segunda-feira, julho 25, 2005

Ausência

Dedicado a Maria das Neves (1928-2005)

Os meus pais regressaram de Angola em Outubro de 1975, juntamente com mais uns milhares de portugueses, tendo pouco mais que o corpo apenso às almas e recordações que queriam esquecer mais depressa do que o percurso inverso para casa. O meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha deixado de falar e só voltaria a articular palavras mais de um par de anos depois. O meu pai e a minha mãe recomeçaram tudo de início e tiveram pouco mais ajuda que os meus avós e um ou outro vizinho ou familiar. A minha mãe, saudosa de outras paragens e com o coração triste, levava os meus irmãos para o parque infantil de Alhandra e deixava que estes brincassem nos velhos baloiços de madeira pregados ao chão. Levava renda e passava as tardes com linha branca na bolsa e duas agulhas na mão. Os meus irmãos brincavam e a minha mãe conversava com as outras mães. Nenhum dos meus tios paternos se preocupou se os meus pais precisavam de alguma coisa: na verdade muitos julgavam que o dinheiro

(que nunca recebemos)

do IARN bastaria para vivermos na opulência; que todos aqueles que viajaram na ponte aérea tinham trazido consigo um punhado de diamantes. Familiares houve que, distraídos da mudez do meu irmão mais novo, que para o caso é mais velho, preocuparam-se mais em que este se descalçasse para não sujar a alcatifa da sala, no lugar de oferecerem uma bolacha que fosse para matar a fome do pequeno de meses. Familiares houve que exigiram que se lhes limpasse a poeira que este trazia na roupa, uma vez que o meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha-se arrastado em brincadeiras infantis pelo chão do aeroporto e tinha as calças empoeiradas. Houve familiares que se preocuparam que este pudesse sujar as fronhas dos sofás que nós,

(os opulentos a queimar o dinheiro do IARN que soçobrava dos diamantes)

apenas anos muitos mais tarde pudemos comprar. Neste entretanto a minha mãe sentava-se nos bancos do parque infantil e tomava conta dos meus irmãos, parecendo ter mais vista do que aquela que os seus dois olhos poderiam cobrar. Numa tarde de calor ofegante, a minha mãe conheceu uma senhora que ainda não tinha chegado aos cinquenta anos. Morava mesmo em frente do jardim e tinha observado a minha mãe algumas vezes. De estatura média e pele muito macia, foi das poucas pessoas que nunca se importou com a roupa suja dos meus irmãos.

Ela e a minha mãe tornaram-se amigas. A minha mãe e a aquela mulher tiveram as conversas que esta nunca pode ter com as minhas tias paternas. Olhavam a minha mãe com desdém e o mais certo era que no conforto das suas casas lhe chamassem

Retornada

como quase toda a gente.

Um dia a minha mãe anunciou que estaria à espera do terceiro filho. Pouco tempo depois, a senhora de pele muito macia e cabelos brancos a haver, que era das poucas amigas que a minha mãe tinha, receosa que esta quisesse ficar apenas com os dois filhos, agarrou-a em choro e suplicou-lhe que não fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer. Que se fosse menina, seria madrinha da bebé. A menina não nasceu menina e a minha mãe nunca pensou fazer o que ela pensava que a minha mãe estava a pensar, mas quando eu nasci convidou-a à mesma para ser madrinha do pequeno, não pequena, que viria ao mundo alguns meses depois. A minha madrinha ainda contra argumentaria que o dissera apenas com medo que a minha mãe fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer, contudo, já era tarde de mais.

