quarta-feira, junho 29, 2005

Pinceladas sobre a vida de Sílvia – um estudo pouco exaustivo

Tragaste a noite ao mesmo ritmo que ias deitando abaixo a garrafa de rum que agora serve de cinzeiro. A roupa está disposta pelo quarto ao abandono do teu corpo e do de Silvia. Esta dorme a teu lado e a certa altura da noite pensas que a respiração desta te faz lembrar suaves murmúrios de anjos

(melhor: colas na tua mente o pulsar ritmado que sai pelas suas narinas à tua ideia de anjos repousando sobre uma nuvem, qual nenufar, no céu)

mas logo concluis que isso é efeito do alcool que bebes à quase mesma velocidade que queimas os cigarros contra os pulmões. Silvia tem o cabelo escorrido e o rosto está disposto sobre a brancura da almofada. Os seios cheios, fartos mesmo, escondem-se na camisola que não alberga o tamanho dos mesmos e não há palavras, por mais poéticas que sejam, que encobram os pensamentos que por momentos te ocorrem.

Acordaste agora e meditas sobre o inevitável breve final do mundo. Imaginas já o estrondo que ecoará na tua cabeça e fumas. Fumas muito e sempre. Fumas no carro, fumas quando chegas a casa, antes da refeição, durante e depois. Fumas na casa de banho. Fumas enquanto fodes. E Silvia nunca aguentou o cheiro do fumo. Sábe-lo, mas insistes em tirar mais um cigarro do maço e em acendê-lo. Silvia dorme. Levantas-te e agarrando na garrafa de rum que agora serve de cinzeiro, acercas-te da janela. Da janela vês o mar. E quando vês os miúdos que desafiam as ondas a rebentar sobre a areia, Silvia acorda. Disse

bom dia,

caminhou na direcção da porta e entre o caminho da cama e da casa de banho ainda tem tempo de completar

acaba com a merda do fumo,

que

estás a empestar o quarto. Silvia demora-se na casa de banho; e ouves a urina projectar-se na água da sanita. Sílvia puxa o autoclismo, o papel higiénico rola por duas vezes, a torneira abre-se, a água jorra contra o azulejo, a torneira fecha-se. Silvia descoberta ao mundo atravessa a porta da casa de banho que dá acesso ao quarto e diz

Já nem fazes a barba. Mas tu fazes-te de mudo. Continuas a fumar junto à janela e Silvia diz

Veste a camisola,

pois

está muito frio, mas tu devolves a ordem com a pergunta

Quando foi que tudo aconteceu

Quê, pergunta também

Quando foi que tudo aconteceu, repetes, tudo isto

Tudo, mas tudo o quê,

isto de estarmos aqui mas não estarmos: tu seres uma chata, e eu já não aguentar nada disto, respondes seco.

Silvia diz que não sabe mas adianta que talvez tudo tenha acontecido na altura em que te deixou que lhe tocasses a intimidade com os dedos com cheiro a cerveja e decidiu

deixar aquele ex marido banana para fugir contigo só porque tinhas um tom de voz que fazia lembrar o Antonio Banderas e prometeste que havias de comprar uma ilha algures no Mediterrâneo só para os dois. Ela diz que foi isso, que foi isso que aconteceu.

pf

segunda-feira, junho 27, 2005

Da Janela Mal Fechada


[Fotografia de Sandra Fernandes]

