Éramos os dois.

Uma vez a meio da infância fui com o meu tio de mota até ao rio. Foi num dia em que não fiquei a ouvir a avó contar histórias do homem que carregava às costas feixes de lenha para a lua. Fui na mota, agarrado com muita força à cintura do meu tio para não cair. Ele ia buscar alguma coisa que ficou esquecida no campo que fica perto do rio. Depois de lá chegarmos ao campo convenci-o a irmos ao rio. Ele levou-me lá e nunca ninguém soube deste desvio. A água corria e na margem havia vacas grandes a comer erva. O meu tio, muito baixo e tímido, nunca se casou e encontrou a razão da existência nas pipas de vinho tinto. Quando os meus pais descobriram o vício do vinho foi mandado para casa de uns tios onde trabalhava no campo e ninguém fez mais perguntas.

Chegaste na noite e disseste uma coisa devagar. Eu disse que sim. Nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita, nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita enrolada num vestido curto, nunca soube dizer que não, principalmente a uma mulher bonita enrolada num vestido curto a sussurrar coisas quentes ao ouvido. Eu sorri-te e fomos felizes por um tempo. O tempo é sempre curto para fazermos tudo o que queremos. E o tempo é sempre longo demais porque passado algum tempo morrem-nos as febres do amor.

Essa primeira noite que se reflecte hoje no tecto vazio para onde estou a olhar há duas horas e quarenta e sete minutos foi o princípio do fim. Foi o princípio de um mês de ternura lubrificada em que cada momento era intensificado ao limite. Até perceber que não havia mais nada. Fomos carne por um tempo. Foi o princípio do fim da ilusão que pode haver calor para sempre, foi o fim do engano do “para sempre”.

Quando aos onze anos, no casamento de uma prima, dancei com a Cristina, uma colega de turma mais alta e bem feita (pelo que me lembro), tive pela primeira vez consciência do desejo. Nessa altura deveria andar apaixonado por alguma das dozes colegas de turma ou por alguma rapariga mais nova mas mais bonita da classe mais abaixo. Mas a Cristina foi, nessa dança, o amor.

Hoje não tenho um rio onde me possa esconder e não sei por que caminhos desviados anda a mota velha do meu tio. Hoje chove lá fora e tu, que foste à rua para sempre, não levaste guarda-chuva. Aqui dentro está frio, ainda não tive coragem de ligar o aquecedor porque eu também estou frio por dentro e assim é mais fácil de sofrer, ao mesmo tempo que os espirros avisam que fiquei constipado. Uma vez amei. Talvez fosses tu ou alguém parecido. Não interessa, nunca ninguém soube e ninguém vai querer saber das paixões que não valem nada.
NC