Dois meses depois do nascimento, seria baptizado na igreja matriz de Alhandra. Como combinado, quem celebraria o baptizado seria o meu velho tio padre, irmão da minha avó materna, que naquela altura ainda era novo, vindo do mosteiro Benedito de Singeverga. À entrada da igreja, o célebre pelas polémicas e posições extremas padre Carvalhão bloquearia a entrada do par, irmão e padre Rafael. Que na casa dele, só ele tinha unhas para tocar viola. O meu tio encolheu-se nos ombros e disse que se resolvesse a situação, que ele nada poderia fazer. Quando a situação já estava controlada, isto é, quem encabeçaria a cerimónia seria o padre residente, a minha madrinha insurgiu-se. De forma tão destemida que o Padre Carvalhão meteu o rabo entre as pernas e abriu as portas da igreja ao colega para que celebrasse o baptizado. A minha mãe sorriu depois da quase humilhação e eu não me recordo daquele velho padre voltar a ser dobrado por um popular da vila.

E passaram-se anos, alguns anos. Já a vivermos naquela que fora a nossa primeira casa, após a estadia de alguns anos com a minha avó, onde os meus pais dormiam num colchão de palha, a minha madrinha fazia-nos companhia ao final da tarde para ver televisão, o aparelho que apenas viria a comprar muitos anos depois. Lembro-me de crescer e ouvir a voz da minha madrinha misturada com o pedalar nervoso da velha máquina de costura da minha mãe. De a minha madrinha estar sentada numa das cadeiras da cozinha que dava acesso a uma pequena varanda e eu estar sentado por baixo da tábua de passar a ferro, máquina voadora expresso que comandava com perícia. Lembro-me de ouvi-la conversar, muito, com a minha mãe; de esta levar para ler e trazer revistas que trocava com a minha mãe. De estar em sua casa, sentado no chão frio da cozinha e olhar para a varanda solarenga de sua casa.

A última vez que estive com ela foi numa manhã de trabalho; atravessava a linha de comboio pela ponte e, apoiada numa bengala, estava mais ofegante que alguma vez a ouvi. Vi-a envelhecida, cansada, mas nunca pensei que estivesse saturada de viver. É verdade que se queixou da solidão que enfrentava e pedia que a minha mãe a visitasse mais amiúde. Pedia que eu próprio atravessasse as velhas portas de sua casa, onde se passou parte da minha infância. Disse-lhe que passaria por lá em breve, informei-a das últimas novidades e vi nela o orgulho que sempre demonstrou quando soube do curso terminado, do livro lançado; da certeza dos actos que dizia reconhecer no afilhado ou simplesmente da sua altura. Ficou para breve a minha visita. Mas em breve assim ficará. É verdade que já não a vou poder visitar mais. Que possivelmente não passarei mais as velhas portas de sua casa. Que ficarão na memória os seus beijos ao contacto com a pele suave e a sua voz misturada com o pedalar nervoso da máquina de costura. Dói perceber que a única coisa que lhe poderei oferecer de ora em diante é um ramo de flores.

Alhandra, 11 de Julho de 2005

pf

quinta-feira, julho 21, 2005

O trompete na noite


[Ilustração de Sofia Fonseca]