Quando conheci a Alice na discoteca grande, escura e apinhada de gente arranjada e bem vestida não imaginei vê-la agora assim. Ela era gira. De noite era mais gira e quando a vi de dia pensei que me tivesse enganado. Quando ela punha a pintura ficava mais bonita. Mas depois apareceu o puto, o Tó, e ela deixou de se pintar, deixámos de sair de casa tantas vezes, acho que deixámos mesmo de sair de casa, arranjámos esta casa aqui às Portas de Benfica que foi uma sorte, ainda agora vamos almoçar aos domingos pelo menos uma vez por mês a casa do tio que me ajudou, é verdade que não tem grande vizinhança mas de que nos serve isso, da janela vê-se o entulho das obras, não sei onde há tantas obras para haver tanto lixo, às vezes o pó entra-nos pela janela da cozinha que temos de fechar tudo e passamos assim dias sem ar de respirar, só ar de gente, ar já gasto, se o ar é gasto não sei mas sei que não é bom, não deve ser bom para o Tó, que ainda é pequeno, mas é rijo, já vai fazer dois anos para o mês que vem, gosto mesmo dele, nunca pensei que se pudesse gostar de um puto assim, da Alice é que parece que deixei de gostar, ela passa os dias por casa e não faz nada e não se interessa e não quer fazer nada, quando lhe digo olha no feira nova estão a pedir raparigas que eu vi no jornal lá no trabalho que o Berto me emprestou, ele que quer sair da oficina mas não arranja nada, compra sempre o jornal mas nunca encontra anúncios e quando encontra nunca o chamam, e a Alice não é mais a mesma, agora já não põe aquele baton que pôs daquela vez que a vi naquele bar da Buraca, estava ela com umas amigas e eu com uns amigos mas deixámo-los e ficámos só os dois. Acho que foi mesmo dessa vez que ficámos a conhecer-nos melhor, falámos a noite toda e ficámos sentados num muro lá na Buraca a ver as estrelas, lembro-me que havia nuvens, eram poucas, e foi bonito, mas agora ela já não me olha assim, só olha pela janela como se visse no entulho um rio, um mar feito de obras, de lixo, cimentos e pedras e tijolos em montes como peixes nesse mar grande para onde ela olha, ela deve vê-lo azul como está hoje o céu e eu falo-lhe mas ela pouco responde é por isso que quando chego do trabalho como depressa o jantar que ela fez e saio, vou ao café, bebo duas cervejas, às vezes três, ou quatro, e depois se me apetecer, e ao Carlos e ao Mário também, vamos os três a uma casa que fica na Bobadela, é longe mas vale a pena, e chego a casa tarde mas quando me lembro do olhar que a Alice já não tem é que penso nesta vida que não quero que seja a minha, a nossa vida era diferente e víamos o rio da janela e os peixes, os peixes mesmo a sério, saídos da água azul do rio no instante em que dão aqueles saltos como os atletas na televisão, sorriam para Alice a responder ao sorriso dela, dá-me um beijo e até amanhã.
NC

quarta-feira, junho 08, 2005

A estrada menos percorrida do mundo

A estrada da aldeia de Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo. Era uma estrada ladeada por dois muros altos, por onde quase ninguém já passava. Quase ninguém, porque todas as quintas feiras João e Mariana iam até essa estrada e permaneciam em silêncio amando-se no frio do carro. Enroscavam o corpo um no outro e uma luz diferente acendia-se nas seus bocas, nos seus olhos e nas suas narinas.

A estrada do Suze era a estrada menos percorrida em todo o mundo, porque os habitantes se tinham afastado dela no dia em que do alcatrão brotou uma frondosa árvore de folhas verdes e grandes como as nuvens no céu que abrigavam a sua copa. Á árvore apresentava uma tal largura e estava cimentada com tal força ao alcatrão que todos afastaram a ideia de a arrancar ou simplesmente passar ao lado da mesma. Preferiram abrir caminho pelo meio dos montes e erigir pontes onde antes apenas corriam rios.

Desde o dia em que a árvore brotou forte, alta e estupidamente persistente do chão que João e Mariana ficaram sem se ver. No lugar dos lugares onde trocavam beijos e apertões, nascera aquela árvore tão larga que ocupava toda o espaço da estrada. Tão alta e tão espessa que impedia qualquer comunicação entre as duas partes. João chegava sempre de sul, na bicicleta; Mariana do norte, no carro onde em breve fariam amor, abrigados na berma da estrada. Mas não agora. Não agora com aquela árvore a intrometer-se nas suas vidas.

