Ausência
Dedicado a Maria das Neves (1928-2005)
Os meus pais regressaram de Angola em Outubro de 1975, juntamente com mais uns milhares de portugueses, tendo pouco mais que o corpo apenso às almas e recordações que queriam esquecer mais depressa do que o percurso inverso para casa. O meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha deixado de falar e só voltaria a articular palavras mais de um par de anos depois. O meu pai e a minha mãe recomeçaram tudo de início e tiveram pouco mais ajuda que os meus avós e um ou outro vizinho ou familiar. A minha mãe, saudosa de outras paragens e com o coração triste, levava os meus irmãos para o parque infantil de Alhandra e deixava que estes brincassem nos velhos baloiços de madeira pregados ao chão. Levava renda e passava as tardes com linha branca na bolsa e duas agulhas na mão. Os meus irmãos brincavam e a minha mãe conversava com as outras mães. Nenhum dos meus tios paternos se preocupou se os meus pais precisavam de alguma coisa: na verdade muitos julgavam que o dinheiro
(que nunca recebemos)
do IARN bastaria para vivermos na opulência; que todos aqueles que viajaram na ponte aérea tinham trazido consigo um punhado de diamantes. Familiares houve que, distraídos da mudez do meu irmão mais novo, que para o caso é mais velho, preocuparam-se mais em que este se descalçasse para não sujar a alcatifa da sala, no lugar de oferecerem uma bolacha que fosse para matar a fome do pequeno de meses. Familiares houve que exigiram que se lhes limpasse a poeira que este trazia na roupa, uma vez que o meu irmão mais novo, que no caso é mais velho que eu, tinha-se arrastado em brincadeiras infantis pelo chão do aeroporto e tinha as calças empoeiradas. Houve familiares que se preocuparam que este pudesse sujar as fronhas dos sofás que nós,
(os opulentos a queimar o dinheiro do IARN que soçobrava dos diamantes)
apenas anos muitos mais tarde pudemos comprar. Neste entretanto a minha mãe sentava-se nos bancos do parque infantil e tomava conta dos meus irmãos, parecendo ter mais vista do que aquela que os seus dois olhos poderiam cobrar. Numa tarde de calor ofegante, a minha mãe conheceu uma senhora que ainda não tinha chegado aos cinquenta anos. Morava mesmo em frente do jardim e tinha observado a minha mãe algumas vezes. De estatura média e pele muito macia, foi das poucas pessoas que nunca se importou com a roupa suja dos meus irmãos.
Ela e a minha mãe tornaram-se amigas. A minha mãe e a aquela mulher tiveram as conversas que esta nunca pode ter com as minhas tias paternas. Olhavam a minha mãe com desdém e o mais certo era que no conforto das suas casas lhe chamassem
Retornada
como quase toda a gente.
Um dia a minha mãe anunciou que estaria à espera do terceiro filho. Pouco tempo depois, a senhora de pele muito macia e cabelos brancos a haver, que era das poucas amigas que a minha mãe tinha, receosa que esta quisesse ficar apenas com os dois filhos, agarrou-a em choro e suplicou-lhe que não fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer. Que se fosse menina, seria madrinha da bebé. A menina não nasceu menina e a minha mãe nunca pensou fazer o que ela pensava que a minha mãe estava a pensar, mas quando eu nasci convidou-a à mesma para ser madrinha do pequeno, não pequena, que viria ao mundo alguns meses depois. A minha madrinha ainda contra argumentaria que o dissera apenas com medo que a minha mãe fizesse aquilo que ela estava a pensar fazer, contudo, já era tarde de mais.
Dois meses depois do nascimento, seria baptizado na igreja matriz de Alhandra. Como combinado, quem celebraria o baptizado seria o meu velho tio padre, irmão da minha avó materna, que naquela altura ainda era novo, vindo do mosteiro Benedito de Singeverga. À entrada da igreja, o célebre pelas polémicas e posições extremas padre Carvalhão bloquearia a entrada do par, irmão e padre Rafael. Que na casa dele, só ele tinha unhas para tocar viola. O meu tio encolheu-se nos ombros e disse que se resolvesse a situação, que ele nada poderia fazer. Quando a situação já estava controlada, isto é, quem encabeçaria a cerimónia seria o padre residente, a minha madrinha insurgiu-se. De forma tão destemida que o Padre Carvalhão meteu o rabo entre as pernas e abriu as portas da igreja ao colega para que celebrasse o baptizado. A minha mãe sorriu depois da quase humilhação e eu não me recordo daquele velho padre voltar a ser dobrado por um popular da vila.
E passaram-se anos, alguns anos. Já a vivermos naquela que fora a nossa primeira casa, após a estadia de alguns anos com a minha avó, onde os meus pais dormiam num colchão de palha, a minha madrinha fazia-nos companhia ao final da tarde para ver televisão, o aparelho que apenas viria a comprar muitos anos depois. Lembro-me de crescer e ouvir a voz da minha madrinha misturada com o pedalar nervoso da velha máquina de costura da minha mãe. De a minha madrinha estar sentada numa das cadeiras da cozinha que dava acesso a uma pequena varanda e eu estar sentado por baixo da tábua de passar a ferro, máquina voadora expresso que comandava com perícia. Lembro-me de ouvi-la conversar, muito, com a minha mãe; de esta levar para ler e trazer revistas que trocava com a minha mãe. De estar em sua casa, sentado no chão frio da cozinha e olhar para a varanda solarenga de sua casa.
A última vez que estive com ela foi numa manhã de trabalho; atravessava a linha de comboio pela ponte e, apoiada numa bengala, estava mais ofegante que alguma vez a ouvi. Vi-a envelhecida, cansada, mas nunca pensei que estivesse saturada de viver. É verdade que se queixou da solidão que enfrentava e pedia que a minha mãe a visitasse mais amiúde. Pedia que eu próprio atravessasse as velhas portas de sua casa, onde se passou parte da minha infância. Disse-lhe que passaria por lá em breve, informei-a das últimas novidades e vi nela o orgulho que sempre demonstrou quando soube do curso terminado, do livro lançado; da certeza dos actos que dizia reconhecer no afilhado ou simplesmente da sua altura. Ficou para breve a minha visita. Mas em breve assim ficará. É verdade que já não a vou poder visitar mais. Que possivelmente não passarei mais as velhas portas de sua casa. Que ficarão na memória os seus beijos ao contacto com a pele suave e a sua voz misturada com o pedalar nervoso da máquina de costura. Dói perceber que a única coisa que lhe poderei oferecer de ora em diante é um ramo de flores.
Alhandra, 11 de Julho de 2005
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