O rapaz do primeiro esquerdo dormia de manhã, acordava de tarde e vivia de noite. Chamavam-lhe assim porque era a única referência que os vizinhos tinham dele. Também tinha o cabelo esquisito, num penteado fora de moda, mas se alguém resolvesse tratá-lo por rapaz do cabelo esquisito havia sempre mais alguém com quem se pudesse confundir, por isso ficou sempre associado ao pequeno andar onde morava sozinho. O rapaz do primeiro esquerdo era único, embrulhado em mistério e segredos, e ninguém sabia o seu nome, desconfiavam mesmo que nem sequer tivesse algum documento legal. Associado àquela vida, apenas um registo numérico: a indicação do número de porta, número dez, e do andar, primeiro esquerdo. O prédio de Alfama onde o rapaz do primeiro esquerdo se refugiava era um cubículo apertado onde se amontoavam um sofá, alguns livros, meia dúzia de fotografias e muitos discos antigos. Os discos foram herdados de um avô, um velho poeta que, numa noite bêbada, teve morte trágica. O rapaz do primeiro esquerdo, fechado na sua casa, passava as horas a sentir toda a música do mundo, que para ele começava em 1938 e acabava em 1961. Naquela fabulosa colecção de discos estavam incluídos todos os negros americanos que fizeram a história da música do século vinte. O rapaz do primeiro esquerdo vivia sozinho e não conhecia ninguém. Um dia, deitado em leituras numa relva esquecida da cidade, conheceu uma rapariga. Ela tinha franja e meias às riscas, era baixinha e as roupas esquisitas escondiam a beleza que trazia. Ela não falava muito e quando perguntou as horas reparou que ele estava a ler o mesmo livro que ela trazia debaixo do braço: O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald. Ambos sentiam que aquela não era a época deles e ambos viajavam no tempo nas folhas dos livros antigos. Talvez nunca encontrassem o tempo e lugar ideais, mas as viagens valiam sempre a pena. A menina das meias às riscas prolongou o sorriso mais do que o habitual e o rapaz do primeiro esquerdo deixou-se afundar na água quente dos olhos interessados. Ela tinha de ir-se embora, ele deu-lhe um papel com uma morada: número dez, primeiro esquerdo, uma rua em Alfama. Os dias passaram, chegou o Verão, a cidade ficou vazia de gente, chegou o Inverno, as pessoas fecharam-se em casa. O rapaz do primeiro esquerdo vivia imerso nos livros que contavam histórias de amor impossíveis e tristes e desde há meses que só ouvia baladas, poucas de final feliz. Numa noite, o rapaz do primeiro esquerdo vestiu um fato preto, o único que tinha mas que estava impecavelmente limpo, e pôs o trompete a brilhar, que sabia tocar mas onde raramente mexia para não desafiar os mestres que amava. Nessa noite, triste de nuvens e sem estrelas, o rapaz do primeiro esquerdo vestiu o fato, saiu de casa com o trompete na mão e caminhou orgulhosamente sobre o largo do Rossio. A noite não estava fria, mas num instante a brisa transformou-se num arrepio que varreu as lâmpadas municipais. Em redor não passavam carros, o silêncio cobria a noite. O rapaz do primeiro esquerdo ergueu o trompete ao céu e soprou. I loves you, Porgy. I loves you Porgy, don't let him take me, don't let him handle me and drive me mad, If you can keep me I wants to stay here with you forever and I'd be glad. O rapaz do primeiro esquerdo sabia que aquele momento breve numa tarde de calor tinha sido o amor, igual àquele que tinha lido tantas vezes nos livros, daquele amor que levava à loucura, ao desespero e à morte. O rapaz do primeiro esquerdo sabia que a vida, ao contrário de alguns livros, não tem finais felizes. No fim da música subiu a colina até se esconder em casa. Era madrugada quando a campainha tocou.
NC

quarta-feira, julho 13, 2005

Lucidez

Dedicado à gentil Polegar
Eram dois amantes que se amavam loucamente mas que nunca em vez alguma tinham olhado nos olhos vazios um do outro. Tinham passado dois, três cinco ou dez anos e Jorge teria dificuldade em descrever o rosto de Mariana. Tudo na exacta proporção em que Mariana ignorava o contorno do queixo, das narinas, a brancura do esmalte dos dentes deste. Tinham-se designado amar desde o primeiro dia e isso era tudo o que precisavam. Ele dera-lhe a mão no escuro de um concerto e esta não se importou que estivesse demasiado escuro para sentir devidamente quem lhe tocava. Ele por seu lado não quis saber a que rosto pertencia a mão que, mesmo no escuro, este julgara mais delicada que as demais. Quis tocá-la, cheirá-la como se cheiram as flores e a medo conseguiu abordá-la, após trocar de cadeira por duas vezes. Abordou-a com a simples respiração e esta sem medo não se voltou para perceber quem lhe encostava os lábios ao pescoço enquanto lhe segurava a mão e a rondava de beijos. Mariana deixou-se agarrar pelas mãos inseguras de Jorge e poderá dizer-se que nunca mais alguma vez a largou. Caminhavam muito, sempre lado a lado, e juntos calcorrearam todas as calçadas de Lisboa, sem alguma vez se preocuparem com a figura que a seu lado materializava os passos na direcção da felicidade. Possivelmente descobririam aquilo que não entendiam e por isso preferiam assim permanecer. Àquela distância sentiam a respiração do outro e sempre acharam que essa era a melhor forma de se olharem. Desde o primeiro dia que tinham certezas que seriam eles próprios a fazer na sua cabeça a ideia do outro e isso não era mais importante que qualquer outra imagem que os seus olhos, se não estivessem vazios, lhes pudesse devolver. Era assim tanto que se amavam no escuro dos quartos, como escuro eram os seus olhos, se eles se tivessem dado à preocupação de perceber que cor morava em cada um dos olhos destes; era tanto assim que ambos se deixavam guiar pelo suave murmulhar dos gemidos de um e outro sem fazerem perguntas ou sem cometer o erro de tentar perceber a forma que o rosto do outro assumia. Amavam-se no escuro do quarto e muitas foram as vezes que, os corpos exaustos, mutilados a prova de risos e gargalhadas, se desconheceram no silêncio escuro das paredes vazias. Depois, deixavam-se perder e só no final,