Passaram-se anos e as ervas daninhas das bermas estenderam-se até à altura de dois homens; o alcatrão foi perfurado por arbustos e cardos que pintaram de outras cores o negro do alcatrão. A árvore cresceu cada vez mais e do seu topo já era possível avistar o outro lado do mundo; a árvore crescia organicamente livre e era impossível um animal de pequeno porte que fosse passar para o outro lado do tronco. A bicicleta de João já não conseguia passar a vegetação, pelo que este fazia o caminho até à árvore a pé, tomando cuidado com os cardos. Os braços de Mariana já só com dificuldades derrubavam toda a flora que se abrira ao mundo naquele sítio.
Mas ainda assim, João e Mariana foram voltando, quinta feira após quinta feira. Um muro de ramos e folhas, ferido de mensagens de um e outro lado, separava-os todas as quintas feiras. Hoje, quinta feira em cinzas, enublados pela memória de outros dias, voltaram de novo. Tendo compassos de viver distintos, chegaram contudo à mesma hora. E ambos gravaram com força no tronco uma mensagem, que não tinham por certo que não tivessem já deixado numa outra altura qualquer. Procuro-te, desenhou a mão de João. Aposto que nunca verás isto, pensou a cabeça. E assinou, perguntando-se de seguida se alguma vez ela leria a mensagem ou se simplesmente esta ainda se lembraria do seu nome.

Mariana, do outro lado da árvore, ao mesmo tempo e mais ao menos à altura deste, escreveu algo similar e não sabe se terá chorado para cima das raízes verdes, embora seja possível que sim. Ambos ignoravam o troço que cada um deles desenhara em cada um dos lados. Antes de partirem, rumo a suas casas, onde outras vidas lhes respiravam junto do peito, voltaram a olhar a árvore. Distantes por escassos metros, estavam os dois corpos erectos separados por uma barreira que ambos miravam com atenção. Os corpos tristes, recortados no meio da vegetação e chorosos de outra vida, imaginaram-se no silêncio da estrada onde ninguém passava. E neste entretanto, antes de voltarem costas e se despedirem, voltarem às suas vidas onde outras vidas lhes respiravam junto ao peito, ainda tiveram tempo para um último pensamento em silêncio: para a semana à mesma hora?

pf

quarta-feira, junho 01, 2005

Adeus Estranho


[Fotografia de Margarida Mendes]

Como num pesadelo disfarçado de nuvem ou como naquela música dos Supertramp, nunca aparecias a tempo da sobremesa e tinhas que ir embora mais cedo que as gaivotas, deixavas no ar esse perfume de aventura e aquele último olhar que se pega e não nos quer largar por muitos anos que se possam viver. Fazias essas coisas todas, bonitas e selvagens, que é costume fazermos com as pessoas que nos fazem sorrir. E tu fazias, arrancavas sorrisos e deixavas gente apaixonada às dúzias, arrebatada e enganada, e seguias e seguias e subias e corrias. Por vezes não é a companhia ideal para nadar num rio cheio de diques principalmente quando está a chover de novo e eu a perder um amigo, outra vez, diz-me algo inédito e assombrado, diz-me algo inédito e sussurrado. Há uma porta que se abre, lentamente, a pedir pessoas para entrar, há uma janela que chama o vento, há sempre aragem a respirar pela casa toda, há esse inspirar-expirar que os sítios mortos não conseguem, há essas rodelas de limão que enfeitam os copos que começam as noites que acabam os dias. Podes dizer-me adeus de forma levezinha, assim como seja só até amanhã, até breve, até logo, até já? Mesmo que o amanhã, o breve, o logo, o já não voltem, mesmo que seja só para disfarçar as palavras e enganar os olhos, que marejados nunca ficam bem nas fotografias. As mãos fortes. Bebe mais um gole, come mais um salgadinho desses que nos dão e são de borla, como que não faz mal, e mais um gole, é mais uma imperial se faz favor. Sai da pastelaria com essa expressão incógnita de quem sabe o futuro com três semanas de avanço, compra três maços de tabaco, apaga as três últimas noites da tua memória selectiva e refugia-te numa ilha deserta do mundo a beber Jack Daniels e a ler os livros do Hemingway. Esquece os telhados solarengos do mediterrâneo pobre, os gatos, a água, o mar e o céu, que é sempre azul como nos filmes. Lá fora ainda há assobios e vidros e cânticos e vozes aos milhares em gritos profundos, como em 1994, mas sem o super João Pinto, nem o Rui Costa mágico, nem o Vítor Paneira, o melhor médio direito pré-Figo, o enorme Vítor Paneira dos cruzamentos perfeitos, sem essa espécie de heróis e ainda assim conseguimos, graças a deus e ao resto. Perdido no estádio sobrelotado de cinquenta mil almas faltavas tu, quando julgamos estar próximos da perfeição é que a sentimos fugir lá longe.
NC