Chaga
como num medo mudo,
e disseste
vou desaparecer um dia e tu já não serás ou saberás quem és, deixa que me parecia sempre perfeita para que eu pudesse ripostar que
vamos ser felizes.
Ao acordar, percebi que deras lugar a um pedaço de mim, desfeito em ti, como em todas as manhãs em que acordaste e eu, na pressa dos dias, corri para o banho, barbeei-me e escolhi a gravata, as calças, a camisa, as meias, os sapatos, um dos três relógios em consonânica com a primeira. Sem te olhar, dizia
vou andando
e tu, passiva e importante, como sempre, deixavas-te estar. Não
tugias nem mugias,
expressão que gastavas à exaustão para troçar comigo, de todas as vezes que te revelavas a mim e eu
como num medo
confessava em pânico por entre um murmúrio, agradecendo a benção daquele momento
que terei feito eu?
Equipada dessa indiferença que ensaiavas ao espelho – inerte e segura de ti, desaparecias dali e o teu corpo era o pronúncio dessa mesma ausência. Disposta horizontalmente ao abandono, colocavas as mãos em cruz sobre a barriga tapada pelos lençóis e miravas-me com curiosidade de miúda perdida
a miúda perdida mais bonita
sempre a mais bonita: da classe, da rua, do bairro: eu, por outro lado, sempre fui o certinho, o futuro genro de todas as mães dispostas em fila junto aos autocarros que partiam nas visitas de estudo do ciclo.
Fica sempre com o delegado de turma, diziam. O delegado de turma era eu. O atinado, orientado, o prodígio. Embora para todos os outros não passasse de um reles miúdo irritante
(vulgo responsável)
que passava as noites sozinho com a intimidade nas mãos, enquanto tinha sonhos com as coxas das mulheres mais velhas que conhecia.
Quando eu tivesse abandonado o espaço, levantar-te-ias; dirigir-te-ias à casa de banho para enfim vagares o meu cheiro da pele que sentira a erosão dos meus dedos e verificarias, através de um exame rápido às pálpebras, se estavas de novo anémica. Eu já partira, e
sedento de ti
de auricular no ouvido, fazia tantos contactos quanto os possíveis só para evitar o aborrecimento do tráfego que cruzava em cada hora de caminho. Ao décimo telefonema, saudaria em estéreo com o interlocutor do telemóvel, a recepcionista da empresa. Ao pedir o primeiro café do dia, sentar-me-ia à secretária para não voltar a sorrir durante todo o dia, senão no momento em que chegaria a casa com a gabardine sobre o braço e me cruzaria de novo contigo. Entraria pela sala como sempre e
numa doce calma, um afago quente que aceitavas em cada esgar meu
perceberia que outro homem que não eu passara ali o dia contigo. Sabia-o, porque tinhas ainda no rosto a frescura da ilusão de um dia seres feliz
ou então sabia-o simplesmente porque em cada uma dessas divisões, outros perfumes fundiam-se no espaço que compráramos ainda na altura que eras a Maria Assunção Rodrigues, sem Ferreira
(não me chames Assunção)
esse corpo híbrido feito de palavras que alteramos ao primeiro sim, como se nos esquecessemos nesse breve momento, nesse instante que nos liga a outra pessoa por tempo indeterminado, que o nosso nome é produto de outras vidas, vidas que nos geraram: uma massa viscosa perdida ao longo de um ventre que tem gravado o nome que usaremos o resto da vida.
Nos meus lençóis, habita ainda aquela matéria com cheiro a ti que invadiu o meu sono. Os lençóis encharcam-me a pele: a massa diluiu-se ao longo de toda a cama. As janelas anormalmente fechadas confundem os contornos daquilo que seria o teu corpo. Eu, olhando o tecto, coloco as mãos sobre a barriga como tu fazias e ensaio uma dúzia de notas ao piano que nunca fui capaz de tocar: os meus dedos mergulham no pedaço de carne esponjosa que tomou o meu corpo. Num reflexo de criança, levo os dedos ao nariz para cheirar o líquido
quente, melodioso com cheiro a ti
e este corrói-me uma das narinas. Com pouco esforço, puxo a narina que quer ceder e toda a asa que compõe o nariz aquilino
(narigudo)
cede igualmente, como um pedaço de pele escamada pela exposição ao sol, lavrando um golpe fundo até aos olhos que sempre tanto gostaste. Vejo-te ao longe, reflectida no espelho onde te maquilhavas. Especializaste-te em fazê-lo de forma a que quem visse, pensasse que não tinhas maquilhagem: como se a tua beleza fosse sempre natural
perfeita e
imatura: como se atirasses à cara do mundo que não era possível ficares mais bela que a ideia que todos já tinham de ti
assim, pequenina e doce: agarrada a mim, como eu agarrava a vida,
com medo – temente a mim, comigo receoso de um dia acordar e perceber que partiras; um outro perfume te levara de mim e eu já não era nada. Como se te fartasses da minha indiferença, da minha quase que evidente incerteza e enfim eu me transformasse em uma massa viscosa que a ti pertencia. Como se tudo isso me trouxesse um receio que não controlava e eu um dia ainda voltasse a pensar
como no primeiro dia, pequenino e em murmúrio,
num medo
um dia vamos ser felizes. Mas aí, com todas as tuas certezas, mais que evidentes seguranças, deixasses bem claro por entre os teus medos e vergonhas que
já era tarde.