quando já não havia mais amor dentro deles para brotar no corpo do outro

se deixavam tocar com as mãos e sussurravam enfim, como num afago e num olhar que nunca trocaram, «Para sempre». «Meu amor», respondia o outro.
pf

quinta-feira, julho 07, 2005

Modo Breve de Morrer


[Ilustração de Luísa Gonçalves]

Sente o suor que escorre de mim e diz-me boa noite, embora seja apenas tarde e este cubículo fechado tresande a maldade empresarial, acaba com o teu amor em part-time e vem ter comigo de vez, mata a ansiedade que chove em mim, pesada, deixa-me ser teu assim muitas vezes fechados em suor ou então só mais uma vez mas com o tempo todo, para que o mundo acabe bem. E molhado, como tu quando me sentes no teu ouvido a trincar esse breve momento de céu, deixa-me morrer, mas por amor de Deus, larga-me o sapato e deixa-me a camisa, que isto não são modos de receber clientes. E antes que a chuva acabe de vez lá fora vai-te embora que ele já deve estar à tua espera, e se fosse mentiroso como a primavera dizia-te que não me importava que fizesses o mesmo, só por imaginar sempre a tua pele ao dispor dos meus dentes afiados de calor. E nem que passasse mais meia hora conseguia perceber a frase que deixaste presa ao meu peito, triste, peludo e nu, pensativo pelo resto da semana até ao dia em que te vir sozinha às compras no centro comercial e te convença a levar o detergente em promoção para que acabemos mais uma vez deitados a beber os dias líquidos cheios de pressa para que a cerveja não fique morta. Como nós.

Vem. Responde-me de vez, não fujas à verdade vermelha que ainda não é tempo de cerejas. Diz-me só que afinal sabias tudo desde o princípio. Eu não me importo mesmo nada. Se a verdade é assim tão turva como poderemos nós alguma vez provar? Entra na cozinha marcada pelo óleo de fritar e olha-me, que me partes toda. Entra, mas não fiques calado como andas sempre, taciturno como sombra que sempre foste, apenas erguido quando obrigado. Fecha a janela que está frio, e chove, está frio, e chove, está frio, e chove, está frio. A televisão ligada é sinal que nunca aqui estiveste, sou só e eu sozinha perdida do mundo obrigada a ser vítima do mundo. Somos sempre vítimas quando queremos. Mas nunca me quiseste, pois não? Fecha a janela, que chove, é frio lá fora, chove. Nem a tarte de maçã que te quis oferecer e tu nem um sinal, nem uma fatia, nem só para provar, nem uma resposta. Por favor. Nem assim. Eu de joelhos, tu nada. Mostrengo de sombra que não és nada, uma tarte dada era só um modo triste de te dizer mais uma vez que me ajoelho para ti sempre que queiras e queria tanto que me quisesses, não queres saber. Já chega. Rouba-me e vai-te embora.
NC